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Quando o tecido ganha vida: o stop motion artesanal do FonFinFan

Idealizadores do ateliê, Tatiana Toledo e Wagner de Almeida transformaram décadas de pesquisa com bonecos em animações marcadas pela costura, pela memória e pela inventividade — uma linguagem que chegou à tela da TV Cultura

Uma chama azul dança sobre o fogão enquanto a água ferve dentro de uma pequena caneca. Poucos segundos depois, uma personagem abre o forno e retira um bolo caseiro com o símbolo da TV Cultura. A cena parece simples, como tantas manhãs que começam ao redor de uma cozinha. Fora do enquadramento, porém, cada detalhe revela um universo de paciência, precisão e inventividade.

A chama não é fogo de verdade. Foi criada com uma pequena “luz de fada” coberta por pedaços de celofane azul, movimentados com uma pinça entre uma fotografia e outra. A água fervente também guarda um truque: água com gás, substituída diversas vezes até que as bolhas fossem registradas no momento certo. Já o bolo mede apenas cinco centímetros e precisou de quatro protótipos para chegar à tela com a marca da emissora perfeitamente legível.

Por trás dessa pequena cozinha e de todo o universo do Ateliê FonFinFan estão Tatiana Toledo e Wagner de Almeida, idealizadores do projeto. Juntos, eles transformam materiais cotidianos em personagens, cenários e acontecimentos cinematográficos por meio da técnica do stop motion.

Em 2025, Tatiana e Wagner receberam o convite para produzir três vinhetas para a TV Cultura. O tema — a presença da cultura no cotidiano das pessoas — dialogava diretamente com a trajetória do ateliê. O desafio era fazer toda essa ideia caber em histórias de apenas dez segundos.

“Precisávamos criar situações cotidianas que, em poucos segundos, culminassem na apresentação da marca da TV Cultura. Isso nos obrigou a pensar muito sobre cada movimento, cada enquadramento e cada detalhe que apareceria na tela”, contam.

Da costura ao movimento

Muito antes de os personagens começarem a se movimentar diante da câmera, os bonecos já ocupavam um lugar central na trajetória de Tatiana e Wagner. Há mais de 25 anos, os dois pesquisam diferentes formas e materiais para construí-los.

Nesse percurso, experimentaram papel machê, empapelamento e outras técnicas. Foi o tecido, entretanto, que definiu a identidade do FonFinFan. A confecção têxtil aproximou os bonecos das práticas de costura já presentes no ateliê e passou a orientar tanto as pesquisas quanto a estética das criações.

Ao longo dos anos, esses personagens assumiram diferentes papéis. Houve bonecos produzidos para contações de histórias, festivais culturais, oficinas artísticas, campanhas publicitárias e até para compor a plateia de um programa de televisão. Outros nasceram como releituras de desenhos ou representações de pessoas comuns.

Durante a pandemia, quando os encontros presenciais se tornaram impossíveis, Tatiana e Wagner receberam encomendas de bonecos com as características de amigos e familiares. Eram presentes que, de alguma forma, ajudavam a diminuir distâncias e manter vínculos afetivos.

Foi também nesse período que os idealizadores do FonFinFan decidiram mergulhar no universo da animação. Começaram a estudar técnicas, aplicativos, materiais e possibilidades do stop motion. Ao mesmo tempo, passaram a observar de outra maneira os personagens que já produziam.

“Se eles tinham personagens, características e histórias, por que não poderiam também se movimentar?”, questionaram.

A pergunta deu início a uma nova fase de experimentação. Era preciso desenvolver articulações que permitissem o movimento sem abandonar o tecido, elemento essencial da identidade visual do ateliê. Vieram os testes, os erros, as reconstruções e as descobertas.

Essa passagem da costura para o stop motion não aconteceu a partir de uma fórmula pronta. Tatiana e Wagner foram encontrando soluções próprias, sempre procurando preservar o aspecto artesanal dos bonecos. Aos poucos, perceberam que costura e animação não eram caminhos separados: o tecido, o personagem, a construção manual e o movimento pertenciam à mesma pesquisa.

“Quando vimos que estava dando certo, não paramos mais.”

Dez segundos e quatro bolos

A produção das vinhetas para a TV Cultura colocou essa pesquisa diante de um novo tipo de desafio. Em uma animação de apenas dez segundos, não há espaço para movimentos ou objetos sem função. Cada elemento precisa contribuir para contar a história.

Na vinheta ambientada em uma cozinha, até o menor dos objetos exigiu planejamento. Para que o bolo de cinco centímetros exibisse corretamente o símbolo da TV Cultura, Tatiana e Wagner precisaram criar quatro versões. O modelo final foi feito de espuma, colorido com tinta PVA e sulcado cuidadosamente com um bisturi.

Os personagens utilizados nas animações têm aproximadamente 25 centímetros de altura. Por dentro, são construídos com madeira, arame e espuma, materiais que dão estrutura e permitem a articulação. Por fora, recebem o acabamento em tecido que caracteriza o trabalho do FonFinFan. Roupas, cabelos, acessórios e traços individuais também são desenvolvidos no ateliê.

Os cenários seguem a mesma lógica artesanal. Grande parte das estruturas, dos móveis e dos objetos é feita com papelão e outros materiais reaproveitados. A escolha não acontece apenas pela facilidade de acesso ou pela versatilidade. Há também uma intenção: mostrar que aquilo que seria descartado pode assumir uma nova função quando atravessado pela criatividade.

No mundo criado por Tatiana e Wagner, uma embalagem pode se transformar em parede; um pedaço de espuma, em bolo; celofane e uma pequena lâmpada, em fogo. Separadamente, são materiais simples. Diante da câmera, quadro a quadro, passam a compor uma narrativa.

“No final, é essa mistura que mais nos encanta no stop motion: transformar coisas pequenas e aparentemente simples em personagens, cenários e histórias que ganham vida diante da câmera”, afirmam.

Uma estética que preserva as marcas das mãos

Embora o stop motion possa utilizar diferentes recursos tecnológicos, sua essência permanece manual. Cada gesto de um personagem precisa ser criado, fotografado e recriado em uma posição ligeiramente diferente. É essa característica que aproxima tão profundamente a linguagem da maneira de trabalhar de Tatiana e Wagner.

Costura, crochê, pintura, escultura e reaproveitamento de materiais aparecem nos bonecos, nas roupas, nos acessórios, nas maquetes e nos objetos de cena. Em vez de esconder completamente o processo, os idealizadores do FonFinFan permitem que as marcas da construção permaneçam visíveis.

“Procuramos deixar claro que cada elemento que aparece em cena foi construído, pensado e transformado por mãos humanas e que tudo isso exige tempo, cuidado e dedicação.”

Esse tempo também integra a obra. Os pontos da costura, as marcas da pintura, as texturas dos materiais e até as pequenas imperfeições contam parte da história. São vestígios de práticas manuais transmitidas entre gerações, agora levadas para uma linguagem audiovisual.

Outra presença constante é o cotidiano. Uma mesa, uma roupa, uma casa ou um gesto aparentemente comum pode carregar lembranças e afetos. Ao transformar esses elementos em animação, Tatiana e Wagner constroem uma estética que encontra o extraordinário naquilo que está perto.

É nessa combinação entre trabalho artesanal, memória, cuidado e vida cotidiana que os dois reconhecem aquilo que é “profundamente FonFinFan”.

Um encontro com a memória da televisão

Produzir para a TV Cultura teve um significado especial para Tatiana e Wagner. A emissora é uma referência afetiva e artística para ambos, sobretudo pela maneira como utilizou bonecos para criar histórias e se comunicar com diferentes gerações.

Programas como Bambalalão, Rá-Tim-Bum, Vila Sésamo e Castelo Rá-Tim-Bum fazem parte dessa memória. Entre os personagens lembrados pelos artistas está o Ratinho do Castelo, cuja presença permanece no imaginário do público décadas depois.

Para os idealizadores do FonFinFan, trabalhar com uma emissora tão ligada à história dos bonecos na televisão brasileira representou mais do que uma conquista profissional. Foi uma confirmação de que a pesquisa iniciada entre tecidos, linhas e experimentações poderia encontrar novos públicos e ocupar outros espaços.

“Ter a oportunidade de contribuir com a nossa arte para uma emissora que tem uma história tão importante na produção audiovisual com bonecos nos deixou muito felizes e realizados”, dizem. “Foi uma confirmação de que estamos no caminho em que acreditamos e de que vale a pena continuar pesquisando e desenvolvendo essa linguagem.”

Novos personagens começam a ganhar vida

A parceria com a TV Cultura também abriu caminhos. Depois das vinhetas, Tatiana e Wagner receberam o convite para produzir um curta-metragem de animação sobre a infância da cacica Jaqueline Haywã, indígena em contexto urbano pertencente ao povo Hã Hã Hãe, da Bahia, e atuante no ABC Paulista na defesa da cultura e dos direitos indígenas.

Outro projeto em desenvolvimento prevê a criação de animações para um espetáculo musical sobre a geração de lixo e os problemas provocados pelo descarte irregular. Os personagens serão construídos com resíduos, como plásticos e embalagens, fazendo com que o próprio material ajude a contar a história.

O projeto reúne questões que já atravessam o trabalho do FonFinFan: animação, construção manual, reaproveitamento de materiais e reflexão sobre o cotidiano.

Há ainda o desejo de ilustrar livros com bonecos e maquetes, produzir versões animadas dessas histórias, criar videoclipes e fazer releituras de propagandas clássicas.

Quando começaram a estudar animação durante a pandemia, Tatiana Toledo e Wagner de Almeida queriam descobrir como movimentar os bonecos que já habitavam o ateliê. Encontraram um universo muito maior: uma linguagem capaz de reunir costura, memória, audiovisual, educação, sustentabilidade e imaginação.

Desde então, seguem avançando como se faz no stop motion: um pequeno movimento de cada vez. Sempre com tempo, cuidado e mãos à obra — e, como eles próprios dizem, “sempre animados”.

Conheça o trabalho de Tatiana Toledo e Wagner de Almeida no Ateliê FonFinFan: @fonfinfanatelie

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo