Teatro

Antonio Fagundes está certo ao barrar atrasados no teatro?

No programa “Por Dentro da Máquina”, jornalista relembra concerto de Rostropovich nos Estados Unidos e questiona se espectadores que chegam depois do horário devem perder o ingresso

Quem chega atrasado a uma peça de teatro deve ser impedido de entrar? E, caso isso aconteça, o valor do ingresso deve ser devolvido?

A política adotada pelo ator Antonio Fagundes em seus espetáculos é o ponto de partida de uma provocação feita pelo jornalista Heródoto Barbeiro no programa “Por Dentro da Máquina”, exibido no YouTube.

Antes de entrar na polêmica, Heródoto recupera uma experiência vivida durante a juventude, quando realizou um estágio no Arquivo Nacional dos Estados Unidos, em Washington.

Com pouco dinheiro, ele encontrou a oportunidade de assistir a um concerto no Kennedy Center. Como os preços dos ingressos variavam de acordo com a localização, comprou o assento mais barato disponível, na última fileira e próximo à porta.

A apresentação começaria às 19 horas.

No horário marcado, as portas foram fechadas. Ninguém mais entrou. O músico subiu ao palco, sentou-se com seu instrumento e iniciou o concerto.

O artista era Mstislav Rostropovich, um dos mais importantes violoncelistas e maestros do século 20, que posteriormente comandaria a Orquestra Sinfônica Nacional de Washington durante 17 temporadas.

Para Heródoto, aquela demonstração de pontualidade causou surpresa.

Quando o atraso do artista parece normal

A experiência nos Estados Unidos contrastava com situações que o jornalista estava acostumado a presenciar no Brasil.

Heródoto recorda, por exemplo, um espetáculo realizado no Parque Ibirapuera que começou com aproximadamente 50 minutos de atraso. Segundo ele, no horário previsto para o início da apresentação, o artista ainda estava jantando na Avenida Paulista.

O contraste revela uma curiosidade sobre a relação do brasileiro com o horário: muitas vezes o público aceita esperar quando o artista se atrasa, mas reage quando sofre as consequências de chegar depois do início de um espetáculo.

É justamente nesse ponto que Antonio Fagundes entra na história.

A regra de Antonio Fagundes

O ator é conhecido por adotar uma política rígida de pontualidade em suas peças. Quando o espetáculo começa, as portas são fechadas e os atrasados não podem mais entrar — independentemente de quem sejam.

Além de impedir o acesso, a produção não devolve o dinheiro do ingresso.

A justificativa de Fagundes é preservar a experiência das centenas de pessoas que chegaram no horário. A entrada de espectadores depois do início, com conversas, movimentos para encontrar os lugares e luzes de celulares, pode interromper a concentração dos atores e incomodar toda a plateia.

A regra já provocou reclamações, tumultos e até ações judiciais. O ator afirma, porém, que a maioria das decisões tem sido favorável à sua posição.

Em 2023, mais de 50 pessoas foram impedidas de entrar em uma apresentação da peça “Baixa Terapia”, no Rio de Janeiro, porque chegaram depois do início. A confusão foi tão grande que a Polícia Militar precisou ser chamada.

Quem deve arcar com o atraso?

A proibição da entrada divide opiniões.

De um lado, estão aqueles que consideram que a pessoa pagou pelo ingresso e deveria ter o direito de assistir ao restante do espetáculo, mesmo chegando atrasada. Também existem imprevistos, como congestionamentos, problemas no transporte público e dificuldades para encontrar estacionamento.

Do outro, está o argumento de que o horário faz parte do compromisso assumido no momento da compra. Se centenas de espectadores conseguiram chegar antes do início, não seria justo interromper a experiência de todos para acomodar quem se atrasou.

A discussão sobre o reembolso torna o debate ainda mais complexo.

Quem defende a devolução argumenta que o consumidor pagou por um serviço ao qual não teve acesso. Já a posição contrária sustenta que o espetáculo foi realizado normalmente, no local e no horário informados, e que a ausência foi provocada pelo próprio comprador.

Pontualidade é respeito ou rigidez excessiva?

Mais do que discutir uma regra de teatro, Heródoto Barbeiro propõe uma reflexão sobre responsabilidade, convivência e respeito pelo tempo do outro.

A pontualidade deve ser tratada como parte do espetáculo? O direito de quem chegou no horário deve prevalecer sobre o de quem comprou o ingresso, mas se atrasou? E seria justo impedir a entrada sem devolver o dinheiro?

No “Por Dentro da Máquina”, Heródoto não entrega uma resposta pronta. Ele coloca o público diante das duas partes do problema e deixa a decisão para quem assiste.

E você: Antonio Fagundes está certo ao fechar as portas e não devolver o valor do ingresso ou deveria permitir a entrada dos atrasados?