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Da brisa ao frame: Rastichong transforma histórias pessoais em animações feitas com IA

Dublador e animador encontrou na inteligência artificial uma maneira de realizar sozinho projetos que antes levariam até um ano — sem abrir mão da própria voz, do humor e da narrativa

Um personagem barbudo atravessa um universo psicodélico cercado por bocas flutuantes, cores vibrantes e situações que desafiam qualquer lógica. A cena faz parte de “O dia em que eu conversei com entidades”, animação na qual Diego Rastichong transforma uma experiência pessoal em uma viagem visual narrada e dublada por ele mesmo.

Antes da inteligência artificial, colocar uma história como essa em movimento exigiria meses de trabalho, uma equipe de animadores e um orçamento considerável. Para Rastichong, que já trabalhava com animação tradicional, a chegada das ferramentas generativas abriu a possibilidade de tirar antigas ideias da gaveta.

“Eu tinha projetos que demorariam um ano para ser feitos e, de repente, com a IA, eles poderiam ficar prontos em uma ou duas semanas. Achei isso mágico. Consigo animar no meu estilo, no meu traço e fazer sozinho, de casa, aquilo para o qual antes precisaria contratar vários animadores”, explica.

A primeira experiência foi justamente uma história vivida por ele em Brasília. O que começou como uma “experiência de doidão”, segundo o artista, terminou com a sensação de estar fora do próprio corpo. Ao transformar o episódio em animação, Rastichong percebeu que havia encontrado não apenas uma linguagem, mas também um público.

Um dos vídeos ultrapassou a marca de 100 mil visualizações e trouxe novos seguidores para redes sociais que estavam praticamente paradas.

“A história é toda doidona e acertou o nicho muito em cheio. Vieram muitos acessos, compartilhamentos e pessoas que têm a minha cara. É esse público que eu também quero levar para o teatro e para os meus shows: uma galera mais doidona, mais underground e que gosta desse universo”, conta.

Primeiro vem a história

Apesar do impacto visual das animações, Rastichong afirma que o ponto de partida nunca é a tecnologia. Antes das imagens, dos comandos e dos efeitos, precisa existir algo que mereça ser contado.

“A primeira coisa é a história. Pode ser uma história criada ou uma história vivida. Hoje em dia tenho mais tesão em contar as que vivi, porque a vida real já é tão cheia de loucuras engraçadas e memoráveis que, às vezes, nem é preciso inventar.”

Isso não significa que a invenção tenha perdido espaço. Humorista, roteirista e dublador, ele diz gostar de pegar uma ideia e “macerá-la” até extrair todas as possibilidades cômicas. Como exemplo, lembra que possui cerca de dez minutos de material falando apenas sobre baratas — parte do qual já virou uma pequena animação.

Depois da história surgem as vozes, a narração e as imagens. É nessa combinação que a experiência de Rastichong como dublador ganha importância. A IA ajuda a construir o cenário e colocar os personagens em movimento, mas a interpretação continua sendo feita por ele.

“A alma de uma animação dessas é minha. Quem escreveu o texto fui eu, quem viveu a história e está contando sou eu. Também sou eu quem manipula a máquina para ela entregar aquilo que quero. Para mim, é uma ferramenta — uma excelente ferramenta.”

Não basta apertar um botão

A facilidade aparente das ferramentas de inteligência artificial alimenta a impressão de que produzir uma animação consiste apenas em escrever uma frase e esperar o resultado. A experiência de Rastichong mostra que o processo pode ser bem mais imprevisível.

Em uma animação ainda inédita, ele precisava criar uma sequência na qual o personagem escorregava por uma rampa, arrombava uma porta de madeira e, imediatamente, aparecia caindo em alta velocidade através de um céu noturno.

Na cabeça do autor, a cena parecia simples. Para a máquina, tornou-se quase impossível.

“Passei três dias pedindo de todos os jeitos. A máquina simplesmente não conseguia fazer. E a culpa também é minha: ou eu estava fazendo o prompt errado, ou sendo detalhista demais, ou de menos. Até você conseguir explicar para a máquina o que quer, a coisa pode ficar muito bizarra.”

A solução veio menos da tecnologia e mais de um velho recurso da linguagem audiovisual: a montagem. Rastichong desistiu de gerar a sequência inteira e criou um corte que dava ao espectador a impressão de que o personagem havia atravessado a porta e começado a cair.

“Não ficou exatamente como estava na minha cabeça, mas usei o corte para pular aquela parte que parecia impossível de fazer”, diz.

O episódio serve como resposta prática para quem acredita que a IA elimina o trabalho artístico. A ferramenta produz imagens, mas ainda depende de decisões humanas para transformar tentativas, erros e limitações em uma narrativa que funcione.

“Uma ferramenta na mão de um artista pode produzir uma merda ou uma maravilha. Vai depender do momento, da história e até da brisa de quem está vendo. Sou profissional da área há muito tempo e sei o que estou fazendo com essa ferramenta.”

Um mês preso na mesma cidade dos sonhos

Depois de uma pausa provocada pelo excesso de trabalho e por problemas enfrentados com a publicação dos vídeos no Instagram, Rastichong prepara uma nova animação. Novamente, a história parte de uma experiência pessoal — desta vez, ocorrida enquanto dormia.

Durante aproximadamente um mês, ele sonhou repetidamente com a mesma cidade. O lugar, o caminho e a maneira de chegar eram sempre semelhantes, criando a sensação de estar preso em um universo paralelo que continuava existindo todas as noites.

“Eu chegava sempre do mesmo jeito e era sempre o mesmo lugar. É uma história que eu só contava para os amigos e que agora vou poder mostrar para um público maior. Acho que as pessoas vão pirar, porque é muito maneiro.”

As imagens da nova produção já estão praticamente prontas. Falta gravar o áudio, etapa essencial em um trabalho no qual a voz do criador funciona como fio condutor entre o relato pessoal, o humor e o delírio visual.

Para Rastichong, esse é o verdadeiro potencial da inteligência artificial: não substituir a criatividade, mas permitir que uma pessoa realize ideias que antes exigiriam anos de trabalho.

“Em duas semanas eu consigo matar um trabalho de um ano. É impressionante. Se você tem essa vontade de extrapolar e criar muito, a IA pode ser o passo que faltava para realizar.”

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo