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Literatura

No cyberpunk brasileiro de “Vulcânicos”, superpoder vira questão de segurança pública

Novo livro de Raul Tabajara mistura investigação, dilemas sobre eugenia e estrutura inspirada nos videogames; internado para uma cirurgia, autor não poderá participar presencialmente do lançamento na Bienal

Caipirinha nos bares, jovens circulando em Kombis modificadas e descendentes de super-heróis tentando sobreviver com poderes que já não têm a força — nem o glamour — de outros tempos. É nesse futuro brasileiro, embora nunca oficialmente identificado como Brasil, que Raul Tabajara ambienta “Vulcânicos”, novo livro publicado pela editora Noctívaga.

Na cidade litorânea de Boqueirão, os antigos grandes poderes se diluíram ao longo das gerações. Alguns descendentes de super-heróis conseguem apenas levitar pequenos objetos ou acender cigarros com os dedos. Para os chamados Vulcânicos, entretanto, a herança é bem mais perigosa: eles podem transformar partes do próprio corpo em lava e, durante uma crise, chegar à autoexplosão, atingindo todos ao redor.

Cabe a Daniel, agente da Força de Contenção de Supers, monitorar essas pessoas e agir quando considera que a população está em risco. A premissa conduz o livro a uma pergunta desconfortável: diante de um perigo real, em que momento a proteção da sociedade passa a justificar a perseguição — ou mesmo a eliminação — de determinados indivíduos?

“Para o Daniel, tudo é uma questão de protocolo. Se o protocolo permite, ele faz”, explica Tabajara. O personagem tem autorização para empregar força letal quando um super perde o controle. Embora sua religiosidade provoque hesitações, suas decisões são orientadas principalmente pelas normas da corporação.

Esse modo de enxergar o mundo começa a ser confrontado quando Daniel conhece pessoas que sofreram justamente por seguirem ordens sem questioná-las. É nesse choque que o autor encontra espaço para discutir responsabilidade individual, violência institucional e o limite entre segurança pública e eugenia — sem transformar o livro em um tratado ou oferecer respostas fáceis.

Um futuro que já começou

A presença de caipirinhas, Kombis e nomes familiares não é apenas uma maneira de colocar cores brasileiras em uma estética estrangeira. Para Tabajara, o país já apresenta há anos alguns dos elementos centrais das distopias cyberpunk: desigualdade extrema, mercados oficiais e paralelos convivendo lado a lado e grandes corporações concentrando poder.

“O Brasil já está dentro de um conceito cyberpunk faz um bom tempo”, afirma. “Não necessariamente na tecnologia ou na estética, mas naquele conceito principal das desigualdades e das megacorporações.”

A cidade fictícia de Boqueirão nasce desse olhar. O nome foi inspirado no bairro da Praia Grande, no litoral paulista, mas também aparece em diferentes regiões do país. Apesar das referências, o livro nunca declara que a trama acontece no Brasil — uma escolha que deixa no ar outra provocação: em um futuro tão distante e fragmentado, o país ainda existiria como o conhecemos?

O próprio cyberpunk, segundo o autor, já não representa necessariamente uma previsão realista do amanhã. Muitas das máquinas imaginadas por filmes e livros antigos se tornaram visualmente ultrapassadas diante de tecnologias que hoje cabem em pequenos componentes.

“Se a gente analisar friamente, eu pego uma estética antiga para falar sobre o futuro”, resume Tabajara.

Essa opção retrofuturista também aparece nas ilustrações de “Vulcânicos”, que evocam diferentes gerações dos videogames, com referências à pixel art do Mega Drive, aos gráficos tridimensionais do primeiro PlayStation e até a imagens produzidas no MSX.

Um livro pensado para ter “replay”

A experiência de Tabajara na indústria de games, na qual trabalha desde 2003, influenciou não apenas o aspecto visual, mas principalmente a estrutura narrativa da obra.

O autor compara a construção do livro aos jogos que apresentam, nas primeiras fases, lugares ou objetos aparentemente inacessíveis. Somente depois de conquistar uma nova habilidade o jogador consegue voltar e compreender como alcançar aquilo que sempre esteve diante dele.

“Eu pensei, como game designer: como posso estruturar o livro para que ele tenha um replay?”, conta.

“Vulcânicos” foi planejado como se fosse a primeira temporada de uma série, com cada capítulo funcionando como um episódio. As histórias acompanham diferentes personagens, mas compartilham detalhes e acontecimentos. Informações que parecem secundárias ganham outro significado à medida que a leitura avança.

“Fiz uma construção para que, na segunda leitura, a pessoa veja o que está acontecendo por trás, e não apenas o que está aparecendo na frente”, diz o escritor.

Há, segundo ele, três camadas narrativas ocorrendo simultaneamente: a trama mais visível, uma história que se desenvolve discretamente ao longo dos capítulos e uma terceira formada por pequenos sinais espalhados pelo livro. Revelar quem ocupa cada uma dessas camadas estragaria parte do jogo proposto ao leitor.

Entre consciência, corpo e identidade

Embora a investigação e as políticas de controle dos supers conduzam boa parte da trama, “Vulcânicos” também toca em questões como identidade, consciência e os limites entre seres humanos e máquinas.

Tabajara evita classificar a obra como filosófica. Para ele, as reflexões surgem das experiências dos personagens, especialmente de suas perdas, dúvidas e tentativas de entender o que os torna reais.

“Eu tratei o livro como uma história, onde acontecem algumas tristezas e algumas alegrias. Essas tristezas são a base da reflexão dos personagens”, explica. “Se, por acaso, o livro é filosófico, é porque em algum momento algum personagem sofre e o leitor pode discutir aquela situação.”

Autor ficará fora do próprio lançamento

Uma coincidência aproximou a vida do escritor do universo tecnológico que criou. Tabajara deveria participar do lançamento de “Vulcânicos” na Bienal, mas foi internado após uma hérnia provocar dores intensas e comprometer o movimento de um dos braços. Uma cirurgia está prevista para terça-feira.

O irmão do escritor encontrou humor cyberpunk na situação e observou que, justamente no dia do lançamento, ele receberia uma peça metálica na coluna e “viraria um ciborgue”.

Ainda no hospital, Tabajara também relacionou a experiência a uma das inquietações do livro: até que ponto uma pessoa continuaria sendo ela mesma se sua consciência pudesse ser separada do corpo?

A ausência física impede o autor de viver o lançamento como havia imaginado, mas a ironia não lhe escapou. Em um livro sobre poderes defeituosos, corpos imprevisíveis e tecnologias que desafiam a noção de humanidade, o criador acabou confrontado pelo próprio corpo justamente no momento de apresentar sua obra aos leitores.

Serviço

Livro: “Vulcânicos”
Autor: Raul Tabajara
Editora: Noctívaga
Site do autor: raultabajara.com.br
Instagram: @rtabajara
Onde comprar: site da editora Noctívaga e Amazon

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo