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Marcelo Tas revela como criou o Telekid e reflete sobre a inteligência artificial

Do rádio de ondas curtas ao “Castelo Rá-Tim-Bum”, comunicador relembra a criação de personagens marcantes e afirma que nenhuma tecnologia substitui a capacidade de emocionar

“Porque sim não é resposta.” A frase que apresentava o Telekid em Castelo Rá-Tim-Bum também ajuda a explicar a trajetória de Marcelo Tas. Antes de se tornar ator, apresentador, roteirista e diretor, ele foi uma criança inquieta diante de um mundo que parecia muito maior do que sua cidade natal.

Nascido em Ituverava, no interior de São Paulo, Tas cresceu em uma época na qual a televisão ainda não permanecia ligada durante todo o dia. A programação era limitada e boa parte da infância acontecia na rua. Foi o rádio, um aparelho portátil recebido de presente no Natal, que lhe mostrou a dimensão do planeta.

Sintonizando ondas curtas, o menino conseguiu ouvir emissoras de outros países, programas em línguas que não compreendia e transmissões vindas do Rio de Janeiro. A experiência alterou sua percepção sobre distância e comunicação.

“Eu ouvi os caras falando russo e pensei: ‘O mundo é muito maior do que essa minha vida aqui no interior’”, recordou. “O rádio foi a primeira coisa que me ligou com o planeta.”

Entre as influências estavam narradores esportivos cariocas e o radialista Big Boy, responsável por apresentar ao público artistas como Jorge Ben. Tas escutava aquela sonoridade enquanto ajudava o avô em meio ao ambiente rural e se perguntava como poderia conhecer o universo moderno que chegava pelo aparelho.

Décadas depois, essa criança fascinada pela possibilidade de acessar informações distantes ressurgiria na televisão por meio do Telekid.

Entre a engenharia e as artes

Filho de professores, Tas cresceu em uma casa cercada por livros, revistas e música. A mãe era regente do orfeão da escola e o colocou para estudar piano clássico ainda criança. A formação artística, portanto, começou muito antes de sua entrada profissional na televisão.

Na juventude, escolheu cursar engenharia — uma decisão que associa, em parte, à preocupação dos pais com a estabilidade profissional. A opção, no entanto, não o afastou das artes. Enquanto estudava, frequentou a escola de teatro Macunaíma, participou de um grupo de dança formado por estudantes de engenharia e teve contato com a efervescência da vanguarda paulista.

Mais tarde, integrou o Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho. Foi quando decidiu deixar a engenharia em segundo plano e mergulhar definitivamente no teatro.

Tas considera que a formação técnica continuou presente em tudo o que fez. Para ele, a comunicação possui diferentes camadas, conexões e mecanismos que podem ser observados com o olhar de um engenheiro.

“Eu me identifico como engenheiro da comunicação”, definiu. “Vejo a comunicação em múltiplas camadas.”

O encontro com as câmeras aconteceu em uma época na qual o vídeo portátil ainda era uma novidade. No grupo Olhar Eletrônico, formado por jovens interessados em experimentar novas linguagens, Tas começou carregando um gravador U-matic de aproximadamente 13 quilos, conectado por cabo à câmera.

Foi nesse ambiente que conheceu Fernando Meirelles e criou Ernesto Varela, o repórter fictício que fazia perguntas desconcertantes a políticos e outras personalidades. O personagem se tornou um dos trabalhos mais conhecidos da primeira fase de sua carreira.

O medo de ficar preso a Ernesto Varela

O sucesso de Varela também provocou uma crise. Tas temia ficar associado para sempre ao personagem de óculos vermelhos e perder a possibilidade de experimentar outras linguagens.

“Eu amo o Varela. Foi um presente incrível que apareceu na minha vida”, afirmou. “Mas tive medo de aquilo virar uma armadilha.”

Em busca de novos caminhos, candidatou-se a uma bolsa Fulbright para estudar cinema e novas tecnologias na Universidade de Nova York. Enquanto esperava o resultado, recebeu da TV Globo o convite para se tornar o apresentador fixo do Vídeo Show.

A experiência deu certo, e Tas chegou a criar para o programa o personagem Cabeça Branca, inspirado em Max Headroom. Quando a bolsa foi aprovada, porém, ele precisou escolher entre permanecer em uma atração de destaque na Globo ou partir para os Estados Unidos.

Optou pelos estudos. A decisão, segundo ele, foi uma das encruzilhadas mais difíceis de sua vida. Tas contou à emissora exatamente o que estava acontecendo e deixou o programa em bons termos.

“Fiz aquilo que sugiro que todo mundo faça: falei a verdade.”

Em Nova York, estudou cinema, televisão e mídias interativas. Teve contato com os primeiros computadores Macintosh, com o hipertexto, com o mouse e com sistemas que permitiam pesquisar o acervo da biblioteca da universidade por meio de terminais eletrônicos.

Ao procurar entrevistas de determinado cineasta, por exemplo, recebia na tela uma lista dos materiais disponíveis. Era preciso localizar fisicamente os itens no acervo, mas a busca digital já transformava a relação com o conhecimento.

Anos mais tarde, essa memória se tornaria uma das principais referências para a criação do Telekid e seu bordão: “Acho que encontrei!”.

O Professor Tibúrcio nasceu de uma limitação

Antes do Telekid, Marcelo Tas marcou a televisão infantil como o Professor Tibúrcio, de Rá-Tim-Bum. O personagem não estava previsto desde o início. Surgiu quando o cronograma já estava avançado e restava pouco tempo para criar e gravar um novo quadro.

Não seria possível contratar crianças nem desenvolver uma produção que exigisse cenários ou edições muito complexas. A solução foi trabalhar com câmera fixa, efeitos visuais e uma “classe virtual”.

Tas encontrou referências no cinema mudo, especialmente em Buster Keaton. A caracterização em preto e branco era interrompida apenas por alguns detalhes vermelhos. O comportamento do professor também guardava lembranças de Dona Basílica, docente de seu quarto ano primário em Ituverava.

Ela era, segundo Tas, uma professora brava e afetuosa, capaz de despertar medo, respeito e amor. Para o comunicador, o medo não precisa ser necessariamente negativo: pode funcionar como um obstáculo que ensina a fazer escolhas e a enfrentar situações difíceis.

O Professor Tibúrcio foi produzido com recursos que, naquele momento, estavam entre os mais sofisticados da TV Cultura. Um equipamento de manipulação digital, normalmente utilizado em mapas da previsão do tempo, permitia diminuir, achatar e movimentar a imagem do personagem.

Tas simulava correr parado enquanto acompanhava o resultado por um monitor. Como os equipamentos eram requisitados pelas demais produções durante o dia, as gravações aconteciam de madrugada.

“Hoje é fácil olhar e perguntar como a gente conseguiu fazer aquilo”, observou. “Mas arcaico é tudo aquilo que você ainda não conseguiu hackear.”

“Dá um jeito de entrar no Castelo”

A participação de Tas em Castelo Rá-Tim-Bum também surgiu quando o projeto já estava adiantado. Ele morava no Rio de Janeiro e trabalhava como roteirista na Globo quando foi procurado por Cao Hamburger.

O diretor mostrou ao comunicador três pilotos do programa. O castelo, os personagens e a dinâmica das histórias já estavam praticamente definidos. A missão dada a Tas parecia simples apenas na frase: encontrar uma maneira de fazer parte daquele universo.

“Ele me mostrou os pilotos, o castelo já estava fantástico, com todo mundo lá dentro. Aí o Cao falou: ‘Se vira. Dá um jeito de entrar no Castelo’”, contou.

Tas levou as fitas VHS para o Rio de Janeiro e assistiu ao material diversas vezes. Inicialmente, concluiu que não havia espaço para outro personagem. Até perceber uma situação recorrente: Zequinha fazia perguntas e, diante da insistência do menino, ouvia dos demais personagens que determinada coisa acontecia “porque sim”.

A resposta incomodou o comunicador. Sua proposta foi criar uma vinheta que interrompesse a narrativa sempre que alguém dissesse “porque sim”. Surgia o Telekid, o personagem que vivia dentro de um computador e abria janelas eletrônicas para procurar explicações.

“Ele era um buscador antes de existir o Google”, comparou.

A ideia dialogava diretamente com os sistemas que Tas havia conhecido na biblioteca da Universidade de Nova York. O Telekid navegava por camadas de informação até anunciar que encontrara a resposta.

A concepção visual exigiu semanas de trabalho. Tas e a equipe de arte testaram figurinos e caracterizações bastante diferentes antes de chegar ao boné, às roupas coloridas e ao controle futurista. O desenho animado Os Jetsons, com seus carros voadores, robôs e chamadas de vídeo, foi uma das referências.

Até o fundo azul, formado por pequenos quadrados em movimento, foi cuidadosamente ajustado. Como a primeira versão parecia perfeita demais, Tas pediu que a imagem ficasse ligeiramente fora de foco.

“O defeito faz parecer real”, explicou.

Para realizar efeitos que atualmente podem ser produzidos em segundos por um aplicativo, a equipe trabalhava durante a madrugada com diferentes câmeras e equipamentos. A tecnologia havia avançado desde o Professor Tibúrcio, mas o processo continuava artesanal e dependente da experimentação.

Um erro percebido muitos anos depois

Tas reconhece uma falha na apresentação do Telekid. Ao contrário do que acontecia com o Professor Tibúrcio, o nome do personagem era pouco repetido.

Em Rá-Tim-Bum, cada aparição começava com a troca de cumprimentos: “Olá, classe” e “Olá, Professor Tibúrcio”. Já no Castelo não havia uma vinheta que reforçasse de forma semelhante o nome Telekid.

“Isso é uma falha técnica de roteiro”, avaliou. “Faltou uma amarração para o nome do personagem ficar mais visível. A gente percebe algumas coisas só depois.”

O reconhecimento dessa imperfeição combina com uma carreira marcada pela experimentação. Tas não trata seus personagens como criações congeladas. Ernesto Varela, por exemplo, nunca foi oficialmente aposentado.

Ele compara o repórter fictício ao mito português de Dom Sebastião, que um dia poderá retornar. Enquanto isso, organiza um extenso arquivo com viagens, entrevistas e reportagens realizadas pelo personagem no Brasil e no exterior. O plano é republicar gradualmente esse material, incluindo registros pouco conhecidos feitos para televisão, rádio e teatro.

Tecnologia não substitui emoção

Ao imaginar o que o Telekid diria sobre inteligência artificial, Tas adota uma posição de curiosidade e cautela. Ele vê a tecnologia como uma forma matemática de interpretar a realidade e reconhece seu potencial. Ao mesmo tempo, considera preocupante que tamanho poder esteja concentrado nas mãos de poucas empresas e indivíduos.

Para o comunicador, a inteligência artificial é uma ferramenta mais poderosa do que as anteriores, mas ainda assim continua sendo uma ferramenta. Ela pode gerar imagens, textos e efeitos em poucos segundos, porém não resolve sozinha o problema fundamental de qualquer produção artística: emocionar.

“Não adianta fazer um elefante derrubar um prédio se não houver uma história que envolva você”, afirmou. “A história continua dependendo da emoção. Isso nunca vai acabar.”

Tas encontra uma metáfora para o momento tecnológico na cena final de Os Caçadores da Arca Perdida. Depois de todos os perigos enfrentados por Indiana Jones, a Arca da Aliança é colocada em uma caixa e levada para um imenso depósito, onde se perde entre milhares de outros objetos.

Na interpretação do comunicador, a inteligência artificial pode oferecer uma quantidade quase infinita de respostas. Sem curiosidade, contexto e envolvimento emocional, entretanto, até uma descoberta valiosa corre o risco de desaparecer no meio de conteúdos indistinguíveis.

Hoje à frente do Provoca, Tas diz ter encontrado um novo desafio: ouvir. Nas longas conversas do programa, procura falar menos e conhecer profundamente a história do entrevistado para conseguir extrair aquilo que não apareceria em respostas superficiais.

É mais uma manifestação do princípio que o acompanha desde o rádio recebido na infância, passa por Ernesto Varela e chega ao Professor Tibúrcio e ao Telekid. A tecnologia muda, as telas se multiplicam e as respostas parecem estar cada vez mais acessíveis. A curiosidade, porém, continua indispensável.

Afinal, como Tas ensinou a uma geração inteira, “porque sim” nunca foi resposta.