Compositor de sucessos como “A Alegria Está no Coração” e “O Dia da Vitória” fala sobre criação, fé, inteligência artificial e a busca por liberdade em tempos de algoritmos
Vavá Rodrigues não acredita em fórmulas para compor. Às vezes, uma canção começa pela melodia; em outras, nasce de uma frase solta — até mesmo do verso que encerrará o refrão. Há ainda ocasiões em que letra e música chegam praticamente prontas. Depois de décadas dedicadas à criação, ele aprendeu que tentar controlar demais o processo pode ser inútil.
“Eu não tenho controle sobre a música. É ela que me domina”, afirmou durante a entrevista. “A arte é um organismo vivo.”
Compositor, músico, redator publicitário e produtor, Vavá construiu uma trajetória que passa pela música cristã, pelos ritmos regionais brasileiros, pelo rock e pela publicidade. É dele a assinatura de canções conhecidas em igrejas de diferentes denominações, além da participação na criação de um dos jingles mais lembrados da propaganda brasileira: o dos “550 quilômetros”.
Nascido na capital paulista e criado em Carapicuíba, na Grande São Paulo, Vavá brinca que não sabe se é paulistano ou nordestino. Filho de pai sergipano e mãe do interior de São Paulo, cresceu cercado por influências distintas. De um lado estavam Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Zé do Norte. Do outro, duplas como Cascatinha e Inhana. Mais tarde vieram a música latino-americana, o Clube da Esquina e as grandes bandas de rock.
Essa combinação aparece em “O Dia da Vitória”, uma de suas composições mais conhecidas no meio cristão. A música começou pela frase “ele enxugará”, inspirada no livro bíblico do Apocalipse. A partir dela, Vavá construiu o caminho até o verso “toda lágrima do meu olhar ele enxugará”.
A sonoridade também refletia o que ele escutava naquele período, entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Artistas latino-americanos, ritmos ternários e referências da música nordestina se encontraram na criação.
“Eu tinha a frase. Era como se precisasse percorrer um caminho, subir algumas escadas até chegar ali”, explicou.
Uma alegria que percorreu o Brasil
A história de “A Alegria Está no Coração” começou de maneira ainda mais despretensiosa. Segundo Vavá, a composição foi feita em parceria com o amigo Haryson Guanaes Lima, no início dos anos 1980, em sua casa, em Carapicuíba.
Os dois se preparavam para participar de uma reunião de jovens quando começaram a brincar com o violão. Vavá foi tomar banho e deixou a porta aberta. Pouco depois, Haryson entrou no banheiro, sentou-se sobre a tampa do vaso sanitário e mostrou os primeiros versos:
“A alegria está no coração de quem já conhece a Jesus.”
A canção foi concluída pela dupla e ensinada naquela mesma noite. Depois, passou a circular por encontros, acampamentos e igrejas, em uma época na qual as músicas eram compartilhadas em pequenos cancioneiros impressos.
Vavá percebeu que a composição havia ultrapassado seu círculo de convivência quando visitou uma igreja em Mogi das Cruzes. Antes que ele pudesse ensiná-la, toda a congregação começou a cantar. “Aquilo foi muito emocionante. Não preciso dizer que chorei, porque sou extremamente chorão”, contou.
Anos mais tarde, “A Alegria Está no Coração” ganhou projeção nacional na voz do padre Marcelo Rossi, em um álbum que vendeu milhões de cópias. A gravação, entretanto, abriu uma longa controvérsia sobre a autoria da obra.
Vavá afirma que seu nome e o de Haryson não apareceram inicialmente nos créditos e que a música foi apresentada como sendo de autor desconhecido. Quando os dois procuraram a gravadora, levaram como provas cancioneiros antigos e registros de gravações anteriores.
A repercussão na imprensa abriu caminho para um acordo. Outra pessoa, porém, também reivindicou a autoria e acabou incluída nos créditos — uma decisão da qual Vavá diz se arrepender. O compositor ressalta que a discussão ainda possui desdobramentos jurídicos e apresenta sua versão de maneira direta: “A música é minha e de um amigo chamado Haryson Guanaes Lima”.
Dos cultos à publicidade
A criação de Vavá também chegou à cultura popular por meio da propaganda. Ele fez parte da equipe responsável pelo jingle que repetia “550 quilômetros” e recomendava ao motorista: “Para um pouquinho, descansa um pouquinho”.
A peça foi produzida para uma campanha publicitária da década de 1990 e permaneceu na memória de quem acompanhava a televisão naquela época. Vavá faz questão de dividir os méritos com os profissionais que participaram do projeto, entre eles o pianista e produtor Emílio Carreira e o músico Maurício Domeni.
“É uma das coisas de que eu mais gosto de ter participado”, afirmou. Para ele, a criação publicitária também é resultado de um trabalho coletivo, no qual uma ideia inicial passa pelas mãos de diferentes profissionais até chegar à versão conhecida pelo público.
A permanência do jingle contrasta com a velocidade do consumo atual. Em uma época marcada pela tentativa constante de viralizar, Vavá questiona a reprodução de fórmulas e a transformação da popularidade em objetivo principal.
Segundo ele, muita gente já não deseja propriamente ser músico, médico ou engenheiro: deseja apenas ficar rica e famosa. O problema, avalia, é que obras criadas apenas para seguir tendências tendem a perder rapidamente a relevância.
Essa liberdade aparece em trabalhos como Highway to Heaven, álbum de rock produzido em parceria com seu filho, André Nine. Algumas faixas ultrapassam cinco minutos, contrariando a recomendação de que as músicas atuais precisam ser cada vez mais curtas para prender a atenção do público.
Inteligência artificial como ferramenta
Embora seja crítico à produção automática, Vavá não rejeita a inteligência artificial. Ele próprio utiliza diferentes ferramentas em sua rotina, mas estabelece um limite: a tecnologia deve ampliar a capacidade do artista, não substituir sua criação.
Como redator formado na época da máquina de escrever, ele diz se recusar a publicar textos prontos produzidos por inteligência artificial. Usa a tecnologia para pesquisar, organizar caminhos e desenvolver ideias, preservando a própria escrita.
Na música, experimenta programas de geração sonora como ponto de partida para arranjos e produções. Também recorre a ferramentas de vídeo para criar peças audiovisuais de músicas que não teriam orçamento para um videoclipe convencional.
“É para potencializar você, e não para fazer por você”, resumiu.
Quando a inteligência artificial assume todo o processo criativo, o resultado, em sua opinião, pode ser tecnicamente correto, mas desprovido de identidade. Para explicar essa sensação, o compositor recorre a uma imagem: “É flor de plástico. É bonita, colorida, igualzinha, mas não tem cheiro”.
Um músico de muitas paisagens
Apesar da forte ligação com os ritmos do Nordeste, Vavá prefere se apresentar simplesmente como um apaixonado por música. Sua discografia inclui trabalhos com sonoridade caipira, projetos nordestinos, musicais escritos em cordel e um álbum inteiramente dedicado ao rock.
A ancestralidade, no entanto, fala alto. Ele encontra na música nordestina uma capacidade especial de dialogar com diferentes estilos — do blues à música árabe, passando pelo rock e pela tradição popular brasileira.
Entre os artistas que considera capazes de apresentar a diversidade musical do Brasil a um estrangeiro, Vavá cita Lenine, Boca Livre, Chico Buarque, Carlinhos Veiga e Tom Jobim. A seleção percorre o Brasil contemporâneo, a sofisticação harmônica, o samba, a música regional e a projeção internacional.
A curiosidade musical também foi transmitida aos filhos. Ana Clara seguiu a área da escrita, enquanto André Nine se tornou produtor musical e trabalha com rap e trap. Embora não seja um consumidor habitual desses gêneros, Vavá acompanha com interesse o trabalho do filho e defende que um bom músico precisa conhecer referências para além de seu estilo preferido.
“Existem várias maneiras de fazer música. Eu prefiro todas”, disse, recordando uma frase de Gilberto Gil que encontrou em uma exposição décadas atrás.
Arte e fé como partes da mesma identidade
Para Vavá, não é possível separar completamente o artista do cristão. A fé não significa transformar toda apresentação em pregação, mas orientar escolhas, comportamentos e o conteúdo daquilo que ele oferece ao público.
Ele conta que deixou de interpretar músicas cujas mensagens já não considerava compatíveis com aquilo em que acreditava. “Não é porque a música é bonita que você vai cantar qualquer coisa. Não é porque uma piada é engraçada que você precisa reproduzi-la”, argumentou.
Essa visão também conduz seu processo criativo. Vavá acredita que existe um Deus que rege a arte e direciona o artista, mesmo quando o resultado toma um caminho diferente daquele imaginado no início.
É o que ocorre quando ele pega o violão planejando fazer determinada música e, aos poucos, percebe que a composição deseja seguir outra direção. Em vez de resistir, prefere escutá-la.
Depois de tantos jingles, canções, álbuns e projetos, a música ainda lhe ensina justamente isso: criar também significa abrir mão do controle.
“A gente pode não entender na hora”, refletiu. “Mas, depois de virar a esquina, acaba dizendo: ‘Senhor, obrigado por ter feito isso’.”
Para quem passou a vida compondo, a conclusão parece inevitável: Vavá Rodrigues faz música, mas é também continuamente transformado por ela.










