Amiga do intérprete de Etevaldo, atriz conta como a parceria entre os dois começou antes da televisão e recorda a difícil missão de entrar no programa para prestar uma homenagem ao ator
Para milhões de brasileiros, Wagner Bello permanece vivo na figura de Etevaldo, o extraterrestre curioso de Castelo Rá-Tim-Bum. Para Siomara Schröder, porém, a lembrança vai muito além do personagem. Antes de dividirem a história da produção infantil da TV Cultura, os dois foram colegas de formação, parceiros de trabalho e, sobretudo, grandes amigos.
“Eu sempre falo que o Bello era o meu irmão”, contou Siomara, emocionada, durante a entrevista. Segundo ela, Wagner era um artista múltiplo: ator, maquiador, figurinista, cozinheiro e criador de personagens. “Pensa numa pessoa que fazia tudo. A única coisa que ele não sabia fazer era dirigir”, brincou.
Os dois se conheceram na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, a EAD-USP. Siomara, que começou a dançar aos 9 anos e já trabalhava como bailarina, logo chamou a atenção de Wagner. Extrovertido e acolhedor, ele costumava recebê-la nos corredores da escola com uma música inventada especialmente para ela.
A amizade se transformou também em parceria profissional. Juntos, participaram de eventos e criaram personagens para uma companhia chamada Piriri Pororó. Entre as invenções estava a “TV Bobo”, uma paródia de programa de televisão na qual Siomara carregava uma câmera de papelão, enquanto Wagner fazia intervenções nas ruas.
A precariedade fazia parte da aventura. A trupe viajava em uma Kombi cuja porta chegava a abrir nas curvas. Em uma ocasião, todos tiveram de descer, ainda vestidos com os figurinos, para empurrar o veículo em uma subida. São lembranças que Siomara guarda com carinho e que ajudam a revelar o espírito criativo de Wagner.
“Ele era muito à frente do tempo”, afirmou. Para a atriz, caso estivesse vivo, o amigo teria encontrado nas redes sociais um ambiente perfeito para seu talento, sua rapidez de raciocínio e seu humor repleto de trocadilhos.
A chegada de Etevaldo
Antes de entrar para o elenco de Castelo Rá-Tim-Bum, Wagner Bello já havia conquistado reconhecimento no teatro infantil interpretando um gnomo em um espetáculo que permaneceu em cartaz no Teatro Brasileiro de Comédia. O trabalho, segundo Siomara, abriu o caminho para que ele fosse convidado a viver Etevaldo.
No programa, o ator transformou o visitante extraterrestre em um personagem carismático, fascinado até pelos aspectos mais cotidianos da vida na Terra. Enquanto gravava, Wagner insistia para que a amiga também participasse da produção.
“Sioma, você tem que estar no Castelo”, dizia ele, segundo a atriz. Como não havia naquele momento um papel que se encaixasse em seu perfil, a oportunidade demorou a aparecer. Quando surgiu uma pequena participação como a mãe de Etevaldo, Wagner fez campanha nos bastidores para que Siomara fosse chamada.
Apesar de a cena durar apenas alguns segundos, a atriz recorda o cuidado empregado na produção. Houve prótese feita por dentista, figurino completo e uma caracterização minuciosa, mesmo que boa parte da roupa nem aparecesse no enquadramento.
“Não tinha essa de colocar qualquer coisa. Era perfeito”, lembrou.
Fora dos estúdios, os dois mantinham uma convivência próxima. Como moravam relativamente perto, Wagner costumava passar pela casa de Siomara para tomar café e descansar depois das gravações. Foi nesses encontros que ela começou a ouvi-lo reclamar de um cansaço persistente.
A situação se agravou rapidamente. Siomara acompanhou de perto os últimos meses do amigo, em uma época ainda marcada pelo preconceito, pelo medo e pelo silêncio em torno do HIV. Mesmo debilitado, contou ela, Wagner continuava fazendo piadas e trabalhando enquanto conseguia.
A notícia da morte chegou pouco antes de Siomara participar de um evento dirigido por ele. Ainda abalada, ela precisou subir ao palco e concluir o trabalho. “Foi devastador para mim”, resumiu.
Uma homenagem diante das câmeras
Depois da ausência de Etevaldo, cartas de crianças começaram a chegar à TV Cultura com a mesma pergunta: onde estava o personagem? Era preciso encontrar uma forma delicada de responder ao público infantil.
A solução foi criar Etcetera, irmã de Etevaldo, interpretada por Siomara. Ao receber o convite, porém, a atriz recusou imediatamente.
“Eu dizia: ‘Vocês não estão entendendo. O Bello era meu amigo. Eu não tenho condição, eu não vou conseguir’”, recordou.
A equipe insistiu que sua presença seria uma homenagem a Wagner. Siomara, então, aceitou. Como já havia interpretado a mãe de Etevaldo, parte da caracterização pôde ser aproveitada e adaptada para deixar a nova personagem mais jovem.
O impacto emocional apareceu antes mesmo do início da gravação. Durante a prova do figurino, integrantes da equipe precisavam sair da sala para disfarçar o choro. No estúdio, a chegada de Siomara caracterizada como alguém da família de Etevaldo comoveu também o elenco.
“Foi um bastidor que ficou para o resto da minha vida”, disse.
Tímida, Etcetera permanece praticamente em silêncio durante boa parte do episódio. No final, explica que veio brincar com as crianças porque seu irmão estava “nas estrelas”. A simplicidade da frase concentrava todo o significado daquele momento.
Siomara conseguiu concluir a gravação, embora acreditasse que não teria forças para isso. Anos depois, considera a participação uma das experiências mais marcantes de sua carreira: não pelo tamanho do papel, mas por aquilo que ele representava.
Uma memória que atravessa gerações
Mesmo tendo aparecido em apenas dois episódios — primeiro como mãe de Etevaldo e depois como Etcetera —, Siomara ainda é reconhecida por adultos que cresceram assistindo ao programa. Ela conta que vê a transformação no rosto das pessoas quando descobrem sua ligação com o Castelo.
“Eu vejo o adulto virar criança”, afirmou.
Alguns encontros são especialmente comoventes. Uma mulher contou à atriz que enfrentou abusos e uma infância muito difícil, mas encontrava em Castelo Rá-Tim-Bum seu único momento de felicidade. Para Siomara, relatos como esse mostram a dimensão alcançada pelo programa e ajudam a imaginar o carinho que Wagner receberia se estivesse vivo.
O ator, no entanto, não teve tempo de acompanhar o fenômeno em que Etevaldo se transformaria. Morreu jovem, sem testemunhar a permanência do personagem no imaginário de diferentes gerações.
Siomara costuma pensar no que o amigo estaria fazendo hoje. Acredita que ele teria se destacado na internet e, com sua capacidade de mobilizar pessoas, talvez já tivesse convencido alguém a produzir uma continuação de Castelo Rá-Tim-Bum.
Mais do que especular sobre a carreira que Wagner Bello poderia ter construído, a atriz procura manter vivas as histórias do homem que existia por trás de Etevaldo: o amigo que inventava músicas, cozinhava para a turma, criava personagens e seguia fazendo humor até nos momentos mais difíceis.
“Ele está vivo entre nós”, disse Siomara. “Acho que tinha que estar mais presente, com mais histórias.”
Ao compartilhar suas lembranças, ela própria ajuda a cumprir esse desejo. Se Etevaldo continua nas estrelas, Wagner Bello permanece na memória dos amigos e de todos aqueles que, diante da televisão, aprenderam a olhar para as coisas mais simples com a curiosidade de quem acaba de chegar a este planeta.










