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Capiau estreia temporada na Younik com Eduardo Baptistão e Spacca

Com Fernando Vítolo como co-host, podcast idealizado por Érico San Juan reúne histórias do humor gráfico e reflexões sobre criação, imprensa e inteligência artificial

Entre lembranças dos primeiros desenhos, histórias de redação e inquietações sobre o futuro da criação, o Capiau abriu sua nova temporada nos estúdios da Younik, em São Paulo. Idealizado por Érico San Juan, o “podcast que também é jornal” recebeu o caricaturista Eduardo Baptistão e o quadrinista Spacca, com a participação do escritor e comunicador Fernando Vítolo como co-host.

O encontro também celebrou os 35 anos de trajetória profissional de San Juan. Em clima de conversa entre amigos, com brincadeiras e provocações, o episódio percorreu diferentes caminhos do desenho brasileiro: dos gibis artesanais da infância às páginas dos grandes jornais, dos primeiros contatos pela internet aos desafios impostos pela inteligência artificial.

A amizade entre os artistas ajudou a conduzir esse percurso. Na virada dos anos 2000, a popularização da internet aproximou desenhistas que, até então, conviviam principalmente com os colegas de redação ou se encontravam nos salões de humor. Listas de e-mail abriram espaço para trocar trabalhos, discutir projetos e estabelecer parcerias. Dos encontros virtuais surgiram reuniões presenciais e amizades que atravessaram décadas.

Antes dessas conexões, porém, vieram o papel, o lápis e a vontade de desenhar. As recordações da infância trouxeram familiares que serviram de referência, professores que incentivaram experiências e pequenas publicações feitas à mão. Houve espaço até para lembrar desenhos vendidos no recreio e gibis produzidos em exemplar único, com o cuidado de quem já imaginava uma revista pronta.

Essas histórias revelaram também a importância da crítica na formação artística. Ao lado do incentivo, o olhar de alguém capaz de apontar erros apareceu como parte do aprendizado. Desenvolver o desenho exigia prática, mas também disposição para perceber o que ainda precisava melhorar.

Da brincadeira ao trabalho, a conversa mostrou que não existe um único caminho para construir uma carreira. A especialização na caricatura, a criação de narrativas em quadrinhos e a edição de publicações representam escolhas distintas, com exigências próprias. Encontrar uma linguagem envolve reconhecer tanto os interesses quanto os limites de cada artista.

Nos quadrinhos de temática histórica, por exemplo, desenhar é apenas uma parte de um processo extenso. Pesquisa de roupas, arquitetura e ambientes, construção de personagens, roteiro e planejamento precisam funcionar em conjunto. A leitura do livro depende dessa organização, que pode exigir anos de produção e decisões sobre o ritmo de cada página.

A edição também ganhou destaque como atividade criativa. Selecionar trabalhos, reunir colaboradores e pensar a relação entre texto e imagem são tarefas que ajudam a dar identidade a uma publicação. Esse olhar atravessa a trajetória do Capiau e sua proposta de manter o humor gráfico em circulação.

Um exemplo apresentado no episódio foi a exposição Caipiras de Salão, dedicada a personagens da cultura brasileira. O projeto nasceu da ideia de uma edição temática do jornal que poderia se transformar em mostra. O caminho acabou invertido: a exposição tomou forma, e o impresso passou a funcionar como seu catálogo, ampliando o registro e a circulação dos trabalhos.

A experiência levou a uma das questões centrais do encontro: qual é o espaço de um jornal de humor em uma época de conteúdo digital abundante?

O debate abordou uma transformação que vai além da mudança de suporte. Nas redes sociais, o público também produz e distribui conteúdo, enquanto piadas, vídeos e memes disputam atenção continuamente. Nesse cenário, o humor gráfico precisa encontrar seu lugar em meio a um fluxo de entretenimento que se renova a cada instante.

O impresso apareceu na conversa associado à experiência de manusear, guardar e compartilhar uma publicação. A lembrança de crianças descobrindo o jornal em uma atividade presencial ilustrou esse potencial de aproximação. O contato com o papel, os desenhos e a organização das páginas pode despertar uma curiosidade diferente daquela provocada pela tela.

No caso do Capiau, a periodicidade mensal favorece trabalhos que mantenham o interesse além do noticiário imediato. Tirinhas, caricaturas e edições temáticas permitem construir uma publicação que possa ser relida e preservada. Encartado na Tribuna Piracicabana, o jornal também faz circular suas edições em PDF, aproximando a presença no papel das possibilidades digitais.

A inteligência artificial acrescentou novas perguntas ao debate. Fascínio, experimentação e preocupação apareceram ao longo da conversa, que abordou o uso desses sistemas como apoio para desenvolver referências e testar ideias, além dos efeitos sobre o trabalho artístico.

Um dos pontos discutidos foi a diferença entre dominar um processo criativo e solicitar um resultado a um sistema. Conhecimentos de desenho, composição e narrativa continuam relevantes para avaliar o que é produzido. Também entrou em pauta a capacidade do público de acompanhar um volume cada vez maior de imagens, músicas e textos.

Nesse contexto, a autoria ganhou especial importância. Uma caricatura feita por determinado artista carrega uma trajetória, escolhas e uma relação com quem a recebe. O valor da assinatura foi apresentado como parte dessa experiência: reconhecer a pessoa por trás da obra também participa do interesse que ela desperta.

Apesar das incertezas, o encerramento abriu espaço para projetos em andamento, pesquisas acadêmicas, publicações e novas experiências profissionais. Também foi anunciada a retomada de Caricatura Também É Cultura, proposta que reúne comentários sobre personalidades e caricaturas em vídeos curtos.

Entre a permanência do jornal e a chegada a novos formatos, o Capiau inicia sua temporada na Younik com uma conversa sobre o que sustenta uma vida dedicada ao desenho. As memórias de infância, as amizades e os planos apresentados no episódio mostram que essa história continua sendo escrita — e desenhada.