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Política

Fernando Vítolo lança campanha “Nenhum dos Candidatos”

“Não me diga quem é o pior. Diga por que eu deveria escolher você”

Inspirada em Chuva de Milhões, campanha satírica mistura humor, crítica à polarização e uma cobrança simples aos candidatos: menos guerra de narrativas e mais proposta de governo

Fernando Vítolo resolveu entrar em campanha. Não pretende disputar a Presidência da República, uma vaga no Congresso Nacional, na Assembleia Legislativa ou sequer o cargo de síndico do condomínio. Seu candidato é outro. Ou melhor: nenhum.

Com o mote “Nenhum dos Candidatos”, o escritor e comunicador lança uma campanha satírica inspirada no espírito de Chuva de Milhões, comédia estrelada por Richard Pryor nos anos 80. No filme, o personagem Monty Brewster entra em uma disputa eleitoral defendendo a opção None of the Above — “nenhum dos candidatos acima”.

A referência cinematográfica serve de ponto de partida. O alvo da brincadeira, porém, é bastante atual: a transformação da política em torcida organizada, a ausência de senso crítico e a facilidade com que candidatos conseguem substituir propostas concretas por guerras de narrativas.

Nas peças da campanha, Vítolo aparece como um candidato de verdade. Há palanque, fotógrafos, banda, cartazes, poses eleitorais e até promessas. Só falta uma coisa. O pedido de voto.

PROMESSAS DE CAMPANHA

Prometo não pedir seu voto.
Prometo não dizer em quem você deve votar.
Prometo não deixar de falar com você porque seu candidato é diferente do meu.
Prometo não colocar bandeirinha de político na foto do perfil.
Prometo não transformar grupo de WhatsApp em comitê eleitoral.
E prometo continuar achando todos eles suspeitos até que provem o contrário.

Por trás do humor, entretanto, a campanha não defende que as pessoas deixem de participar das eleições.

Vítolo afirma querer justamente o contrário: mais consciência sobre a escolha, e mais responsabilidade por ela.

“Votou? Então se responsabilize”

“Nenhum dos Candidatos” pode parecer, à primeira vista, uma campanha contra o voto. O que você está realmente propondo?

— Quero que as pessoas tenham mais consciência na hora de votar e, principalmente, se responsabilizem por quem votaram. Nada de votar e depois lavar as mãos dizendo que foram enganadas. Se um candidato não apresenta proposta, o mínimo que pode acontecer depois é dar uma grande merda.

Para Vítolo, existe uma espécie de terceirização da responsabilidade eleitoral. Durante a campanha, candidatos são defendidos com entusiasmo. Depois, quando promessas não são cumpridas ou surgem problemas, parte dos próprios eleitores tenta se desvincular da escolha.

A campanha parte de uma premissa desconfortável: o voto também deveria carregar responsabilidade. Não significa que o eleitor tenha como prever tudo o que um político fará durante quatro anos. Significa apenas que deveria tentar descobrir o máximo possível antes de escolhê-lo.

E isso pressupõe algo que, para Vítolo, anda escasso: disposição para pensar.

“A pessoa acabou de assumir a burrice voluntária”

A irritação que deu origem à campanha aumentou depois de uma experiência recente. Vítolo havia enviado a algumas pessoas uma matéria escrita por ele intitulada “O Forasteiro é Sempre o Outro”. Uma das respostas chamou sua atenção:

“Não entendi e não quero entender. Tenho minhas convicções e sei em quem vou votar.”

O curioso é que o texto sequer dizia em quem o leitor deveria votar. Para Vítolo, a frase sintetiza um dos problemas que pretende provocar com a campanha.

— As pessoas perderam o senso crítico. Às vezes parece que tiram o cérebro antes de fazer qualquer comentário. Quando alguém diz “não entendi e não quero entender, tenho minhas convicções”, acabou de assumir uma espécie de burrice voluntária. É praticamente dizer: “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”.

O episódio, segundo ele, revela algo ainda mais preocupante. A pessoa não precisava sequer conhecer o argumento para rejeitá-lo. Bastava imaginar que, talvez, ele pudesse contrariar aquilo em que já acreditava.

— Na matéria nem falo em quem a pessoa deve votar. Mas, como ela já imagina que talvez o texto fale mal do candidato dela, é melhor nem entender.

Nesse ponto, a eleição deixa de funcionar como processo de escolha e passa a funcionar como mecanismo de confirmação. Primeiro escolhe-se o lado. Depois procura-se tudo aquilo que comprova que o lado escolhido estava certo desde o início.

Quando política vira futebol

Para Vítolo, uma das consequências desse comportamento é a transformação dos candidatos em times de futebol. A pessoa deixa de avaliar quem está concorrendo e passa a torcer. Se o adversário erra, é prova definitiva de incompetência. Se o próprio candidato erra, começa a operação para explicar contexto, relativizar, comparar com o outro ou encontrar alguma justificativa.

A escolha deixa de ser racional e passa a fazer parte da identidade. E identidade não costuma gostar de ser questionada.

Talvez por isso uma conversa sobre orçamento, segurança pública, educação ou economia consiga terminar, em poucos minutos, numa discussão sobre quem é fascista, comunista, golpista ou salvador da pátria. A pauta original desaparece. Sobra a torcida.

A Arte de Não Ser Escolhido

Existe ainda uma coincidência que tornou a campanha particularmente interessante para Vítolo.

Ele é autor do livro A Arte de Ser Escolhido, no qual discute aquilo que faz alguém, uma empresa, uma ideia ou um profissional ser percebido, considerado e escolhido. Recentemente, um amigo lhe fez uma pergunta:

Qual candidato segue os princípios do livro?

A resposta foi imediata:

Nenhum.

Quando questionado sobre o que os candidatos fazem de maneira oposta ao que ensina no livro, Vítolo também não hesita:

— Tudo. Mas o primeiro e principal problema é não apresentar uma proposta de governo para efetivamente ser escolhido. Hoje quem manda são as guerras de narrativas.

E é justamente aí que entra outra referência pouco ortodoxa da campanha eleitoral de Vítolo:

Chaves.

— As campanhas parecem aquelas brigas em que a Chiquinha chega chorando e começa: “Aí ele me bateu, me deu um pontapé, me deu um tiro, jogou uma bola de boliche na minha cabeça, pegou uma bazuca…”. Vai aumentando a história até chegar ao absurdo. Parece piada. Só que não é.

Trocam-se as crianças da vila por candidatos, partidos, militantes e influenciadores. A lógica, segundo ele, continua semelhante. O objetivo deixa de ser apresentar a própria proposta e passa a ser transformar o adversário na maior ameaça possível.

“Dizer que o outro é horrível não é proposta”

É exatamente nesse ponto que A Arte de Ser Escolhido encontra a política. Se alguém deseja ser escolhido, deveria apresentar uma razão para isso.

Quem é você?
O que pretende fazer?
Como pretende fazer?
Quais são suas prioridades?
Quanto vai custar?
De onde virão os recursos?
Por que deveríamos acreditar que você consegue realizar aquilo que está prometendo?

Em vez disso, boa parte da comunicação política prefere outra estratégia:

“O outro é perigoso.”
“O outro vai destruir o país.”
“O outro é corrupto.”
“O outro representa tudo aquilo que você deveria temer.”

Talvez tudo isso até faça parte do debate. Mas nenhuma dessas frases responde à pergunta fundamental:

Por que eu deveria escolher você?

O teste mais simples da campanha

E se um candidato procurasse Fernando Vítolo e perguntasse o que precisaria fazer para deixar de fazer parte dos “Nenhum dos Candidatos”? A resposta seria curta.

— Me apresente seu plano de governo e me diga por que eu devo votar em você. Não precisa falar mal do outro. Foque no que você vai fazer.

Talvez pareça pouco. Mas, em meio a campanhas construídas em torno de medo, ressentimento, memes, cortes de vídeo, acusações e batalhas permanentes de narrativa, pode ser uma exigência surpreendentemente alta.

A campanha “Nenhum dos Candidatos”, portanto, não pretende encontrar pessoas que pensem exatamente como Vítolo. Muito menos dizer ao eleitor qual número apertar na urna. Quer apenas fazer uma pergunta antes disso.

Você sabe por que está escolhendo quem está escolhendo?

Porque escolher alguém por ódio ao adversário ainda é escolher alguém. Compartilhar propaganda também é emprestar reputação. E transformar um político em parte da própria identidade pode tornar dolorosamente difícil reconhecer depois que ele errou.

No fim, talvez a principal promessa de campanha de Fernando Vítolo seja aquela que nenhum candidato poderia cumprir por ele:

pensar antes de escolher.

E a mensagem de seu palanque imaginário poderia ser resumida em uma única frase:

**NÃO ME CONVENÇA A ODIAR O OUTRO.

ME DÊ UMA RAZÃO PARA ESCOLHER VOCÊ.**

Fernando Vítolo — candidato a absolutamente nada.