Política

Comunista, Fascista ou Outro “ista”?

Atacado como esquerdista ao confrontar Pablo Marçal e como bolsonarista ao questionar Fernando Haddad, Heródoto Barbeiro expõe a dificuldade de parte do eleitorado em distinguir jornalismo de torcida

Descobrir a orientação política de um jornalista no Brasil ficou muito fácil.

Não é preciso conhecer sua trajetória, ler seus livros, acompanhar seu trabalho ou analisar suas posições. Basta identificar qual candidato ele contrariou na última entrevista.

Se fez uma pergunta incômoda a um político de direita, é comunista, esquerdista ou petista. Se confrontou um candidato de esquerda, é fascista, bolsonarista ou reacionário.

Se fez as duas coisas, o sistema trava.

Foi mais ou menos o que aconteceu com Heródoto Barbeiro.

Em julho, durante uma sabatina com Fernando Haddad na Novabrasil, Heródoto questionou o então pré-candidato ao governo de São Paulo sobre privatizações, parcerias público-privadas e a situação da Sabesp. Insistiu em algumas perguntas, contestou respostas e fez aquilo que, em outros tempos, costumava ser chamado simplesmente de entrevista.

Nas redes sociais, porém, uma parcela dos apoiadores de Haddad enxergou outra coisa.

Heródoto passou a ser tratado como fascista, bolsonarista e representante da direita. Quando os argumentos acabaram — ou talvez antes mesmo de começarem — surgiram os ataques à idade: “gagá”, “ultrapassado”, “deveria se aposentar”. Houve até quem descesse ao porão das ofensas e sugerisse que ele já deveria ter morrido.

A resposta de Haddad pode ser analisada, defendida ou criticada. A postura de Heródoto também. Um jornalista não se torna infalível só porque está fazendo perguntas. Aliás, um dos vídeos que circularam sobre a entrevista foi editado para simular que Haddad havia “travado”, o que também precisa ser apontado.

O problema começa quando, em vez de discutir a pergunta, a resposta ou os fatos apresentados, parte do público prefere diagnosticar a ideologia de quem segurava o microfone.

O mais curioso é que, dois anos antes, Heródoto já havia sido submetido ao mesmo exame ideológico. Só que o resultado foi exatamente o contrário.

Durante a eleição municipal de São Paulo, em 2024, o jornalista entrevistou Pablo Marçal e o confrontou sobre seu conhecimento da cidade e algumas de suas afirmações. Os apoiadores do candidato não gostaram.

Heródoto foi chamado de petista, esquerdista e comunista.

Temos, portanto, um caso digno de estudo: o primeiro jornalista capaz de ser comunista e fascista, esquerdista e direitista, petista e bolsonarista — tudo isso sem precisar mudar de emprego, publicar um manifesto ou anunciar uma conversão ideológica.

A única coisa que mudou foi o candidato sentado à sua frente.

É importante dizer que “comunista” e “fascista” não aparecem nessas discussões como conceitos políticos. Foram esvaziados de seu significado histórico e transformados em vaias digitais. Na prática, passaram a significar apenas: “pessoa que deixou meu candidato desconfortável”.

O fenômeno não se limita a Heródoto.

Na participação de Lula no Jornal Nacional, em 27 de agosto, César Tralli e Renata Vasconcellos fizeram perguntas incisivas, interromperam respostas e insistiram em temas que o candidato evidentemente preferia não prolongar. Logo surgiram nas redes as acusações de que os jornalistas teriam sido mal-educados, arrogantes e desrespeitosos.

A tradução parece obedecer a um pequeno dicionário da torcida política:

Quando o candidato interrompe, demonstra firmeza. Quando o jornalista interrompe, é falta de educação.
Quando o candidato eleva o tom, mostra personalidade. Quando o entrevistador insiste, é perseguição.
Quando o político confronta, está “colocando a imprensa em seu lugar”. Quando é confrontado, tornou-se vítima de uma emboscada.

O especialista em storytelling Bruno Scartozzoni também conhece bem esse mecanismo. Ele publica análises sobre comunicação política e frequentemente precisa lembrar ao público que ele faz análises de comunicação e que seus posts não representam uma declaração de preferência político-partidária.

Se afirma que determinado político se comunicou bem, alguém conclui que ele apoia esse político. Se aponta uma falha, logo é colocado no campo adversário. Como se avaliar a eficiência de uma comunicação fosse o mesmo que concordar com seu conteúdo.

Parte do eleitorado brasileiro transformou a política em campeonato de futebol. O candidato ganhou camisa, hino, torcida organizada e imunidade contra perguntas difíceis. Os fatos funcionam como o VAR: só são confiáveis quando anulam o gol do adversário.

Nesse campeonato, o jornalista ocupa o lugar do árbitro. Se marca uma falta contra o nosso time, é ladrão. Se marca contra o outro, finalmente está fazendo um bom trabalho.

O problema é que uma entrevista com um candidato não deveria ser um encontro com o fã-clube. O jornalista não está ali para ajudar o político a parecer simpático, confirmar sua narrativa ou oferecer perguntas que rendam bons cortes para as redes sociais. Está ali para questionar, confrontar contradições e pedir explicações a alguém que deseja ocupar um cargo público.

Isso não significa que toda pergunta seja boa ou que todo jornalista esteja certo. Ser criticado pelos dois lados também não é, sozinho, um certificado de imparcialidade. Um profissional pode cometer erros e desagradar a todos.

Mas, quando a acusação muda completamente de acordo com o candidato entrevistado, talvez a contradição diga menos sobre o jornalista e mais sobre as torcidas.

Afinal, Heródoto Barbeiro é comunista ou fascista? Nesses dois episódios, provavelmente apenas jornalista.

Talvez seja justamente esse o “ista” que as torcidas tenham mais dificuldade de suportar.


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Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo