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Política

A CONTA DO APLAUSO CHEGOU À BANCADA DO JORNAL NACIONAL

Em 2022, um grupo de profissionais da Globo celebrou a vitória de Lula na redação. Quatro anos depois, diante de uma pergunta incômoda de Renata Vasconcellos, o presidente tentou ensinar a entrevistadora a entrevistar.

Era uma sabatina eleitoral, mas, por alguns segundos, pareceu uma oficina de jornalismo. O professor improvisado era Luiz Inácio Lula da Silva. A aluna, na lógica do presidente, seria Renata Vasconcellos — jornalista com décadas de carreira, sentada na bancada do principal telejornal do país.

Renata perguntou sobre o crescimento da dívida pública e a trajetória das contas do governo. Lula poderia discordar da premissa, contestar os números, apresentar outro diagnóstico ou simplesmente defender sua gestão. Preferiu começar revisando a pergunta.

“Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar a sua pergunta falando diferente, Renata.”

Em seguida, o presidente praticamente ditou a abertura que gostaria de ter ouvido: uma introdução que reconhecesse seus oito anos de superávit primário antes de chegar ao problema atual. Tradução livre: a pergunta aceitável seria aquela que começasse oferecendo um elogio ao entrevistado e, só depois, talvez, tocasse no assunto incômodo. O episódio foi registrado pelo Poder360.

Na GloboNews, Natuza Nery deu nome ao desconforto: mansplaining. Segundo ela, Lula tentou ensinar Renata a perguntar. Merval Pereira acrescentou um detalhe que tornou a cena ainda mais incômoda: César Tralli também fez questionamentos duros, mas não recebeu a mesma aula. A comparação não prova a intenção de Lula, mas ajuda a explicar por que a crítica ganhou força. A análise foi repercutida pelo Terra.

E a pergunta de Renata não nasceu do nada. Dados reunidos pelo Ipea apontavam que a dívida bruta do governo geral havia alcançado 81,07% do PIB em maio de 2026, enquanto a dívida pública federal estava em torno de R$ 9 trilhões. A mediana do Prisma Fiscal projetava 83% do PIB para o fim do ano. Pode-se discutir a interpretação, as causas e as soluções. O que não se pode discutir seriamente é a relevância jornalística da pergunta. Os números constam no panorama fiscal do Ipea e no Prisma Fiscal do Ministério da Fazenda.

O histórico econômico mencionado por Lula também pode e deve entrar na resposta. Passado é contexto. Mas contexto não funciona como salvo-conduto para o presente, e entrevista não é homenagem. Uma pergunta jornalística não precisa vir acompanhada de um buquê.

O vídeo que voltou para cobrar a conta

Agora, rebobine a fita até 30 de outubro de 2022. Quando o Tribunal Superior Eleitoral confirmou a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro, um vídeo mostrou um grupo de profissionais da Globo se abraçando e comemorando dentro da redação.

A própria emissora reconheceu o episódio e lamentou que um pequeno grupo tivesse esquecido, por alguns instantes, a necessária prática de autocontenção. A nota da Globo foi publicada à época pelo NaTelinha.

É importante ser preciso: não era toda a Globo, e aquelas imagens não provam que cada reportagem da emissora tenha sido dirigida para favorecer um candidato. Transformar o episódio em prova de uma conspiração seria trocar crítica por panfleto.

Mas símbolos importam — e uma redação não é uma sala de estar. É o espaço institucional onde se produz a informação que será entregue ao público com promessa de independência.

Os próprios Princípios Editoriais da Globo afirmam que seu jornalismo deve ser independente, apartidário e comprometido com a busca da isenção. Isso não significa que jornalistas não votem, não tenham convicções ou precisem virar seres humanos sem opinião. Significa apenas que a opinião particular não pode ocupar o lugar simbólico da instituição que cobra confiança do público.

Profissionais ouvidos à época disseram que a celebração representava alívio pela volta da normalidade institucional, e não petismo. É uma explicação humanamente compreensível. Profissionalmente, porém, não resolve o problema.

O jornalismo pode defender a democracia sem fazer festa para o vencedor. Pode rejeitar uma ruptura institucional sem transformar o resultado eleitoral em gol do time da casa.

Credibilidade funciona como um cofrinho: é abastecida moeda por moeda e pode ser quebrada ao som de poucas palmas. O vídeo de 2022 não anulou todo o trabalho da Globo, mas retirou algumas moedas importantes desse cofrinho. Plantou a imagem de uma relação afetiva entre parte da redação e o político que chegava ao poder.

Quem paga nem sempre estava na festa

Quatro anos depois, a conta chegou à bancada. E talvez tenha sido apresentada justamente a quem não participou da comemoração.

Renata Vasconcellos não merecia a resposta condescendente por causa do comportamento de outros profissionais. Ao contrário: ela estava cumprindo a função que se espera de uma jornalista em uma sabatina presidencial.

Não há evidência de que Lula tenha associado sua resposta ao vídeo de 2022 — e esse nem é o ponto. O paralelo não é causal, mas institucional: quando a redação permite que sua imagem se confunda com a de uma torcida, enfraquece a própria autoridade no momento em que volta a fazer perguntas incômodas.

Instituições produzem dívidas reputacionais que, muitas vezes, são pagas por pessoas que não as contraíram. Quando uma redação celebra um candidato, cria-se uma expectativa ruim: a de que perguntas futuras venham embaladas em gratidão. Se a cobrança finalmente aparece, o político pode tratá-la como quebra de lealdade — embora nenhuma lealdade devesse existir.

Políticos, de esquerda ou de direita, costumam amar a imprensa que aplaude e desenvolver alergia à imprensa que pergunta. Por isso, a autocontenção não é frescura corporativa. É proteção. Protege o veículo, protege o jornalista e protege o público da confusão entre cobertura e torcida.

A grande ironia é que o aplauso de 2022 não comprou gentileza em 2026. Apenas gastou credibilidade.

Lula não devia gratidão à Globo, assim como Renata não devia a Lula um prefácio elogioso antes de perguntar sobre a dívida. O papel do candidato era responder. O papel da jornalista era perguntar.

Em 2022, alguns profissionais na redação esqueceram essa fronteira. Em 2026, Lula pareceu esquecê-la também.

A diferença é que o jornalismo depende não apenas de ser independente, mas de ser percebido como independente. Quando a redação se parece com arquibancada, não deveria causar surpresa que o jogador, anos depois, reclame quando o aplauso vira cobrança.

A conta do aplauso chegou ao Jornal Nacional. Renata fez o certo ao perguntar. Ainda assim, acabou pagando parte de uma conta aberta por quem resolveu comemorar.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo