Em entrevista a Danilo Gentili, humorista falou sobre diagnóstico tardio, impulsividade, depressão e tentativas de suicídio, reforçando a importância de reconhecer os sinais e procurar ajuda
A história começa como uma piada. Antes de entrar em um show, Matheus Ceará abriu um aplicativo de compras e começou a escolher pijamas para a filha. Um brilhava no escuro, outro parecia bonito, outro estava barato. Quando percebeu, havia gastado quase R$ 5 mil.
Nos dias seguintes, tantos pijamas chegaram à sua casa que, segundo ele, parecia haver 15 crianças morando ali. Para completar a história, nenhum deles brilhava no escuro.
A plateia do The Noite com Danilo Gentili riu. Mas o que Matheus contou na sequência transformou a anedota em um importante alerta sobre saúde mental.
Na entrevista exibida pelo SBT, o humorista explicou que aquela compra não foi apenas um exagero ou uma extravagância. Aconteceu durante um episódio de hipomania, antes que ele soubesse que tinha transtorno bipolar.
“Eu entrava em hipomania e não sabia o que era”, contou.
QUANDO A DEPRESSÃO ERA APENAS PARTE DO PROBLEMA
Matheus relatou que enfrentou inicialmente uma depressão profunda. Durante muito tempo, fez tratamento para depressão, mas não apresentava melhora. Somente depois de uma avaliação psiquiátrica recebeu o diagnóstico que chamou de “bipolaridade grau dois” — clinicamente denominado transtorno bipolar tipo II.
A descoberta mudou também a forma de tratamento.
“A medicação é outra, a forma de tratar é outra”, explicou o humorista.
O relato chama atenção para uma realidade enfrentada por muitas pessoas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, pessoas com transtorno bipolar podem receber diagnósticos incorretos ou permanecer sem tratamento, especialmente quando os episódios depressivos são os sinais mais evidentes.
Isso não significa, porém, que toda depressão que demora a melhorar seja um caso de bipolaridade. O diagnóstico depende de avaliação profissional, do histórico do paciente e da observação dos sintomas ao longo do tempo. Uma compra impulsiva ou uma mudança de humor isolada também não são suficientes para determinar a existência do transtorno.
O QUE É A HIPOMANIA?
O transtorno bipolar afeta o humor, a energia, a atividade e o pensamento. No tipo II, a pessoa apresenta episódios depressivos e episódios de hipomania.
A hipomania pode envolver aumento incomum de energia, menor necessidade de sono, aceleração do pensamento, maior disposição para falar, irritabilidade, impulsividade e comportamentos de risco, como gastos excessivos. Os sintomas são semelhantes aos da mania, mas geralmente menos intensos.
No caso de Matheus, os períodos de euforia vinham acompanhados de grande produtividade. Ele acordava durante a madrugada para escrever, modificava o show e tentava fazer várias coisas ao mesmo tempo.
O problema é que, depois dessa fase, segundo ele, chegava uma depressão muito forte.
“Quando começa essa fase, você tem que cuidar para não vir a depressão”, afirmou.
Hoje, com acompanhamento e medicação, Matheus diz que consegue perceber melhor quando essas mudanças estão se aproximando. Esse reconhecimento permite que ele e as pessoas próximas tomem medidas antes que o quadro se agrave.
O DIAGNÓSTICO NÃO APAGA O PASSADO, MAS AJUDA A ENTENDÊ-LO
Um dos momentos mais honestos da conversa aconteceu quando Matheus falou sobre as consequências da doença em seus relacionamentos.
Ele contou que brigou com muitas pessoas e reconheceu que, durante determinada fase, não foi o marido nem o pai que gostaria de ter sido.
O humorista também fez uma distinção importante: compreender a influência do transtorno não significa transferir para ele toda a responsabilidade pelos próprios atos.
“Não é colocar a culpa na bipolaridade. Mas, enquanto você não sabe o que tem, não sabe o que tratar”, explicou.
O diagnóstico não funciona como uma autorização para qualquer comportamento. Ele oferece, no entanto, uma explicação clínica e um caminho de cuidado. Permite que a pessoa reconheça padrões, procure acompanhamento adequado e desenvolva estratégias para proteger a si mesma e quem está ao seu redor.
QUANDO O SOFRIMENTO SE TORNA INSUPORTÁVEL
A parte mais delicada da entrevista surgiu quando Matheus revelou ter enfrentado duas tentativas de suicídio. Os detalhes não precisam ser reproduzidos para que se compreenda a gravidade do que ele viveu.
“Você não quer acabar com a vida. Você quer acabar com aquilo que está sentindo”, resumiu.
A frase não descreve todas as experiências, mas traduz a maneira como o humorista compreendeu o próprio sofrimento.
O transtorno bipolar está associado a um risco aumentado de suicídio. Por isso, o Ministério da Saúde destaca que a adesão ao tratamento ajuda a reduzir a recorrência e a intensidade dos episódios, além de diminuir esse risco.
Ao contar que passou por uma crise, recebeu ajuda e hoje segue em tratamento, Matheus transforma a exposição de sua dor em possibilidade de prevenção. A própria Organização Mundial da Saúde recomenda que histórias sobre crises suicidas sejam abordadas com responsabilidade, priorizando caminhos de superação, tratamento e acesso a apoio.
A IMPORTÂNCIA DE NÃO FICAR SOZINHO
A rotina profissional também precisou ser adaptada. Matheus contou que as viagens constantes, os quartos de hotel e a distância de casa agravavam o sofrimento. Por recomendação do psiquiatra, ele deixou de viajar sozinho.
Sua esposa, Bianca, passou a acompanhá-lo. Dessa mudança nasceu também um programa de viagens produzido pelo casal, uma maneira de preencher a rotina, criar novas experiências e manter por perto uma rede de apoio.
A presença de familiares e amigos não substitui o acompanhamento profissional, mas pode ser decisiva. Muitas vezes, são as pessoas próximas que percebem alterações no sono, gastos impulsivos, irritabilidade, isolamento, apatia ou mudanças intensas de comportamento.
FALAR PODE SALVAR UMA VIDA
Mesmo reconhecendo que o assunto era pesado para um programa de humor, Matheus fez questão de falar especialmente com os jovens que acompanhavam a entrevista.
Se alguém percebe períodos recorrentes de depressão, apatia, energia excessiva, pouca necessidade de sono, impulsividade ou mudanças que começam a prejudicar a vida pessoal e profissional, o caminho não é o autodiagnóstico. É procurar um psiquiatra, psicólogo ou serviço de saúde.
A história dos pijamas pode provocar risos. Mas o que veio depois precisa provocar atenção.
Matheus Ceará mostrou que o humor pode conviver com o sofrimento, que pessoas aparentemente alegres também podem enfrentar crises profundas e que receber um diagnóstico não é o fim de uma história. Muitas vezes, é o começo de uma vida com mais compreensão, acompanhamento e possibilidades de cuidado.
Se você está sofrendo ou pensando em se machucar, não enfrente isso sozinho. Procure alguém de confiança e atendimento profissional. O CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. Pelo SUS, também é possível buscar uma UBS ou um CAPS. Em uma situação de urgência, procure uma UPA, pronto-socorro ou acione o SAMU pelo número 192.










