• Home
  • Mundo Real
  • Os Estados Unidos estão comprando as terras raras do Brasil?
Mundo Real

Os Estados Unidos estão comprando as terras raras do Brasil?

Aquisição da Serra Verde por empresa americana avança com US$ 750 milhões do governo dos EUA e reacende debate sobre soberania e minerais estratégicos

Um vídeo publicado nesta sexta-feira (28) por Sérgio Sacani, criador do SpaceToday, chamou a atenção para uma operação que pode ter consequências muito maiores do que a simples troca de controle de uma empresa.

“Como sou só eu que falo disso, leve sempre em consideração a opção de eu estar louco”, escreveu Sacani, em tom bem-humorado, na descrição da publicação.

Por trás da brincadeira, no entanto, estão números expressivos e uma disputa geopolítica bastante concreta.

A norte-americana USA Rare Earth está na etapa final do processo de aquisição da Serra Verde, empresa responsável pela mina e pela planta de processamento Pela Ema, localizadas em Minaçu, no estado de Goiás. O empreendimento é a única operação comercial de terras raras em funcionamento no Brasil e a única fora da Ásia capaz de produzir, em escala comercial, os quatro elementos utilizados na fabricação de ímãs permanentes: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

O negócio foi anunciado em abril e avalia a Serra Verde em aproximadamente US$ 2,8 bilhões. O pagamento foi estruturado em US$ 300 milhões em dinheiro e cerca de 126,8 milhões de novas ações da USA Rare Earth. A companhia americana pretende adquirir 100% da Serra Verde, que até então era controlada por investidores institucionais internacionais, como Denham Capital, Vision Blue Resources e The Energy & Minerals Group. Os termos estão detalhados no comunicado oficial da aquisição.

Nesta semana, a USA Rare Earth anunciou a conclusão de outra etapa decisiva: a capitalização de US$ 1,55 bilhão — aproximadamente R$ 7,7 bilhões — de uma sociedade de propósito específico, conhecida pela sigla SPV.

É aqui que uma distinção importante precisa ser feita.

O governo dos EUA não está comprando diretamente a mineradora

Os US$ 1,55 bilhão não correspondem ao preço pago pela Serra Verde. O valor será destinado à estrutura responsável por comprar a produção da mineradora, e não às pessoas ou instituições que atualmente controlam a empresa.

O Departamento de Guerra dos Estados Unidos comprometeu US$ 750 milhões com essa estrutura, US$ 250 milhões acima dos US$ 500 milhões previstos inicialmente. Um banco institucional também apresentou uma linha de crédito de até US$ 500 milhões, enquanto o governo americano firmou um contrato de compra futura de pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras durante cinco anos.

Segundo o Departamento de Guerra dos Estados Unidos, os recursos serão utilizados para sustentar um acordo de compra dos carbonatos mistos de terras raras produzidos pela Serra Verde.

Essa estrutura deverá adquirir 100% da produção da primeira fase do projeto durante um contrato de 15 anos. O acordo também estabelece preços mínimos para os quatro elementos magnéticos, inclusive para o disprósio e o térbio, duas das terras raras pesadas mais valorizadas e estratégicas.

A capitalização cumpriu uma das condições necessárias para a aquisição. Uma assembleia especial de acionistas da USA Rare Earth estava marcada para esta sexta-feira, e a empresa previa concluir a transação logo depois, caso as demais exigências fossem atendidas, conforme informou em seu comunicado mais recente.

Por que as terras raras são tão importantes?

Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente escassas. O desafio está na concentração dos depósitos, na complexidade da separação dos elementos e no domínio tecnológico necessário para transformá-los em materiais utilizáveis pela indústria.

O grupo é formado por 17 elementos químicos presentes em componentes de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, semicondutores, robôs, drones, data centers, sistemas aeroespaciais e armamentos.

Os quatro elementos produzidos pela Serra Verde são fundamentais para os chamados ímãs de neodímio-ferro-boro, conhecidos pela sigla NdFeB. Pequenos, leves e extremamente potentes, esses ímãs são utilizados tanto em tecnologias ligadas à transição energética quanto em equipamentos militares.

É por isso que uma agência diretamente associada à defesa americana participa da operação.

Os Estados Unidos tentam reduzir sua dependência da China, país que domina a produção mundial e, principalmente, as etapas de separação e refino das terras raras. A aquisição da Serra Verde permite à USA Rare Earth construir uma cadeia integrada que começa na extração realizada em Goiás e segue por atividades de processamento, produção de ligas metálicas e fabricação de ímãs nos Estados Unidos e na Europa.

A Serra Verde iniciou sua produção comercial em 2024, depois de receber mais de US$ 1 bilhão em investimentos. A expectativa divulgada pela empresa é alcançar uma produção anual de aproximadamente 6,4 mil toneladas de óxidos de terras raras até o fim de 2027.

O Brasil está entregando suas riquezas?

Juridicamente, não se trata da venda de uma mineradora pertencente ao governo brasileiro. A Serra Verde é uma empresa privada, e a operação ocorre entre grupos privados, embora tenha forte participação financeira e estratégica do governo dos Estados Unidos.

Além disso, a Constituição brasileira determina que os recursos minerais, inclusive os existentes no subsolo, pertencem à União. Sua exploração é realizada por empresas autorizadas ou concessionárias e permanece submetida à legislação e à fiscalização brasileiras.

Isso, porém, não elimina a discussão sobre soberania.

A questão estratégica não está apenas em quem possui formalmente os recursos no subsolo, mas em quem controla a empresa que os extrai, quem financia sua expansão, quem domina a tecnologia de processamento e, principalmente, para onde será direcionada a produção.

No caso da Serra Verde, a empresa americana passará a controlar a operação enquanto uma estrutura apoiada pelo governo dos Estados Unidos terá contrato para comprar toda a produção da primeira fase durante 15 anos. Portanto, Washington não está adquirindo diretamente a mina, mas está ajudando a garantir acesso de longo prazo aos materiais produzidos nela.

O episódio expõe um velho risco brasileiro: possuir recursos valiosos, mas participar das cadeias globais principalmente como fornecedor de matéria-prima.

O Brasil aparece entre os países com as maiores reservas conhecidas de terras raras do planeta, segundo o levantamento de 2026 do Serviço Geológico dos Estados Unidos. Transformar esse potencial em desenvolvimento, contudo, exige mais do que extrair e exportar minerais. Exige tecnologia, pesquisa, processamento, formação profissional e capacidade industrial para produzir componentes de maior valor agregado dentro do país.

O tema já chegou ao Congresso Nacional. Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A proposta estabelece incentivos para projetos de processamento e transformação realizados no Brasil, prevê R$ 5 bilhões em créditos fiscais e cria instrumentos para limitar a exportação de minerais sem beneficiamento. O texto segue em análise no Senado.

Uma operação que vai além da mineração

Para a USA Rare Earth, a compra da Serra Verde representa a oportunidade de controlar uma das fontes mais avançadas de terras raras pesadas fora da Ásia. Para os Estados Unidos, significa reduzir uma vulnerabilidade considerada crítica para sua indústria, sua economia e sua segurança nacional.

Para o Brasil, a operação deixa uma pergunta que não pode ser respondida apenas com o valor do negócio: o país pretende se limitar a extrair minerais estratégicos ou também será capaz de transformar essas riquezas em tecnologia, indústria e desenvolvimento?

Sérgio Sacani pode brincar com a possibilidade de estar louco. Mas a movimentação de bilhões de dólares, a participação do Departamento de Guerra americano e o comprometimento da produção brasileira pelos próximos 15 anos mostram que o assunto está longe de ser delírio.

A disputa pelas terras raras já começou. E uma parte decisiva dela passa pelo subsolo de Goiás.