Recentemente, encontrei um amigo e, conversa vai, conversa vem, acabamos reclamando da mesma coisa: a saga em que se tornou assistir a um filme no cinema.
Das últimas vezes em que fui, o ciclo parecia o mesmo: pessoas jogando no celular, checando as redes sociais e, claro, gravando trechos para publicar nos stories.
Sim. Eu vi isso não uma, mas várias vezes.
E a cada cena dessas, me pergunto: para quê?
Por que gravar um trecho com uma qualidade péssima? Sem contar que é ilegal — o próprio cinema exibe um aviso enorme proibindo gravações.
Na minha percepção, a intenção não é assistir ao vídeo depois. É provar que esteve ali. É compartilhar com os outros que viu aquele filme, aquela cena, aquele momento.
Mas o problema talvez vá além do simples uso do celular na sala escura.
Em outra sessão, vi uma mãe levar uma criança para assistir a um filme legendado. Durante boa parte da exibição, a criança perguntava o que estava acontecendo. Talvez eu esteja sendo injusto, mas refleti: por que escolher justamente essa opção para uma criança que claramente não conseguia acompanhar?
Isso me fez pensar em algo maior: afinal, por que reunimos 200 pessoas em uma mesma sala para assistir à mesma obra?
Talvez porque exista algo especial em estar ali — em compartilhar um momento com desconhecidos. E é justamente esse sentido que parece estar se perdendo.
O comportamento se repete em shows. Desde que os celulares se tornaram extensão do nosso corpo, quantas vezes você conseguiu assistir a uma apresentação sem alguém tentar filmar tudo? Uma música, uma piada, a cena mais emocionante. Tudo precisa virar registro.
Chegamos a um patamar ainda mais delicado quando o espectador deixa de apenas registrar e passa a interferir diretamente no espetáculo. Isso se revela, de forma preocupante, nos episódios em que pessoas chegam a agredir comediantes durante shows de stand-up.
Um vídeo do Rodrigo Fernandes, o Jacaré Banguela, me fez refletir exatamente sobre isso: até que ponto esquecemos a diferença entre consumir um momento e habitar um espaço coletivo?
O celular não é a causa; é apenas o sintoma de uma transformação maior.
Estamos consumindo entretenimento de maneira individual, mesmo fisicamente cercados por centenas de pessoas. Na sala de cinema, cada um parece viver uma experiência isolada. No show, parte do público se preocupa mais em documentar o evento do que em vivenciá-lo.
Aos poucos, estamos desaprendendo a estar em comunidade? Esquecendo que nem tudo é feito exclusivamente para nós? Que ao nosso lado há alguém tentando assistir, ouvir, rir ou simplesmente estar presente?
O mais triste não é apenas o incômodo causado ao outro. É a perda da catarse coletiva.
Há algo mágico em rir, chorar ou se emocionar ao mesmo tempo em que centenas de desconhecidos. Por alguns minutos, todos são movidos pelo mesmo sentimento em uma conexão silenciosa. O cinema, os shows e o teatro sempre tiveram essa vocação: aproximar estranhos por meio da arte.
Hoje, a vivência é atropelada pelo registro: o story, o post, a foto, o vídeo. Algo que precisa ser exibido e curtido.
Há uma profunda ironia nisso: nunca tivemos tantas ferramentas para compartilhar nossas vidas e, simultaneamente, nunca vivemos cada momento de forma tão isolada.
Ao tentar registrar tudo para provar que estivemos lá, será que não estamos deixando de simplesmente estar?
Lincon Justo é fotógrafo, colecionador de filmes e action figures e memórias.









