Em entrevista a Marcelo Nóbrega e Jederson Beck no podcast Você Está Contratado!, comunicador fala sobre inteligência artificial, reinvenção profissional, novas formas de liderança e a importância de trocar a economia da atenção pela economia da intenção
Se alguém comparar o mundo do trabalho de 2016 com o de 2026, provavelmente encontrará muito mais do que uma década de diferença. Nesse intervalo, profissionais atravessaram a popularização do trabalho remoto, uma pandemia, o avanço da inteligência artificial generativa e, mais recentemente, a chegada dos agentes capazes de executar tarefas inteiras com pouca intervenção humana.
Para Marc Tawil, não houve apenas uma grande transformação. Foram várias, uma em cima da outra, exigindo que profissionais e empresas aprendessem a se reinventar enquanto ainda tentavam entender o que havia acabado de mudar.
Durante sua participação no podcast Você Está Contratado!, apresentado por Marcelo Nóbrega e Jederson Beck, Marc falou sobre comunicação, carreira, liderança, contratação e futuro do trabalho. A conversa, que reuniu três amigos e profissionais com trajetórias que se cruzam há muitos anos, começou com uma pergunta aparentemente simples: o que mudou nos últimos dez anos?
A resposta poderia ser resumida em uma palavra: tudo.
Da pandemia à inteligência artificial
Marc identifica dois grandes divisores de águas recentes. O primeiro foi a pandemia, que rompeu a lógica tradicional do trabalho presencial e acelerou a adoção de novas formas de relacionamento, colaboração e liderança.
Para ele, a transformação também teve um impacto pessoal profundo. Marc perdeu o pai para a Covid-19 logo no início da pandemia. Ao mesmo tempo, viu desaparecer boa parte da estrutura profissional que havia construído em torno de encontros, palestras e eventos presenciais.
Foi necessário migrar para o digital em meio ao luto e se reinventar como palestrante, comunicador e profissional.
O segundo grande marco veio em 30 de novembro de 2022, data do lançamento público do ChatGPT. A partir daquele momento, segundo Marc, não mudou apenas a maneira como as pessoas produzem textos, imagens e apresentações. Mudou a própria relação entre conhecimento, produtividade e trabalho.
Agora, a transformação avança para uma nova etapa. Se antes as empresas discutiam como liderar equipes presenciais e remotas, hoje precisam aprender a coordenar pessoas e agentes de inteligência artificial.
“Você não lidera mais apenas o remoto e o presencial. Você lidera pessoas e agentes. A gente vai liderar máquinas e também será liderado por elas”, provocou.
Reinventar-se antes que o mercado obrigue
As mudanças no ambiente profissional também levaram Marc a rever a própria carreira. Durante anos, ele concentrou seus esforços na construção de sua marca pessoal. Com o tempo, percebeu que existir profissionalmente apenas como indivíduo também impunha limites.
Ao chegar para negociar com uma grande empresa, por exemplo, ele ainda poderia ser percebido como um profissional autônomo, mesmo tendo reconhecimento, experiência e uma marca consolidada. A percepção sobre estrutura, equipe, capacidade de entrega e valor do contrato mudava.
Por isso, Marc voltou a investir em negócios que pudessem ir além de sua própria imagem, criando projetos de consultoria, educação e desenvolvimento de competências.
A intenção é ampliar a percepção de mercado: deixar de ser visto somente como consultor ou comunicador e passar a ser reconhecido também como um comunicador empreendedor.
A experiência reforçou uma das ideias centrais da conversa: nenhuma conquista profissional deve ser tratada como definitiva. Prêmios, títulos e reconhecimento podem abrir portas, mas não garantem permanência.
“Se você for muito bom, ganhar um prêmio e no ano seguinte não se reinventar, vão atropelar você. O mundo esquece muito rápido”, afirmou Marc.
O profissional precisa olhar por cima do muro
Para acompanhar um mundo em transformação, não basta dominar aquilo que já se sabe fazer. É necessário desenvolver a curiosidade para perceber movimentos que, aparentemente, não têm relação direta com a própria profissão.
Marc chama essa habilidade de “olhar por cima do muro”. É observar um comércio que abriu ou fechou, entender as mudanças de comportamento nas cidades e investigar como uma transformação em determinado setor pode provocar consequências em vários outros.
Durante a conversa, ele mencionou como novos medicamentos podem impactar, ao mesmo tempo, a alimentação, a moda, o varejo e até os relacionamentos. Também lembrou que a crise climática não interfere apenas na temperatura: ela pode mudar a agricultura, a produção de vinhos, as rotas de avião, a indústria da moda e os fluxos migratórios.
A pergunta importante deixa de ser apenas “o que está acontecendo?” e passa a ser “onde mais isso vai bater?”.
Essa capacidade de estabelecer conexões será cada vez mais valiosa porque o trabalho estritamente operacional tende a ser assumido por sistemas automatizados. O papel humano se desloca para atividades de arquitetura, julgamento, pensamento crítico e tomada de decisão.
“O trabalho do líder e do liderado não é mais apenas operacional. É um trabalho de arquitetura, julgamento, pensamento crítico e visão”, resumiu Marc.
Quanto mais tecnologia, mais humanidade
Pode parecer contraditório, mas Marc acredita que o avanço tecnológico tornará as características humanas ainda mais evidentes.
Duas pessoas podem ter acesso à mesma ferramenta de inteligência artificial e chegar a resultados completamente diferentes. A qualidade dependerá das perguntas feitas, do repertório, da capacidade de organização, do pensamento crítico e, principalmente, da intenção de quem está utilizando a tecnologia.
“Quanto mais a tecnologia avança, mais o humano é revelado”, afirmou.
Na inteligência artificial generativa, revela-se a capacidade de fazer boas perguntas e avaliar as respostas. Na inteligência artificial agêntica, aparece a competência para organizar processos, estabelecer critérios e desenhar estruturas de trabalho.
A tecnologia também não transforma volume em qualidade automaticamente. Produzir 25 publicações em vez de cinco pode gerar a sensação de maior produtividade, mas isso não significa que o trabalho ficou melhor.
“A gente volumou. Existe uma falsa sensação de que estamos produzindo melhor. Se eu faço 25 posts em vez de cinco, estou produzindo mais, mas não necessariamente estou trabalhando melhor”, alertou.
A inteligência artificial pode economizar tempo e energia, mas continua dependendo de alguém capaz de direcionar esses recursos para algo relevante.
Uma pirâmide profissional sem base
Outro ponto levantado por Marc foi o possível desaparecimento de parte das funções de entrada no mercado de trabalho.
Atividades tradicionalmente entregues a estagiários e profissionais em início de carreira já podem ser realizadas por sistemas de inteligência artificial. Se essas pessoas não tiverem oportunidades para experimentar, errar, enfrentar dificuldades e desenvolver autonomia, como estarão preparadas para assumir posições de liderança no futuro?
Marc chamou esse cenário de “uma pirâmide sem base”.
A reflexão levou a conversa para a formação das novas gerações. Marcelo Nóbrega destacou a importância de expor crianças e jovens a experiências diferentes: praticar esportes, viajar, conviver com pessoas de outros contextos, conhecer lugares novos, fazer intercâmbios, frequentar ambientes fora da rotina e assumir pequenas responsabilidades.
Até ações aparentemente banais, como pedir a própria comida em um restaurante ou comprar sozinho um sorvete, podem ajudar no desenvolvimento da autonomia.
Nas empresas, o jovem também não deveria ser visto apenas como alguém que chegou para executar tarefas simples. Um estagiário está em contato com professores, pesquisas, tecnologias e novas formas de pensar. Ele pode levar para a organização conhecimentos que os profissionais mais experientes já não conseguem enxergar.
Para isso, porém, a liderança precisa estar disposta a ouvir.
O líder não precisa mais ter todas as respostas
Durante muito tempo, o líder foi compreendido como o profissional mais experiente e tecnicamente mais preparado da equipe. Era aquele que sabia como fazer e dizia aos demais qual caminho seguir.
Esse papel mudou.
O líder contemporâneo precisa criar as condições para que a equipe trabalhe bem, remover obstáculos, facilitar relações com outras áreas, oferecer recursos e permitir que outras pessoas desenvolvam competências superiores às que ele próprio possui.
Isso exige desapego. O bom técnico que assume uma liderança precisa aceitar que deixará de ser o principal executor. Seu trabalho será ajudar outras pessoas a brilharem.
A conversa ganhou um significado pessoal quando Jederson Beck contou que foi contratado por Marcelo há cerca de 26 anos. Na época, Marcelo viajou a Porto Alegre, conheceu Jederson e o convidou para trabalhar em São Paulo. O movimento tirou o então engenheiro civil de sua bolha profissional e geográfica, dando início a uma trajetória que passaria pelas áreas comercial, de recursos humanos, liderança, podcast, consultoria e mentoria.
A história mostrou, na prática, como uma contratação pode transformar não apenas uma posição profissional, mas uma vida inteira.
O processo seletivo também precisa ser personalizado
Se o trabalho mudou, a contratação não pode continuar presa a um modelo único.
Currículos, descrições de vagas, triagens e primeiras entrevistas podem ser realizados digitalmente. Em muitas situações, isso torna o processo mais rápido e amplia o número de pessoas avaliadas. Também pode reduzir alguns vieses presentes nos encontros presenciais.
Por outro lado, quando a função exige relacionamento, representação institucional ou contato direto com clientes, o encontro presencial ainda pode ser decisivo.
A conclusão do debate foi que o processo deve ser desenhado de acordo com a posição, o perfil da empresa e a realidade do trabalho que será realizado. Uma função totalmente remota pode justificar um processo remoto. Já a contratação de alguém responsável por representar a empresa no mercado talvez exija tempo, convivência e uma conversa olho no olho.
“Não pode mais existir um processo seletivo padrão. Ele precisa ser desenhado de acordo com a posição que você está buscando e com o perfil da empresa”, defendeu Jederson.
Para os candidatos, também fica um alerta: não se deve subestimar a presença digital. Currículo, LinkedIn e outras redes formam uma percepção sobre o profissional antes mesmo da entrevista.
Se aquilo que a pessoa conta sobre si durante uma conversa não aparece em nenhum lugar de sua presença digital, existe uma quebra de coerência. Em um cenário no qual recrutadores e agentes de inteligência artificial pesquisam candidatos, a ausência de informações também comunica alguma coisa.
Comunicação não tem tamanho único
A mesma personalização necessária nos processos seletivos deve ser aplicada à comunicação.
Marc lembra que não existe uma mensagem capaz de funcionar da mesma forma para todas as pessoas. É necessário considerar o canal, o contexto, o momento, a cultura, a idade e o estilo de quem vai receber a mensagem.
Uma ligação telefônica pode ser bem recebida por alguém e interpretada quase como uma invasão por outra pessoa. Um meme pode criar proximidade em determinada conversa e infantilizar outra. Um áudio pode facilitar uma troca ou gerar incômodo.
A regra proposta por Marc é simples: “Trate o outro como o outro quer ser tratado”.
Não se trata de abandonar a própria identidade, mas de prestar atenção. O mesmo princípio vale para um presente. Escolher uma cafeteira porque você gosta de café não faz sentido se a pessoa presenteada não toma café.
Personalizar a comunicação é demonstrar que o outro foi observado e considerado. Isso exige empatia, inteligência emocional e humildade para reconhecer os próprios vieses.
“As pessoas escolhem pela emoção e justificam pela razão. A maestria está em reconhecer os próprios preconceitos e tentar escolher com base em critérios reais”, explicou Marc.
Da economia da atenção para a economia da intenção
Nos últimos anos, empresas e criadores passaram a disputar espaço na chamada economia da atenção. Todos querem interromper o público, gerar cliques, conseguir visualizações e produzir trechos capazes de circular pelas redes sociais.
Marc propõe acrescentar outra dimensão a essa discussão: a economia da intenção.
Não basta perguntar quanta atenção uma mensagem recebeu. É necessário saber qual intenção foi colocada nela.
Antes de começar a gravação, Marcelo e Jederson não apresentaram a Marc uma pauta rígida, criada apenas para produzir cortes. Perguntaram sobre o que ele gostaria de conversar e o que poderia trazer de relevante. A intenção era escutar antes de direcionar.
Essa diferença, segundo Marc, aparece no resultado. Há podcasts em que o entrevistador fala mais do que o convidado ou tenta ensinar ao especialista justamente aquilo que ele foi chamado para explicar.
Produzir uma conversa de verdade exige curiosidade, generosidade e disposição para ouvir.
Em um mundo no qual a tecnologia permite produzir mais, mais rápido e em todos os formatos, talvez o principal diferencial não esteja na quantidade de conteúdo, mas na humanidade e na intenção que existem por trás dele.
Porque as ferramentas podem até ser as mesmas. O que cada pessoa decide fazer com elas continuará sendo profundamente humano.
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