Inspirado na relação entre sua mãe e seu filho, novo livro da escritora resgata as cartas para falar de memória, afeto, diferenças entre gerações e de um mundo em que ainda era preciso saber esperar
Você se lembra da última vez que recebeu uma carta? Não uma conta. Não uma encomenda. Uma carta mesmo. Com envelope, selo, remetente, destinatário e aquela pequena ansiedade de descobrir o que alguém resolveu colocar no papel para você.
Para muitas crianças de hoje, talvez a pergunta seja ainda mais básica: você já recebeu uma carta?
Tem criança que nem sabe exatamente o que é um envelope, lembra a escritora e produtora cultural Maísa Zakzuk. E foi justamente nesse encontro entre dois mundos, o das mensagens que chegam instantaneamente e aquele em que era preciso esperar o carteiro, que nasceu Chegou carta pra mim, livro infantil publicado pela Panda Books, com ilustrações de Juliana Eigner.
A história acompanha a troca de cartas entre a avó Olga e seu neto, Douglas. Mas por trás dos dois personagens existe uma relação bastante real: a da mãe de Maísa com o próprio filho da escritora.
“Eles têm uma diferença de 60 anos e um vínculo absurdamente lindo”, conta Maísa. “Trocam experiências, trocam confidências. E a minha mãe sempre relembra coisas com ele.”
Foi observando essa relação que a autora encontrou uma maneira de falar não apenas sobre o vínculo entre avós e netos, mas também sobre aquilo que uma geração pode entregar à outra.
As lembranças da avó Olga atravessam diferentes momentos e assuntos. Guerra, migração, intolerância, bullying, diversidade cultural, música, literatura, amadurecimento e memória aparecem ao longo das cartas. Algumas dessas histórias foram inspiradas diretamente nas lembranças da mãe de Maísa; outras vieram de relatos que a escritora ouviu ao longo da vida.
Há a história do bonde, a do leite condensado, a da amiga árabe que confundia palavras. Ficção e realidade acabam se misturando de tal maneira que nem sempre é necessário saber exatamente onde termina uma e começa a outra.
“Minha marca principal é trabalhar histórias das pessoas, histórias reais, e transformar de alguma maneira na ficção ou vice-versa”, diz.
Criança pode falar sobre qualquer assunto
Trazer temas como guerra, xenofobia, refúgio e intolerância para um livro destinado a crianças poderia parecer uma tarefa delicada. Para Maísa, porém, essa conversa faz parte de uma trajetória que começou muito antes da literatura.
A autora trabalhou durante anos com conteúdo educativo para crianças, incluindo produções para emissoras como TV Cultura e Disney Channel. Na TV Cultura, produziu e dirigiu programas como X-Tudo. Dessa experiência ficou uma convicção que continua presente em seus livros: não é preciso diminuir o mundo para conversar com uma criança.
“Aquela geração de pessoas que produziam conteúdo de qualidade para criança sempre acreditou em poder falar qualquer assunto, desde que a gente não desvalorizasse o conhecimento da criança.”
Isso também significa não infantilizar excessivamente a linguagem ou partir do princípio de que determinados assuntos estão além da capacidade do leitor infantil.
Chegou carta pra mim é seu sétimo livro, e temas considerados complexos não são novidade em sua obra. Maísa já escreveu sobre refúgio, intolerância, xenofobia e apatridia. Desta vez, assuntos como imigração, bullying e memória encontram nas cartas e na relação entre avó e neto uma estrutura afetiva para chegar ao leitor.
A ficção, nesse sentido, não serve para esconder a realidade. Serve para criar uma porta de entrada para ela.
O tempo entre uma carta e outra
Maísa conta que sempre gostou do gênero epistolar. Quando surgiu o convite para trabalhar com cartas, gênero textual estudado pelas crianças nos primeiros anos do Ensino Fundamental, ela encontrou ali a forma ideal para construir a história.
Mas existe outra camada nessa escolha. Uma carta não chega imediatamente. E talvez justamente aí esteja uma das maiores distâncias entre a infância de Olga e a infância de Douglas.
“Estamos vivendo uma sociedade do imediato. A gente está cansando, não sabendo mais esperar nada sem estar numa tela”, observa Maísa.
Quem cresceu antes dos celulares talvez se lembre de uma sensação hoje praticamente extinta: o telefone tocar e você não fazer ideia de quem estava do outro lado. Esperar uma ligação. Esperar uma fotografia ser revelada. Esperar uma resposta.
A carta carregava essa espera. Entre escrever uma mensagem e receber a resposta existia um intervalo. E nesse intervalo havia expectativa, imaginação e até uma espécie de brincadeira. “Esse espaço que você espera, que você projeta, eu acho quase lúdico”, diz a escritora.
Não se trata de transformar o livro em um manifesto contra a tecnologia. Maísa faz questão de deixar isso claro. A proposta é outra: permitir que uma criança de hoje experimente, ainda que pela literatura, como funcionava um mundo organizado por outros ritmos.
E isso vai muito além de colocar algumas palavras em uma folha de papel. É imaginar como alguém escrevia sem computador. Como corrigia um texto sem a tecla delete. Como se comunicava sem WhatsApp. Como uma mensagem atravessava uma cidade ou um país sem internet. O que era preciso fazer depois de terminar a carta. O envelope. O endereço. O correio. O selo.
Para Maísa, o selo, sozinho, já poderia abrir outra conversa.
“O selo é um negócio fabuloso. Tudo o que aconteceu na história da humanidade está em selos.”
De repente, aquilo que parecia apenas uma história entre uma avó e seu neto se transforma também em uma pequena viagem pela história da comunicação, dos costumes e das mudanças tecnológicas.
Guardar a história de alguém
Existe ainda uma questão mais profunda por trás das cartas de Olga: memória. Quando uma avó conta uma história da infância para um neto, não está apenas lembrando. Está transferindo alguma coisa. Um pedaço de uma época, de uma família, de uma experiência que aquele neto não viveu e que, sem aquela conversa, talvez desaparecesse.
É isso que Maísa enxerga na relação de sua mãe com seu filho. As conversas entre os dois ajudam a exercitar a memória da avó e, ao mesmo tempo, permitem que o neto conheça histórias que vieram muito antes dele. Mas a troca não acontece em uma única direção. O jovem também fala, conta, pergunta, apresenta seu mundo.
Há escuta dos dois lados. Para a autora, esse é um dos pontos importantes da relação: “A valorização da escuta das duas partes. O respeito das diferenças intergeracionais.”
Talvez seja por isso que Chegou carta pra mim não fale apenas com crianças. Quem já teve uma relação próxima com os avós provavelmente encontrará alguma coisa conhecida ali. E quem ainda tem a oportunidade de ouvi-los talvez termine o livro com algumas perguntas para fazer.
Um livro que pode continuar fora do livro
Para Maísa, a história não precisa terminar quando o leitor fecha a última página. A autora diz que costuma imaginar seus livros como projetos que podem continuar dentro da sala de aula. Para Chegou carta pra mim, foram desenvolvidas sugestões didáticas que permitem aos professores explorar os temas apresentados na obra.
Uma das possibilidades é bastante simples: fazer as crianças escreverem cartas. Não apenas estudar o que é remetente, destinatário, envelope ou selo, mas experimentar aquilo que Olga e Douglas experimentaram. Escolher alguém. Pensar no que dizer. Colocar no papel. Enviar. E esperar.
“Eu sempre imagino os meus livros como projetos em sala de aula”, explica Maísa. “Que as crianças troquem cartas, que elas façam o que a avó e o Douglas fizeram.”
É uma experiência pequena diante de toda a tecnologia disponível hoje. Justamente por isso, talvez seja tão diferente. Porque Chegou carta pra mim fala de correspondência, mas não é exatamente sobre cartas.
É sobre o que acontece quando alguém resolve contar sua história para outra pessoa. Sobre a possibilidade de uma memória sobreviver porque alguém decidiu escutá-la. Sobre duas gerações que não precisam enxergar o mundo da mesma maneira para terem algo a dizer uma à outra.
E sobre uma coisa que a tecnologia conseguiu acelerar, mas não substituir: a vontade de continuar perto de alguém, mesmo quando existe distância entre os dois.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










