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Tecelagem Parahyba: o cobertor que aqueceu gerações e marcou a história da publicidade brasileira

Poucas marcas conseguiram entrar de forma tão profunda no imaginário dos brasileiros quanto a Tecelagem Parahyba. Para muita gente, basta ouvir os primeiros acordes do famoso jingle — “Já é hora de dormir…” — para voltar imediatamente à infância.

No NEH! Podcast, Fernando Vítolo e Heródoto Barbeiro relembram a trajetória da empresa que dominou o mercado nacional de cobertores durante décadas e criou uma das campanhas publicitárias mais memoráveis da televisão brasileira. Mais do que uma história de sucesso empresarial, a Parahyba representa uma época em que a publicidade ajudava a moldar hábitos, costumes e até a rotina das famílias.

A fábrica foi inaugurada em 1925, em São José dos Campos, por um grupo de empresários portugueses. A localização não foi escolhida por acaso. Instalada no Vale do Paraíba, a empresa ficava estrategicamente posicionada entre Rio de Janeiro e São Paulo, os dois maiores mercados consumidores do país naquele período. A proximidade com importantes centros urbanos facilitava tanto a distribuição quanto o crescimento da produção.

Inicialmente dedicada à fabricação de tecidos de lã, a empresa ganhou força nas décadas seguintes. Durante a Segunda Guerra Mundial, a indústria brasileira passou por um processo de expansão impulsionado pelas dificuldades de importação, e a Tecelagem Parahyba aproveitou esse cenário para ampliar sua produção e conquistar novos mercados.

Na década de 1970, a empresa já respondia por cerca de 70% do mercado brasileiro de cobertores e exportava seus produtos para mais de 90 países. Produzia aproximadamente quatro milhões de unidades por ano, números que a colocavam entre as maiores fabricantes do setor.

Mas, se a qualidade dos produtos ajudou a consolidar a marca, foi a publicidade que a transformou em um fenômeno cultural.

O famoso comercial exibido diariamente na televisão tornou-se parte da rotina de milhões de famílias brasileiras. Quando começava a tocar a música “Já é hora de dormir…”, muitos pais entendiam que havia chegado o momento de colocar os filhos na cama.

O jingle era exibido justamente no início da programação noturna, quando os programas destinados ao público adulto começavam a entrar no ar. A campanha acabou criando uma associação curiosa: para muitas crianças, o comercial da Parahyba era praticamente um aviso de que o dia havia terminado.

Mais do que vender cobertores, a marca passou a ocupar um espaço afetivo na memória de várias gerações.

Fernando Vítolo observa que, olhando para os padrões atuais, essa rotina pode parecer distante. Hoje, crianças e adolescentes têm acesso a conteúdos praticamente a qualquer hora, seja pela televisão, pelo celular ou por plataformas de streaming. Naquela época, porém, a programação televisiva ajudava a organizar o cotidiano das famílias, e a publicidade acompanhava esse comportamento.

Heródoto Barbeiro destaca outro personagem importante nessa história: o empresário Severo Gomes, que assumiu o comando da companhia e transformou a Parahyba em uma potência nacional. Muito além do setor têxtil, ele tornou-se uma figura de destaque na vida pública brasileira.

Severo Gomes ocupou o cargo de ministro da Indústria e Comércio durante o regime militar e, posteriormente, aproximou-se de lideranças do processo de redemocratização, entre elas Ulysses Guimarães. Sua trajetória política acompanhou algumas das transformações mais importantes vividas pelo país nas décadas de 1970 e 1980.

O empresário morreu em 1992, em um acidente de helicóptero na Serra do Mar, quando viajava ao lado da esposa, Maria Moraes Gomes, e de Ulysses Guimarães e sua esposa, Dona Mora. A tragédia marcou profundamente a história política brasileira e encerrou a trajetória de um dos grandes industriais do país.

Durante o episódio, Heródoto classifica Severo Gomes como um dos chamados “capitães da indústria”, grupo formado por empresários que ajudaram a impulsionar a industrialização brasileira ao lado de nomes como Francisco Matarazzo e Antônio Ermírio de Moraes.

Apesar da força da marca, a Tecelagem Parahyba também enfrentou as transformações do mercado. A abertura econômica dos anos 1990, o aumento da concorrência internacional e as mudanças no setor têxtil reduziram sua competitividade. A família controladora acabou deixando a operação industrial, encerrando um ciclo que durou décadas.

A história, porém, não terminou ali.

Ex-funcionários organizaram uma cooperativa, recuperaram parte da estrutura produtiva e obtiveram o direito de utilizar a marca Cobertores Parahyba. Atualmente, a fabricação continua em São José dos Campos, preservando um patrimônio industrial que faz parte da memória de milhares de brasileiros.

É um caso pouco comum em que os próprios trabalhadores se mobilizaram para manter viva uma marca histórica, garantindo que um símbolo da indústria nacional não desaparecesse completamente.

A trajetória da Tecelagem Parahyba também ilustra como empresas podem construir valor muito além de seus produtos. Um cobertor é, em essência, um item utilitário. Mas a empresa conseguiu transformá-lo em um elemento emocional, associado à infância, ao cuidado dos pais e ao conforto do lar.

Essa é uma das maiores conquistas que uma marca pode alcançar: deixar de ser apenas um produto para se tornar uma lembrança afetiva.

Ao revisitar essa história, Fernando Vítolo e Heródoto Barbeiro mostram que o sucesso empresarial não depende apenas da capacidade de fabricar bons produtos. Ele também passa pela construção de uma identidade forte, pelo entendimento do comportamento do consumidor e pela habilidade de ocupar um espaço na cultura de um país.

Décadas depois de sua criação, o jingle da Parahyba continua sendo reconhecido por brasileiros de diferentes gerações. Poucas campanhas publicitárias conseguiram atravessar tanto tempo com tamanha força.

No fim das contas, talvez esse seja o maior legado da Tecelagem Parahyba: provar que algumas marcas conseguem aquecer muito mais do que o corpo. Elas aquecem também a memória de um país.

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