Literatura

As palavras em movimento de Luci Collin

Luci Collin revisita quase três décadas de escrita em Acontecidos: “A criatividade é essencial”

Vencedora do Prêmio Jabuti e um dos nomes mais inventivos da literatura brasileira contemporânea, Luci Collin chega à Flip 2026 com um novo lançamento que sintetiza quase três décadas de sua trajetória. Em Acontecidos: contos escolhidos (Maralto Edições), a autora reúne 44 narrativas selecionadas entre cerca de 130 contos publicados desde 1997, além de textos inéditos escritos especialmente para a coletânea.

A antologia, organizada cronologicamente e prefaciada por Caetano Galindo, não apenas apresenta um panorama da evolução da escritora, mas também reafirma características que atravessam toda a sua obra: a ironia, a fragmentação da narrativa, os jogos de linguagem, o humor inquietante e a experimentação formal.

Em entrevista ao portal da Younik, Luci falou sobre o processo de revisitar sua própria produção, a importância de desafiar fórmulas prontas, a influência da música em sua escrita e o compromisso de permanecer fiel à própria voz.

Ao reler cerca de 130 contos para construir a seleção, a autora conta que não encontrou exatamente “outra Luci”. Para ela, a coletânea revela mais uma continuidade do que uma ruptura.

“Apesar de a minha escrita ter se desenvolvido, ela já começa com certos traços que a marcam: a ironia, o tragicômico, a fragmentação do discurso, as colagens, os temas ligados à memória e à dor”, afirma. Segundo ela, o maior interesse de uma coletânea desse tipo é justamente permitir que o leitor acompanhe como esses elementos foram sendo aprofundados ao longo do tempo. Com bom humor, completa: “Os leitores também podem, comparativamente, achar que tudo piorou muito ao longo dos anos (risos). Coragem e… avante!”

Experimentar continua sendo um ato de resistência

Em uma época em que algoritmos tendem a privilegiar conteúdos previsíveis e fórmulas de sucesso, Luci defende que a experimentação permanece como uma necessidade da criação artística.

Para ela, basta olhar para a história da literatura para perceber que foram justamente os autores que romperam padrões e renovaram a linguagem os responsáveis pelas obras mais duradouras. Ao citar nomes como Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Drummond, Oswald de Andrade, Hilda Hilst, Manoel de Barros e Conceição Evaristo, ela reforça que a criatividade nunca foi um luxo, mas um elemento essencial da arte.

“Acredito que a experimentação – tanto formal quanto de conteúdo – seja quase que uma ‘obrigação’ do artista”, afirma.

Embora reconheça que esse caminho seja mais difícil diante da velocidade do universo digital e da popularização da inteligência artificial, Luci acredita que sempre haverá leitores interessados na descoberta proporcionada pela literatura.

“Alguns preferirão o conforto e a previsibilidade sugeridos pelo algoritmo, enquanto outros preferirão o prazer das descobertas que a leitura suscita numa dinâmica altamente libertária a partir da palavra e do pensamento vivos.”

A música como arquitetura da narrativa

Pianista e percussionista de formação, Luci explica que a música influencia sua escrita de forma espontânea, tanto na poesia quanto na prosa.

Em Acontecidos, essa relação aparece explicitamente em contos inspirados por personagens e universos musicais, como Mozart, Beethoven, Doris Day e Janis Joplin, mas também na própria construção dos textos.

Ela cita narrativas como Não era gato nem era preto, Cotação do dia e Ressonância órfica como exemplos em que ritmo, cadência e musicalidade desempenham papel central.

“Nada é premeditado ou calculado friamente. É uma maneira orgânica de me expressar usando aquilo que me constituiu enquanto pessoa e, por extensão, enquanto escritora.”

Permanecer fiel à própria voz

Ao refletir sobre os contos inéditos da coletânea, Luci afirma que sua literatura mudou junto com o olhar dos leitores.

Quando lançou seus primeiros livros, nos anos 1980, sua escrita foi frequentemente considerada “hermética” ou “difícil”, justamente por utilizar recursos como cortes bruscos, fragmentação, ironia e intertextualidade.

Hoje, segundo ela, essas mesmas características dialogam naturalmente com uma geração acostumada à dinâmica da era digital.

“Os meus leitores mais jovens se identificam muito com algumas características dos meus escritos que outrora foram consideradas ‘sacrílegas’ ou, pelo menos, esdrúxulas.”

Ela acredita que a maior conquista foi nunca ter abandonado sua identidade artística para atender às expectativas do mercado.

“Me recusei a me adaptar ao gosto da década de 1980. Paguei um preço por isso, claro, mas ter permanecido fiel ao que melhor me representava acabou dando certo.”

O privilégio da página em branco

Mesmo após décadas de carreira, diversos prêmios literários e reconhecimento da crítica, Luci diz que o frio na barriga diante da página em branco continua existindo.

Mas hoje ele já não representa medo.

“O frio na barriga permanece, não como uma instância de assustador desafio a ser vencido, mas como um privilégio de poder criar livremente.”

Para a autora, escrever continua sendo um exercício de alteridade, capaz de promover encontros, emoções e transformações.

“Tentar emocionar alguém, ainda que de relance, como a literatura faz, é uma ação muito intensa e significativa.”

Com Acontecidos, Luci Collin reafirma justamente essa convicção: a literatura permanece viva quando desafia convenções, experimenta novas formas e continua apostando na força transformadora da palavra.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo