Microfone Imaginário

As sete meninas da Casa Verde

Lá pelo início do século 19, sete meninas ganharam notoriedade no burgo paulistano pela alegria que transmitiam através das risadas e da algazarra.

Todos os sábados elas saiam faceiras de uma linda casa verde onde moravam, localizada na Travessa do Colégio, próxima à Rua de São Bento.

O destino delas era uma chácara da família, cujo irmão mais velho, era muito conhecido e respeitado na São Paulo de antigamente.

O tenente-general, José Arouche de Toledo Rendon era o irmão das sete jovens, ele se destacava também como jurista e procurador da coroa.

Tal posição o levou ao cargo de diretor da Academia de Direito do Largo São Francisco, fundada em 11 de agosto de 1827.

A chácara da família se localizava às margens do Rio Tietê nas terras onde agora está o bairro da Casa Verde.

A residência de veraneio não tinha essa cor, mas quando elas chegavam, os pacatos moradores da região costumavam anunciá-las com a frase:

“Lá vem as meninas da casa verde!” Por causa da casa onde moravam no centro da cidade.

“Eram pudicas, recatadas, olhos baixos de soslaio rapidíssimos, inquietos aos primos sedutores, de anquinhas gorduchas em adoráveis saias balão”.

Não sabemos de onde Paulo Cursino Moura tirou essas informações, mas é assim que ele descreve as sete meninas em seu livro.

“São Paulo de Outrora”, um clássico da literatura paulista foi publicado em 1954, ano do Quarto Centenário desta Pauliceia.

O que faziam as meninas naquelas bandas não sabe direito, mas acreditamos que se banhavam nas águas do Tietê ainda límpido, livre e curvilíneo.

Mulheres em trajes de banho sempre despertaram a atenção dos rapazes e naqueles idos não era diferente, maledicências também existiam.

Certamente, desfrutavam da equitação e de tudo o que a natureza quase intocada daqueles tempos podia oferecer.

Entretanto, pela alegria que transmitiam, tornaram-se vítimas das pessoas cuja maior diversão é falar da vida alheia.

Imaginem sete jovens felizes e sorridentes em pleno século 19? A verdade é que nenhuma delas se casou.

Isso mesmo, todas morreram solteiras, o que nos leva a concluir que por algum motivo ficaram “faladas. Será que sorrir naquele tempo era pecado?

Ernâni da Silva Bruno no clássico, “História e Tradições da Cidade de São Paulo”, diz que por serem solteiras as irmãs viviam do dinheiro de aluguéis.

Possuíam além dos imóveis, a lavoura da chácara e fiscalizavam o trabalho de 39 escravizados, entre homens e mulheres.

Eram elas: Caitana, Ana, Pulquéria, Maria Rosa, Gertrudes, Joaquina e Rudesinda e, dessas sete irmãs, duas morreram bem novas.

Na transferência das terras do atual bairro da Casa Verde, Caitana que era a mais velha, assina os documentos de venda para Francisco Antônio Baruel.

Este as repassa para Fidélis Nepomuceno Prates que as revende para João Maxwell Rudge que morre em 1897.

No início do século 20, os herdeiros lotearam o sítio com o nome Vila Tietê, mas este não pega e não aparecem interessados.

Os lotes começaram a ser vendidos quando os empreendedores passaram a chamar o lugar de Casa Verde, cujo nome era uma referência para o lugar.

A presença das sete meninas, todos os finais de semana na chácara próxima ao Rio Tietê, fez daquele ponto um lugar conhecido.

O historiador que primeiro faz referências ao bairro é Aureliano Leite, em “Pequena História da Casa Verde”, livro publicado em 1939.

A história das sete meninas foi depois resgatada e com mais detalhes em, “São Paulo tem a Casa Verde”, de Eduardo Britto, lançado em 1998.

Na imaginação dos moradores mais sensíveis deste bairro, a algazarra e as boas risadas das sete jovens ainda podem ser ouvidas na espiritualidade.

Geraldo Nunes é jornalista profissional, escritor e radialista premiado. Na saudosa Rádio Eldorado, além de repórter aéreo, apresentou o programa São Paulo de Todos os Tempos, onde se fez cronista da cidade, premiado pela APCA e com o Colar Guilherme de Almeida. Da Câmara Municipal recebeu a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo. Integra a Academia Paulista de História, Academia Cristã de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, é membro honorário da Força Aérea Brasileira – FAB.