Antes de continuar a leitura, olhe ao seu redor. Quantos objetos contam quem você é? Um livro, uma fotografia, um disco de vinil, um DVD, um presente de alguém especial… Todos eles carregam lembranças que dificilmente caberiam apenas em uma tela.
Talvez seja por isso que o desaparecimento da mídia física incomode tanta gente.
Quando tudo passa a existir apenas em arquivos digitais, será que realmente possuímos aquilo que compramos ou apenas alugamos o direito de acessá-lo?
Recentemente, o debate sobre o futuro da mídia física voltou à tona. O crescimento dos serviços de streaming, o avanço das versões digitais de filmes e jogos e o lançamento de consoles sem leitor de discos mostram que a indústria do entretenimento caminha para um futuro cada vez mais dependente da internet.
Apesar de eu não jogar videogame há bastante tempo, ainda compro Blu-rays de filmes, mesmo com a enorme oferta dos serviços de streaming. Neste momento, você talvez esteja me chamando de velho, nostálgico ou até de “cringe”. Mas me escute por um instante.
Seja um filme, um videogame, um livro ou qualquer outra forma de arte, a experiência sempre foi muito maior do que simplesmente consumir um conteúdo. O mercado do entretenimento mudou profundamente nas últimas duas décadas. Mesmo assim, consigo fazer um paralelo com o meu trabalho.
Sou fotógrafo há mais de treze anos e percebo que, a cada dia, menos pessoas demonstram interesse em imprimir suas fotografias. Elas querem os arquivos digitais, claro. Mas esses registros acabam esquecidos no celular, perdidos entre milhares de imagens ou limitados a uma rápida passagem pelas redes sociais.
Quando um cliente escolhe imprimir suas fotos, seja em um porta-retrato ou em um álbum, tudo muda. Existe algo de especial em segurar uma lembrança nas mãos. É uma forma de reviver um momento e fortalecer o sentimento de pertencimento. Diferentemente de um arquivo digital, uma fotografia impressa não desaparece porque um serviço foi encerrado ou porque um aparelho deixou de funcionar.
Nos filmes e nos games acontece algo parecido. Em 2023, a Sony anunciou que usuários do PlayStation poderiam perder o acesso a centenas de filmes e programas da Discovery comprados digitalmente por causa do encerramento de um contrato de licenciamento. Após a repercussão negativa, a empresa conseguiu renovar o acordo, mas o episódio deixou uma pergunta importante: quando compramos uma mídia digital, ela realmente é nossa?
Outro exemplo é o fechamento da loja digital do Wii U e do Nintendo 3DS pela Nintendo. Muitos jogos deixaram de ser vendidos oficialmente, tornando-se inacessíveis para quem nunca os adquiriu. É um lembrete de que, no ambiente digital, nem sempre o acesso é permanente.
Outra grande vantagem da mídia física é a possibilidade de compartilhar. Emprestar um filme, um livro ou um jogo para um amigo. Admirar a arte da capa, ler o encarte, conhecer os comentários do diretor, assistir aos documentários de bastidores e descobrir os processos criativos que deram origem àquela obra.
Esses detalhes também fazem parte da experiência. Somos, em grande parte, resultado das histórias que ouvimos, assistimos, lemos e jogamos.
Quando entramos na casa de alguém, encontramos fotografias espalhadas pelos ambientes, livros nas estantes, discos, filmes e objetos que contam uma história. A mídia física também é uma forma de expressar personalidade e preservar memórias.
Não sei qual será o próximo passo da indústria do entretenimento, mas essa ideia de comprar algo sem realmente possuí-lo me incomoda. Vivemos em um mundo cada vez mais digital, mas, paradoxalmente, nossas experiências parecem cada vez mais superficiais.
A mídia física representa memória, permanência, experiência e autonomia. Gosto de entrar em casa e ver uma fotografia minha ao lado da minha namorada. Gosto de olhar para minha coleção de DVDs e Blu-rays e lembrar de quando encontrei cada um deles, da primeira vez que os assisti e das pessoas com quem compartilhei essas histórias.
Talvez o futuro seja inevitavelmente digital. Não sou contrário à tecnologia — ela tornou o acesso à cultura mais democrático e conveniente. Mas espero que nunca percamos aquilo que transforma objetos em lembranças: a sensação de realmente possuir uma parte da nossa própria história.
No fim das contas, fica uma pergunta: Será que nossa essência pode ser reduzida a uma biblioteca na Steam, na Netflix ou em qualquer outro serviço que pode desaparecer amanhã?
Lincon Justo é fotógrafo, colecionador de filmes e action figures e memórias.









