Como Celso Trindade transformou a demência em motivo para fazer o Brasil rir
Diagnosticado com demência por corpos de Lewy, o engenheiro florestal aposentado encontrou nos palcos e nas redes sociais uma forma de exercitar a memória, inspirar outras pessoas e fortalecer os laços com o filho Daniel Sartorio. Hoje, aos 74 anos, seu lema resume sua missão: “Vou contar toda piada que eu lembrar.”
Nem todo humor nasce da vontade de fazer os outros rirem. Às vezes, ele nasce da necessidade de continuar vivendo.
Foi assim com Celso Trindade. Durante décadas, ele percorreu o Brasil como engenheiro florestal e consultor de empresas. Nos treinamentos que ministrava, já tinha o hábito de contar causos e encaixar uma boa piada para manter a atenção das pessoas. Mas nunca imaginou que, anos depois, subiria aos palcos para fazer stand-up comedy.
Muito menos que isso aconteceria depois de receber o diagnóstico de demência por corpos de Lewy.
A virada começou graças a um desafio lançado pelo filho, Daniel Sartorio, publicitário que decidiu abandonar a profissão para seguir carreira como humorista.
“Ele me afrontou perguntando se eu teria coragem de subir no palco. Resolvi encarar”, lembra Celso.
O primeiro contato com o stand-up aconteceu em 2021, no Clube do Minhoca, em São Paulo. Pouco tempo depois, uma apresentação no Teatro Municipal de São João del-Rei, em Minas Gerais, diante de cerca de 300 pessoas, marcou definitivamente sua trajetória.
A piada era justamente sobre esquecer de tomar o remédio… e acabar tomando de novo.
O humor como exercício para a memória
Receber o diagnóstico não foi simples.
“Foi um baque”, conta Celso. “Durante cerca de 40 anos rodei esse país. De repente, percebi que não poderia mais caminhar sozinho.”
Com o tempo, o humor deixou de ser apenas entretenimento e passou a fazer parte do tratamento. Ele reconhece que há dias em que lembrar é mais difícil.
“Faço uma prece e tento mudar o rumo, porque a vida continua.”
Foi dessa convivência com a própria memória que nasceu sua frase mais conhecida:
“Vou contar toda piada que eu lembrar.”
A expressão surgiu nas conversas com Daniel, mas acabou se transformando numa filosofia de vida. Celso passou a aproveitar qualquer oportunidade para testar novas histórias. “Se tiver mais de dez pessoas, eu estou pronto para a briga”, brinca. Antes mesmo dos palcos, treinava as piadas em encontros da terceira idade e nas reuniões de família.
Durante a pandemia, começou a registrar suas histórias em cadernos. Esses “escrivinhados”, como ele define, deram origem ao material que agora deverá virar o livro Quarentenas. Até mesmo quando esquece uma piada no meio da apresentação, ele transforma o momento em humor.
“Tenho a desculpa de que isso faz parte da demência. Aí o público fica mais compreensivo.”
Muito além das gargalhadas
Para Celso, o humor tem um poder que vai além da comédia.
“Uma pessoa bem-humorada transforma o ambiente e a saúde das pessoas.”
Ele conta que faz tratamento de radioterapia e costuma observar um senhor que, todas as manhãs, entra na sala dando um sonoro “bom dia”. Segundo ele, basta esse gesto para mudar completamente o clima entre pacientes e profissionais.
“Quando temos contato com as pessoas, devemos procurar transmitir energias positivas.”
Essa mesma energia começou a alcançar milhares de brasileiros pelas redes sociais. Os vídeos gravados ao lado do filho passaram a viralizar no Instagram, conquistando um público que se identifica tanto com as piadas quanto com a espontaneidade do humorista.
“É muito gratificante. Acho que conseguimos ser um pouco melhores no relacionamento com as pessoas no dia a dia.”
O que mais gosta nos vídeos?
“Ver as pessoas dando risada, principalmente o Daniel.”
Um tratamento chamado palco
Daniel não imaginava apenas colocar o pai no palco. Percebia que o processo de escrever, decorar e repetir piadas poderia funcionar como um exercício permanente para a memória.
“A repetição e a memorização são excelentes exercícios. E ter algo que ele ama faz com que queira levantar, praticar e continuar ativo. Se não fosse o humor, talvez ele não tivesse conseguido se segurar tão bem como está.”
Segundo ele, nunca houve resistência.
“Desde o início ele adorou a ideia. Fazer stand-up virou um vício. Se reunirmos quatro pessoas, ele já quer parar todo mundo para fazer um show.”
Daniel também recorda um momento marcante. Durante uma apresentação no Teatro Bibi Ferreira, em São Paulo, um dos humoristas passou mal minutos antes do espetáculo. Sem planejamento, Celso foi chamado para substituí-lo diante de aproximadamente 300 pessoas.
“Ele estava acostumado a fazer shows para 70 pessoas e simplesmente entrou em cena sem sentir medo.”
Outro momento inesquecível foi a gravação do especial “Antes que Ele se Esqueça“, um registro de todas as piadas de Celso, produzido com a ajuda da família e de diversos cartazes espalhados pelo comedy club para ajudá-lo durante a apresentação.
“Foi o trabalho de que mais me orgulho.”
A comédia aproximou pai e filho
Mais do que combater os efeitos da doença, o humor transformou a relação entre os dois.
“Ficamos mais amigos e mais carinhosos”, resume Celso.
Daniel concorda.
“As doenças, a comédia e os vídeos que gravamos juntos nos aproximaram muito.”
Ele lembra especialmente do mês que passaram juntos no sítio da família gravando conteúdo para as redes sociais.
“Foi um dos melhores meses da minha vida. Talvez, se não fossem essas tragédias, eu não tivesse conhecido meu pai tão bem novamente.”
Enquanto a demência avançava, novos desafios surgiram. Depois da síndrome de Lewy vieram o Alzheimer e, mais recentemente, um câncer. Mesmo assim, Celso continua pensando no próximo projeto.
“Ele quer lançar livro, cobra postagem de vídeos. Eu sou um multiprodutor dele”, brinca Daniel.
“Ainda tenho muita lenha para queimar”
Às vésperas de completar 74 anos, Celso continua olhando para frente. Seu objetivo agora é mostrar que hábitos saudáveis podem ajudar pessoas que enfrentam doenças neurodegenerativas.
“Quero mostrar que é possível bloquear o avanço da demência com exercícios físicos, mentais e alimentação, enquanto aguardamos tratamentos mais eficazes.”
E deixa um recado para quem acredita que já passou da idade de começar algo novo.
“Deixa de ser abestalhado e parte pra luta. Não espere a indústria descobrir a cura. Ande na frente e não desista. Estou completando 74 anos e ainda acredito que tenho muita lenha para queimar.”
Ao ser perguntado se ainda existem muitas piadas para contar, ele responde sem hesitar.
“Com uma espichada de mais uns anos, chego perto dos 100. Aí haja piada!”
Porque, enquanto houver uma história para lembrar, haverá também um motivo para fazer alguém sorrir. E talvez seja justamente esse o maior legado de Celso Trindade: provar que, mesmo quando a memória começa a falhar, o humor ainda encontra um caminho para permanecer vivo.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo
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