Cultura

O menino curioso que conquistou o mundo

Saul Bonilha mostra como a curiosidade pode transformar uma vida comum em uma trajetória extraordinária

Em um mundo em que tantas pessoas buscam fórmulas para o sucesso, Saul Bonilha acredita que tudo começa com uma característica muito mais simples: a curiosidade. Advogado, executivo, viajante, escritor e considerado um dos maiores colecionadores de arte russa imperial do Brasil, ele foi o convidado do podcast Você Está Contratado!, apresentado por Marcelo Nóbrega e Jederson Beck, em uma conversa que percorreu memórias da infância, escolhas profissionais e histórias que mostram como pequenos interesses podem mudar completamente o rumo de uma vida.

Ao comentar seu livro O Puro Indizível, Saul revelou que sua paixão pela cultura russa surgiu ainda na adolescência, quando morava no bairro do Brooklyn, em São Paulo. Na época, sua família era a única brasileira em uma rua ocupada por imigrantes ingleses e refugiados russos que haviam deixado seu país após a Revolução de 1917. Entre eles estava um vizinho de mais de 80 anos que oferecia aulas de russo. O que começou como uma simples curiosidade logo se transformou em longas conversas sobre história, cultura e relatos da antiga Rússia Imperial, despertando um interesse que o acompanha até hoje.

Essas histórias não apenas despertaram sua vontade de aprender um novo idioma, como também deram origem a uma coleção que seria construída ao longo de décadas. Saul contou que a primeira peça de seu acervo foi um ícone religioso recebido de presente de uma vizinha russa. Pouco tempo depois, encontrou em um antiquário um samovar — tradicional utensílio utilizado para preparar chá — e decidiu que precisava comprá-lo. O problema era o preço.

Foi então que, ainda adolescente, encontrou uma solução inusitada. Aproveitando o conhecimento que havia adquirido nas aulas de francês da escola, escreveu à mão um cartaz com os dizeres “Leciona-se francês” e o colocou na janela de casa. Logo apareceram os primeiros alunos. Com o dinheiro das aulas particulares, conseguiu comprar o samovar que daria início à coleção que hoje reúne dezenas de objetos históricos da Rússia Imperial.

Durante o episódio, Saul relembrou esse momento com bom humor, destacando que nunca enxergou obstáculos como motivos para desistir. Sempre que surgia um objetivo, procurava uma maneira de torná-lo possível. Essa postura também marcou sua vida profissional.

Formado em Direito, construiu uma sólida carreira na Eletropaulo, onde chegou ao cargo de superintendente de Negócios Jurídicos. Apesar da trajetória corporativa, explicou que nunca perdeu o hábito de planejar cuidadosamente suas finanças. Enquanto muitas pessoas gastam primeiro e poupam apenas o que sobra, ele sempre fez o caminho inverso: guardava parte do dinheiro antes de pensar em qualquer despesa. Segundo ele, foi essa disciplina que permitiu financiar estudos, viagens e ampliar sua coleção ao longo dos anos.

Outro tema que chamou atenção foi sua paixão por conhecer o mundo. Ainda aos 17 anos, decidiu realizar um sonho que cultivava desde a infância: viajar para Israel. O interesse pela cultura judaica havia surgido depois de ler sobre o Holocausto e a criação do Estado de Israel. A viagem, feita sozinho, representou um divisor de águas. Embora a realidade encontrada fosse bastante diferente da idealização que havia construído durante anos, Saul afirma que essa experiência lhe proporcionou um amadurecimento que nenhuma sala de aula poderia oferecer.

A partir dali, viajar tornou-se parte permanente de sua vida. Sempre que podia, organizava suas férias de maneira estratégica para conhecer novos países. Em uma dessas viagens realizou outro sonho antigo: visitar a então União Soviética. Falando russo, teve a oportunidade de conhecer de perto lugares que durante décadas existiram apenas em sua imaginação e aprofundar ainda mais sua relação com a cultura que despertou sua curiosidade quando ainda era adolescente.

Ao longo da entrevista, Marcelo Nóbrega e Jederson Beck destacaram justamente esse aspecto da personalidade do convidado. Mais do que acumular conhecimento, Saul desenvolveu a capacidade de transformar interesses em projetos concretos. Aprendeu idiomas, colecionou objetos históricos, conheceu dezenas de países, escreveu um livro e construiu uma carreira sólida sem abandonar as paixões que surgiram ainda na juventude.

Questionado sobre qual conselho deixaria para quem acompanha o podcast, Saul evitou oferecer fórmulas prontas para o sucesso. Segundo ele, cada pessoa percorre um caminho diferente e toma decisões de acordo com as circunstâncias que enfrenta. Ainda assim, afirmou que existe um elemento indispensável para qualquer realização: o foco. Para ele, sonhos não se concretizam por acaso. Exigem disciplina, persistência e disposição para trabalhar continuamente em direção aos próprios objetivos.

Ao final da conversa, fica evidente que a história de Saul Bonilha não é apenas sobre colecionar arte russa ou visitar lugares distantes. É, sobretudo, sobre cultivar a curiosidade, transformar interesses em aprendizado e entender que uma vida extraordinária costuma ser construída a partir de pequenas decisões tomadas com constância ao longo do tempo.

ASSISTA AO EPISÓDIO:

https://youtu.be/xShstZ2oLPo