Quando se fala em grandes empresários que ajudaram a transformar o Brasil, poucos nomes carregam tanto peso quanto Francesco Matarazzo. Imigrante italiano, ele chegou ao país praticamente sem recursos e construiu um conglomerado industrial que, em seu auge, reuniu 365 empresas, empregou milhares de pessoas e fez dele o homem mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo.
No episódio do NEH! Podcast, apresentado por Fernando Vítolo e Heródoto Barbeiro, a trajetória do empresário serve também para contar um capítulo importante da industrialização brasileira.
Da Itália para o Brasil
Francesco Matarazzo nasceu na Itália em uma época de profundas transformações políticas. O país passava pelo processo de unificação nacional e enfrentava conflitos, especialmente na região do Vêneto, de onde partiram milhares de imigrantes em busca de uma vida melhor.
Assim como milhões de italianos, Matarazzo escolheu o Brasil como destino no final do século XIX.
Naquele período, o país recebia uma enorme onda de imigração para suprir a demanda por mão de obra após o declínio do trabalho escravo. Mas, diferentemente de muitos compatriotas que seguiram para as lavouras de café, Matarazzo enxergou uma oportunidade diferente.
A visão que mudou tudo
Enquanto muitos olhavam apenas para a agricultura, Francesco percebeu um movimento que mudaria completamente o Brasil: o crescimento das cidades.
Com cada vez mais pessoas deixando o campo para viver nos centros urbanos, surgia um novo consumidor. Quem morava na cidade já não podia produzir o próprio alimento.
Era preciso comprar. Foi aí que nasceu sua grande visão empresarial. Em vez de investir apenas na produção agrícola, Matarazzo decidiu industrializar produtos derivados do agronegócio.
Farinhas, cereais, massas, banha, alimentos e diversos produtos básicos passaram a abastecer os armazéns e casas de secos e molhados espalhados pelo país.
Segundo Heródoto Barbeiro, esse foi um dos fatores decisivos para o sucesso do empresário.
“Ele percebeu que as cidades estavam crescendo e que a população urbana precisava comprar aquilo que antes produzia.”
O agronegócio como base do império
Embora seja lembrado como um industrial, o sucesso de Matarazzo estava profundamente ligado ao agronegócio.
Suas fábricas processavam matérias-primas agrícolas e transformavam esses produtos em alimentos consumidos diariamente pelos brasileiros.
Até hoje, essa lógica continua atual. Durante o podcast, Heródoto lembra que o agronegócio responde por cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, demonstrando como o setor continua sendo um dos pilares da economia nacional.
A importância das ferrovias
Outro detalhe interessante foi a estratégia logística. As fábricas das Indústrias Reunidas Matarazzo eram construídas próximas às linhas férreas. Na época, o transporte ferroviário era o principal meio para levar mercadorias pelo país.
Muito antes da predominância dos caminhões, eram os trens que movimentavam alimentos, matérias-primas e produtos industrializados. Essa decisão reduzia custos e aumentava a competitividade da empresa.
O moinho que impulsionou o crescimento
Um dos grandes saltos da trajetória empresarial aconteceu após Matarazzo conseguir financiamento junto ao London and Brazilian Bank.
Com esse capital, ele construiu um moinho na cidade de São Paulo. A partir dali, seus negócios cresceram rapidamente.
O moinho se tornou um símbolo da industrialização baseada no processamento de produtos agrícolas, ampliando a capacidade produtiva do grupo.
Um verdadeiro império industrial
Em 1911, suas empresas passaram a operar oficialmente como Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM). O conglomerado se expandiu de maneira impressionante.
No auge, reunia:
- 365 empresas;
- milhares de funcionários;
- fábricas espalhadas por todo o Brasil;
- atuação em diversos segmentos da indústria alimentícia e de bens de consumo.
Estima-se que cerca de 6% da população da cidade de São Paulo dependesse direta ou indiretamente das empresas do grupo.
Um dos homens mais ricos do mundo
Quando faleceu, em dezembro de 1937, Francesco Matarazzo ocupava uma posição extraordinária. Era considerado:
- o homem mais rico do Brasil;
- o italiano mais rico do mundo;
- dono da quinta maior fortuna do planeta.
Seu patrimônio era estimado, na época, em cerca de 20 bilhões de dólares em valores da época, um número impressionante para o período.
Nem todo império sobrevive ao fundador
O sucesso de Francesco Matarazzo também traz uma reflexão importante sobre empresas familiares. Segundo Heródoto Barbeiro, grande parte das dificuldades começou após a morte do fundador.
Sem sua liderança e visão estratégica, o grupo enfrentou problemas de gestão, conflitos entre herdeiros e perda de competitividade. É uma realidade comum em muitas empresas familiares: construir um império é difícil; garantir sua continuidade pode ser ainda mais.
Curiosidade: uma resposta que virou história
Entre as histórias mais curiosas atribuídas a Francesco Matarazzo está uma resposta dada a um alfaiate durante uma viagem à Itália.
Ao ser questionado por que encomendava apenas um terno, enquanto seu filho havia pedido sete poucos dias antes, respondeu:
“Ele tem pai rico. Eu não tive.”
A frase resume bem a mentalidade de quem construiu sua fortuna a partir do trabalho e da visão de longo prazo.
Muito além dos negócios
Além da indústria, a família Matarazzo também deixou sua marca na cultura brasileira, contribuindo para importantes iniciativas em São Paulo, incluindo projetos ligados ao desenvolvimento artístico e cultural da cidade.
Seu sobrenome permanece como um dos mais importantes da história econômica brasileira.
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