Durante décadas, comprar na Mesbla era quase um programa de família. A tradicional rede de lojas marcou gerações de brasileiros, oferecendo desde roupas e eletrodomésticos até discos de vinil, bicicletas e peças automotivas. Mas como uma empresa tão forte chegou ao fim?
Esse foi o tema de mais um episódio do NEH! Podcast – Negócios e Empreendedores Históricos, apresentado por Fernando Vítolo e Heródoto Barbeiro.
Uma loja que nasceu antes do rádio brasileiro
A Mesbla surgiu em 1912, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil e principal centro político, econômico e cultural do país.
Seu nome veio da união dos sobrenomes de seus fundadores franceses, dando origem à marca Mesbla, que se tornaria uma das maiores redes varejistas do Brasil.
Na época, o consumo era completamente diferente. A maioria das lojas era especializada: havia lojas de tecidos, de calçados, de ferramentas ou de secos e molhados. A proposta da Mesbla era revolucionária.
O conceito de loja de departamentos
Inspirada no modelo das grandes department stores, a Mesbla reunia diversos setores em um único lugar.
Em vez de percorrer várias lojas para fazer compras, o consumidor encontrava tudo em um mesmo endereço: roupas, móveis, eletrodomésticos, utensílios domésticos, brinquedos, ferramentas e muito mais.
Hoje isso parece comum, mas no início do século XX era uma grande inovação.
Muito além dos eletrodomésticos
Embora tenha ficado conhecida principalmente pelos eletrodomésticos e produtos para casa, a Mesbla atuava em diversos segmentos.
Em São Paulo, por exemplo, possuía uma unidade especializada na venda de automóveis, caminhões, peças mecânicas e acessórios. Durante muitos anos, foi uma importante revendedora de veículos da General Motors.
Além disso, suas lojas também vendiam discos de vinil, bicicletas, roupas, artigos esportivos e uma infinidade de produtos para o dia a dia.
Era exatamente essa diversidade que fazia da Mesbla um verdadeiro símbolo do varejo nacional.
O marketing que ficou na memória
A Mesbla também soube construir uma marca forte por meio da publicidade.
Uma das campanhas mais lembradas era a do Natal, com o famoso slogan que incentivava os consumidores a comprar no fim do ano e começar a pagar apenas meses depois.
As facilidades de crédito e as condições de pagamento ajudaram a transformar a empresa em uma das maiores redes varejistas do país.
A necessidade de se reinventar
Na década de 1980, o mercado começou a mudar rapidamente.
Novos concorrentes surgiram, principalmente no setor de vestuário. Para acompanhar essas transformações, a Mesbla ampliou seu portfólio de roupas, moda, cama, mesa e banho, buscando competir diretamente com redes especializadas.
Também investiu em melhorias nas lojas, reorganização dos departamentos, novas campanhas publicitárias e políticas de incentivo aos funcionários.
Mesmo assim, os desafios estavam apenas começando.
O erro que custou caro
Segundo Heródoto Barbeiro, um dos fatores que contribuíram para a queda da empresa foi a dificuldade em acompanhar a velocidade das mudanças do mercado.
Na década de 1990, a Mesbla apostou em grandes estoques de mercadorias. O problema é que, enquanto precisava vender produtos antigos, seus concorrentes conseguiam renovar rapidamente suas vitrines com lançamentos.
Essa lentidão reduziu sua competitividade em um mercado que se tornava cada vez mais dinâmico.
Quando o concorrente muda de forma
Talvez a maior transformação tenha vindo de um lugar inesperado.
Até então, a concorrência da Mesbla era formada principalmente por outras lojas de departamentos, como o Mappin.
Mas os supermercados e hipermercados passaram a vender produtos que antes só eram encontrados em lojas especializadas.
Além dos alimentos, passaram a oferecer televisores, ventiladores, geladeiras, eletrodomésticos, roupas e diversos itens para o lar.
O consumidor, que antes precisava visitar diferentes estabelecimentos, passou a encontrar praticamente tudo em um único lugar.
Foi uma mudança silenciosa, mas extremamente poderosa.
A venda e o fim da empresa
Em 1996, a Mesbla foi adquirida pelo empresário Ricardo Mansur, que também comprou o Mappin.
A expectativa era recuperar duas das maiores marcas do varejo brasileiro.
Entretanto, os problemas financeiros continuaram aumentando, e a Mesbla encerrou definitivamente suas atividades em 1999, encerrando uma trajetória de 87 anos.
O maior ensinamento da Mesbla
A história da Mesbla mostra que o sucesso de hoje não garante a sobrevivência de amanhã.
Empresas podem ser líderes de mercado, possuir marcas fortes e clientes fiéis. Ainda assim, se não conseguirem perceber as mudanças de comportamento do consumidor e a chegada de novos modelos de negócio, correm o risco de perder espaço rapidamente.
Como destaca Heródoto Barbeiro no podcast, muitas vezes a empresa continua olhando apenas para seus concorrentes tradicionais, enquanto a verdadeira ameaça surge de outro setor completamente diferente.
A Mesbla marcou época, ajudou a transformar o varejo brasileiro e deixou uma lição que continua extremamente atual: quem não acompanha a evolução do mercado acaba sendo ultrapassado por ela.










