Tenho 73 anos.
Escrever essa frase não me causa desconforto. Também não me enche de orgulho. É apenas um fato.
O curioso é que a idade muda menos por dentro do que por fora. Continuo fazendo planos, aceitando convites, começando projetos. Outro dia, por exemplo, aceitei escrever esta coluna.
Mas uma coisa mudou.
Durante boa parte da vida, o futuro parecia inesgotável. Sempre havia tempo para adiar um curso, uma viagem, um livro, uma conversa importante. A impressão era a de que haveria uma segunda oportunidade.
Hoje não tenho mais essa certeza.
Não penso nisso de forma dramática. Ao contrário. A consciência de que o tempo é limitado acabou dando mais valor ao tempo que tenho.
Passei a escolher melhor onde quero estar. Aprendi a dizer “não” com menos culpa. Descobri que alguns adiamentos nunca se realizam e que certos projetos só acontecem quando deixamos de esperar o momento ideal.
É curioso: durante muitos anos, eu imaginava que envelhecer significaria olhar mais para trás.
Aconteceu o contrário.
Continuo interessada no que ainda não conheço. Em pessoas que ainda não encontrei. Em livros que ainda não li. Em perguntas para as quais ainda não tenho resposta.
Não saber quanto tempo resta faz com que cada novo começo pareça um pouco mais precioso.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









