Estudava, dava aulas, atendia pacientes, fazia planos. Como tantas pessoas da minha idade, seguia ocupada vivendo.
Até que, durante uma reunião, uma colega bem mais jovem comentou: “No seu tempo…”
Ela queria dizer “quando você estudava Psicologia”. Não havia ironia nem intenção de ofender. Mas a frase me surpreendeu. Pela primeira vez, percebi que havia um “meu tempo” — um tempo distante para quem acabava de chegar.
Depois vieram outras pequenas cenas. Um desconhecido me chamou de “tia”. Um atendente falou comigo devagar demais. Alguém se espantou quando soube minha idade. Nenhum desses episódios, isoladamente, teria importância.
Juntos, porém, contavam outra história.
Costumamos imaginar que envelhecemos quando o espelho muda. Minha experiência foi diferente. Descobri que também envelhecemos pelo olhar do outro.
Simone de Beauvoir observou que a velhice não é apenas uma experiência íntima. Ela é também uma condição social. Antes de nos reconhecermos velhos, muitas vezes somos reconhecidos como velhos pelos outros.
Talvez seja por isso que o envelhecimento cause tanto estranhamento. Continuamos sendo a mesma pessoa que faz planos, aprende, trabalha, ama e se entusiasma. Mas, de repente, o mundo começa a conversar conosco de outro modo.
O susto não foi envelhecer.
O susto foi descobrir que, para algumas pessoas, isso já havia acontecido.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









