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Envelhecer é um privilégio?

“Envelhecer é um privilégio.” Ouço essa frase com frequência. Concordo, mas não inteiramente.

É um privilégio porque a alternativa é não chegar até aqui. A pandemia de covid-19 nos lembrou isso de forma brutal. Milhões de pessoas morreram antes do tempo. Muitas eram idosas. Outras jamais tiveram a oportunidade de envelhecer.

Mas a frase não me satisfaz.

Nunca houve tantos brasileiros envelhecendo ao mesmo tempo. Pela primeira vez, o envelhecimento da população deixou de ser uma previsão dos demógrafos para se tornar parte do cotidiano das famílias, dos serviços de saúde, das cidades e das políticas públicas.

Seria de esperar que, convivendo mais de perto com a velhice, aprendêssemos a olhá-la com menos preconceito. Não foi o que aconteceu.

Continuamos a tratar a velhice como algo que acontece sempre com o outro. Admiramos quem vive muitos anos, mas estranhamos as rugas, a lentidão, as limitações, a aposentadoria, a dependência. Queremos longevidade, mas recusamos os sinais do tempo.

Esse paradoxo tem consequências. O preconceito contra pessoas mais velhas continua presente no trabalho, na família, nos serviços e, muitas vezes, na maneira como cada um imagina o próprio futuro. Como escreveu Simone de Beauvoir, a velhice costuma chegar primeiro pelo olhar do outro. É esse olhar que nos diz, muitas vezes antes de nós mesmos, que envelhecemos.

Por isso, concordo apenas em parte com a frase inicial. Sim, envelhecer é um privilégio quando comparado à alternativa de morrer antes do tempo.

Mas esse não pode ser o ponto final da conversa.

O verdadeiro desafio é outro: construir uma sociedade em que envelhecer não signifique perder lugar, voz, autonomia ou dignidade.

Porque a pergunta que importa não é apenas se envelhecer é um privilégio.

É como estamos respondendo ao desafio de viver em um país que envelhece.

Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco  décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.