Entre super-heróis falhos, Kombis tunadas e crítica social, Raul Tabajara apresenta o universo de “Vulcânicos”
Projeto em financiamento coletivo mistura cyberpunk, cultura brasileira e discussões sobre saúde mental, poder e caos social
Num futuro em que os bares servem caipirinha, jovens circulam em Kombis tunadas e Sandra de Sá toca em festas retrô, descendentes de antigos super-heróis convivem com poderes cada vez mais fracos. Alguns conseguem apenas levitar pequenos objetos ou acender cigarros com os dedos. Já os chamados Vulcânicos carregam uma condição muito mais perigosa: em momentos de descontrole emocional, partes do corpo se transformam em lava, podendo provocar explosões fatais.
Esse é o ponto de partida de “Vulcânicos”, novo livro do artista e designer Raul Tabajara, atualmente em campanha de financiamento coletivo. Ambientada na cidade futurista de Boqueirão, a obra mistura ação, crítica social e referências à cultura brasileira dentro de uma estética cyberpunk.
“Porrada, tiro e bomba, no futuro! Mas com doses de problemas éticos e sociais. Afinal, se não houver crítica ao sistema, não é cyberpunk, é só um livro futurista”, resume o autor.
Um futuro latino com cara de Brasil
Apesar de nunca citar o Brasil diretamente, o universo criado por Raul é recheado de elementos familiares. O nome da cidade surgiu de uma referência afetiva: o bairro Boqueirão, na Praia Grande, onde ele morou durante parte da vida.
“Eu queria uma sonoridade brasileira. Na minha cabeça, daqui a 200 anos talvez sejamos mais um grande grupo latino do que um país chamado Brasil. Por isso aparecem Kombis, caipirinhas, futebol, nossas gírias e até Sandra de Sá numa festa retrô”, conta.
A cidade fictícia também foi construída dentro de uma cratera de meteoro, assim como uma localidade próxima ao Boqueirão real, numa mistura de lembranças pessoais e imaginação.
Quando ser extraordinário se torna um problema
Em “Vulcânicos”, os poderes não são tratados como bênçãos. Pelo contrário.
Raul explica que seus personagens são descendentes de super-heróis de oito ou dez gerações atrás e que, assim como acontece com pessoas extraordinárias da vida real, dons especiais podem trazer mais problemas do que vantagens.
“Penso muito em pessoas como Michael Jackson ou até Silvio Santos, que viajava para o exterior para poder ser uma pessoa comum. Às vezes, ser extraordinário traz tantos problemas quanto alegrias.”
A falta de controle dos Vulcânicos também dialoga com questões emocionais e de saúde mental.
“Parece que está todo mundo querendo explodir. Eu também. Quis colocar isso de forma sutil no livro. Inclusive falo sobre a Síndrome de Amok, quando uma pessoa aparentemente comum simplesmente perde completamente o controle.”
Segurança pública ou eugenia?
Um dos protagonistas é Daniel, agente da Força de Contenção de Supers, encarregado de monitorar os Vulcânicos. O personagem vive constantemente dividido entre proteger a sociedade e participar de algo que pode se aproximar da eugenia.
“Esse conflito foi inspirado 100% em debates atuais”, afirma o autor.
A mesma crítica aparece no slogan do livro: “Descubra quem só faz seu trabalho, quem lucra com a bagunça e quem se esconde no caos”.
Para Raul, o mundo real parece cada vez mais próximo das distopias cyberpunk.
“Vivemos numa época em que existem empresas demitindo milhares de funcionários mesmo depois de anunciarem lucros enormes. Quem está lucrando com o caos? Quem só faz seu trabalho? Quem se esconde? Essas perguntas estão no livro.”
De Akira aos videogames
Com mais de duas décadas trabalhando na indústria criativa, Raul levou sua experiência em games para dentro da obra. As ilustrações carregam referências que vão do pixel art inspirado no Mega Drive ao visual tridimensional da era PlayStation.
Entre suas influências estão “Akira”, “Shadowrun”, “Snatcher” e “Syndicate”. O personagem Daniel, inclusive, possui um visual inspirado no protagonista de “Snatcher”, que por sua vez homenageava Harrison Ford em “Blade Runner”.
“É tudo com cara de videogame. Acho que isso faz parte do nosso imaginário sobre o futuro.”
Embora a ideia original tenha surgido entre 1998 e 2000, o livro foi praticamente refeito do zero em 2025.
“Aprendi a escrever melhor e a desenhar melhor. Então joguei tudo fora e comecei novamente.”
Uma parceria que nasceu da confiança
“Vulcânicos” será publicado pela editora Noctívaga, fundada por Meg Mendes. A relação entre autor e editora nasceu de uma amizade construída desde os tempos em que Raul vivia intensamente a cena punk e gótica.
“Ela conhecia minhas crônicas e poesias e me convidou para publicar. Só que, em vez de mandar esse material, enviei ‘Vulcânicos’. Ela disse: ‘Eu confio no que você escreve. Você está aqui dentro também’. E foi assim.”
Mais do que vender livros
Atualmente em campanha de financiamento coletivo, Raul acredita que o maior desafio de qualquer projeto autoral não é apenas captar recursos, mas conquistar leitores.
“Eu daria meu livro de graça para todo mundo. Quero ser lido. O importante é fazer as pessoas descobrirem o prazer da leitura.”
Integrante do clube de leitura O Epitáfio, ele vê a literatura como um espaço de troca e convivência.
“Quando alguém lê um livro e depois compra uma edição especial porque aquela história conversou com ela, aí tudo faz sentido.”
E se tivesse que resumir “Vulcânicos” em uma única frase? Raul responde:
“Não é um livro de super-heróis. Não é um livro sobre um mundo futurista. Mas está muito bem embalado nisso.”
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










