O Pasquim ganha nova vida na internet e mantém vivo um dos capítulos mais criativos do jornalismo brasileiro
Por décadas, O Pasquim foi muito mais do que um jornal. Entre charges, entrevistas e textos carregados de humor e ironia, tornou-se uma das principais referências da imprensa alternativa brasileira e um símbolo da resistência cultural durante a ditadura militar. Agora, mais de trinta anos após deixar as bancas, o semanário ganha uma nova vida graças a um trabalho voluntário que disponibilizou gratuitamente todo o acervo do periódico na Biblioteca Nacional Digital.
Além das 1.072 edições originais publicadas no Rio de Janeiro entre 1969 e 1991, o projeto passou a reunir também as franquias de São Paulo e do Rio Grande do Sul, lançadas em 1986, totalizando mais de 1.200 exemplares acessíveis para consulta de qualquer lugar do mundo.
Por trás desse trabalho está Fernando Coelho dos Santos. Corretor de seguros por mais de cinco décadas, ele cultivou desde a juventude uma ligação afetiva com o universo criado por Jaguar, Ziraldo, Millôr Fernandes, Paulo Francis, Henfil, Sérgio Cabral e tantos outros personagens que fizeram do Pasquim um fenômeno editorial.
“Mais do que admirador, acredito que o Brasil precisa manter essa memória disponível e, mais importante, viva para sempre”, afirma.
A paixão começou ainda na adolescência, quando frequentava o Rio de Janeiro e via de perto os ambientes que inspiravam os integrantes do jornal. Em 1973, como vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Mackenzie, aproximou-se da turma do humor gráfico ao organizar o Salão Mackenzie de Humor e Quadrinhos, iniciativa que mais tarde daria origem ao tradicional Salão Internacional de Humor de Piracicaba.
Depois de se aposentar, em 2017, Coelho decidiu organizar uma exposição em comemoração aos 50 anos do jornal. O trabalho exigiu reunir coleções particulares, exemplares da Biblioteca Nacional, da ABI e até as vinte primeiras edições que faltavam, cedidas por Ziraldo. O resultado foi a digitalização integral do acervo e a criação de um espaço permanente dentro da plataforma da Biblioteca Nacional.
Ao revisitar as páginas do jornal, Fernando confessa que é difícil escolher uma edição favorita. Mas uma delas continua especialmente viva em sua memória. No fim de 1970, nove integrantes do Pasquim foram presos pela ditadura. O episódio foi apelidado pela própria redação de “Gripe do Pasquim”. Quando oito deles foram libertados, em janeiro de 1971, a capa trouxe os jornalistas usando óculos escuros e uma silhueta vazia representando Tarso de Castro, que ainda permanecia preso. “Os verdadeiros homens sem visão”, ironizava o jornal.
Para o cartunista e quadrinhista Érico San Juan, um dos maiores legados do Pasquim foi justamente a coragem.
“A iniciativa daquele grupo foi extraordinária. Jornalistas e cartunistas estabelecidos na grande imprensa poderiam ter se acomodado, mas resolveram criar um veículo independente em pleno período de exceção. Era um duplo risco: empresarial e político”, observa.
Segundo ele, o que mais impressiona nas charges e cartuns produzidos pela equipe era a liberdade criativa. “A irreverência e a coragem de se posicionar claramente eram virtudes que, naquele período, podiam render cadeia ou desaparecimento.”

Mais do que uma publicação histórica, Érico acredita que O Pasquim ainda pode ensinar muito às novas gerações.
“Os jovens podem aprender que existia um veículo chamado jornal. Mas, principalmente, podem entender que buscar uma voz própria é fundamental. Ter personalidade não é apenas vaidade; é uma questão de sobrevivência para quem trabalha com comunicação e expressão.”
Ao longo dos anos, diversas iniciativas tentaram resgatar aquele espírito irreverente, como o Pasquim 21, editado por Ziraldo, e o jornal +Humor. O próprio Érico mantém em Piracicaba o jornal mensal Capiau, inspirado na tradição do humor gráfico brasileiro.
Fernando Coelho espera que o novo acervo seja mais do que um arquivo histórico. Para ele, trata-se de uma oportunidade para que novas gerações descubram uma maneira singular de fazer jornalismo.
“Através do humor, é possível contar muito sobre nossos costumes e nossa história. Espero que as pessoas aproveitem esse material, incorporem sabedoria e se alegrem com o humor dessa turma maluco-beleza.”
Mais de cinquenta anos depois de sua fundação, O Pasquim continua fazendo aquilo que sempre soube fazer melhor: provocar, divertir e ajudar a compreender o Brasil através do humor.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










