A trajetória da aviadora brasileira Ada Rogato continua fascinando pesquisadores, décadas depois de sua morte. Em uma nova leitura sobre sua vida, a jornalista e escritora Lucita Briza revela bastidores inéditos da construção da biografia da piloto, destacando descobertas surpreendentes, desafios de pesquisa e a força simbólica de uma mulher que rompeu padrões no século XX.
Durante o trabalho de apuração, uma das primeiras grandes surpresas foi documental: a divergência sobre o ano de nascimento de Ada.
“A grande surpresa foi ao receber a cópia da certidão de nascimento de Ada Leda Rogato: o documento dizia que ela veio ao mundo em São Paulo, em 22 de dezembro de 1910, quando sempre tinha ouvido falar que ela nasceu em 1920”, conta Lucita.
A descoberta abriu espaço para reflexões sobre o contexto social da época e sobre a própria imagem pública da aviadora.
“Com o tempo me acostumei, e nos depoimentos que eu colhia surgia o perfil de uma pessoa modesta, discreta nas palavras e no modo de se apresentar, cujo olhar só brilhava ao se referir à paixão de sua vida: a aviação”, completa.
Uma coragem construída na persistência
Para Lucita, separar coragem e determinação ao analisar Ada Rogato é praticamente impossível. Segundo a pesquisadora, a aviadora não apenas desafiou limites técnicos da aviação, mas também barreiras sociais profundas em um período em que poucas mulheres sequer imaginavam atuar fora do ambiente doméstico.
Quando conquistou o brevê de planador em 1935, Ada se tornou a primeira mulher na América do Sul a alcançar esse feito. No ano seguinte, foi uma das primeiras brasileiras a obter licença de piloto de avião. Em 1941, após anos de insistência, tornou-se também a primeira paraquedista do país.
“Exercitar sua coragem exigia alto grau de determinação de uma mulher nos anos 1930”, explica Lucita.
A partir daí, sua trajetória ganhou proporções ainda maiores: voos solo históricos, travessias internacionais e expedições que a levaram das Américas ao Círculo Polar Ártico, muitas vezes sem rádio ou instrumentos avançados de navegação.
Entre o sonho e os obstáculos
Mas antes das conquistas aéreas, Ada enfrentou uma série de barreiras pessoais e financeiras. A própria família tentou afastá-la da aviação, e sua formação foi inicialmente direcionada para o casamento e para uma vida tradicional.
“Até o direito de sonhar em pilotar aviões foi solapado pelo pai da aviadora”, relata Lucita.
A independência, no entanto, veio com dificuldades concretas: Ada precisou trabalhar, financiar suas próprias atividades e até buscar empregos administrativos para sustentar sua carreira na aviação.
A construção da biografia
A ideia do livro nasceu, segundo Lucita, de sua própria trajetória no jornalismo e da percepção de que Ada representava uma figura feminina à frente do seu tempo.
“Decidi escrever sobre alguém que, à frente do seu tempo, tivesse exaltado o papel da mulher. E aí me lembrei da figura de Ada”, afirma.
A pesquisa, no entanto, foi marcada por desafios importantes — principalmente no acesso à vida pessoal da aviadora.
“A vida pessoal da aviadora foi a parte mais difícil de acessar”, revela.
O processo envolveu entrevistas com dezenas de pessoas, acesso a familiares, ex-secretárias e amigas próximas, além de mais de cem depoimentos coletados ao longo da investigação.
Por que Ada ainda é pouco conhecida?
Mesmo tendo sido amplamente reconhecida em vida, Ada Rogato não ocupa hoje o espaço que sua trajetória sugere na memória popular brasileira. Para Lucita, isso está ligado tanto às mudanças no tempo quanto à própria transformação do mundo da aviação.
“O mundo mudou, a aviação também e Ada deixou a cena”, explica.
Ainda assim, a pesquisadora destaca que a presença feminina na aviação segue baixa no Brasil, o que torna o legado de Ada ainda mais relevante.
Uma história que não pode ser esquecida
Entre tantas façanhas, uma característica define a aviadora acima de todas as outras: sua solidão nos céus.
“Ada se sobressaía pelo fato de voar sempre sozinha”, resume Lucita.
Essa condição a transformou em símbolo de resistência e coragem, rendendo apelidos como “Condor dos Andes” e “Águia Solitária”.
Mais do que uma pioneira da aviação, Ada Rogato permanece como um retrato de persistência em um mundo que, durante décadas, tentou limitar o alcance das mulheres — e que ela insistiu em ultrapassar, um voo de cada vez.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










