Cultura

A febre das novelas verticais

NOVELAS VERTICAIS: A REVOLUÇÃO QUE SAIU DO CELULAR E JÁ MEXE COM O FUTURO DA DRAMATURGIA

Há alguns anos, a ideia de acompanhar uma novela em episódios de apenas um ou dois minutos parecia improvável. Afinal, a telenovela brasileira foi construída sobre histórias longas, personagens complexos e meses de convivência diária com o público. Mas o comportamento do espectador mudou.

Hoje, milhões de pessoas consomem conteúdo em telas pequenas, em momentos fragmentados do dia, disputando atenção com notificações, redes sociais e uma infinidade de estímulos. Foi nesse cenário que surgiram as novelas verticais, produções pensadas para serem assistidas no celular, em formato vertical e com capítulos curtíssimos.

O que parecia uma tendência passageira está se transformando em um novo mercado, atraindo atores consagrados, novos produtores, plataformas especializadas e uma audiência cada vez mais fiel.

UMA MUDANÇA MUITO MAIOR DO QUE O FORMATO DA TELA

Para o executivo de televisão Eneas C. Pereira, ex-vice-presidente da Fundação Padre Anchieta e ex-diretor de programação da TV Cultura, as novelas verticais representam muito mais do que uma simples adaptação técnica. Segundo ele, o fenômeno está ligado a uma transformação profunda na forma como as novas gerações consomem conteúdo audiovisual.

“Ao observar o comportamento das gerações Alfa e Z e as experiências que começavam a surgir em plataformas digitais, ficou claro para mim que aquele seria mais um caminho para a produção audiovisual. O que mudou não foi apenas a tela. Mudou a forma de consumir histórias.”

Eneas lembra que teve contato com as primeiras experiências de dramaturgia vertical há cerca de quatro anos, durante um evento sobre comportamento e consumo de conteúdo audiovisual realizado na Cinemateca Brasileira. Desde então, passou a acompanhar o crescimento do formato.

“Reduzir essa experiência a uma simples adaptação para o celular é não compreender as profundas mudanças que aconteceram com a audiência nos últimos anos.”

A ERA DA RETENÇÃO

Se a televisão tradicional foi construída sobre a expectativa do próximo capítulo, as novelas verticais nasceram em um ambiente onde a atenção do público é disputada segundo a segundo. Nessa lógica, cada episódio precisa prender imediatamente o espectador.

Segundo fontes do mercado, um dos principais indicadores de sucesso de uma novela vertical é o consumo imediato dos primeiros sete capítulos após o lançamento. Plataformas como TikTok, Kwai, Sua Novela, NXPop e Pop Pop Pop contratam produtoras independentes, financiam as produções e ficam responsáveis pela distribuição e monetização do conteúdo. O objetivo é simples: fazer o espectador continuar assistindo. Para Eneas Pereira, essa mudança vai muito além da dramaturgia.

“É tudo mais efêmero, mais instantâneo. O tempo de retenção das novas gerações é totalmente diferente do nosso. Compreender isso é fundamental para qualquer criador.”

Ele faz uma comparação interessante com o mercado esportivo.

“Hoje há empresas que monetizam mais os melhores momentos de uma partida do que a transmissão completa. O destaque gera mais consumo do que o evento inteiro.”

O NOVO DESAFIO DOS ATORES

A transformação da linguagem também impactou diretamente o trabalho dos artistas. O ator Henrique Stroeter, que já participou de diversas produções do formato, explica que a atuação exige uma adaptação importante.

“O enquadramento muda tudo. Você não pode fazer gestos muito grandes. Há muitos closes. O corpo precisa ser mais objetivo e a comunicação mais direta.”

Segundo ele, o principal desafio está na velocidade da narrativa.

“Na novela tradicional você acompanha a construção emocional do personagem. Na vertical não existe muito tempo para isso. Você já entra com a emoção acontecendo. Não dá tempo para a água ferver. Você já entra com a água fervida.”

Apesar das diferenças, Henrique não acredita que o formato substitua os meios tradicionais.

“Não vai substituir o teatro, o cinema ou o novelão tradicional. É simplesmente mais uma forma de entretenimento audiovisual que conquistou seu espaço.”

DE SURPRESA A NOVO MERCADO

A atriz Bárbara Bruno teve seu primeiro contato com as novelas verticais de forma inesperada.

“Eu caí de paraquedas. Fui ajudar uma amiga produtora e nem sabia exatamente do que se tratava.”

O que encontrou no set, porém, chamou sua atenção.

“Era um mercado novo, com profissionais muito jovens e uma energia criativa muito estimulante.”

Desde então, participou de diversas produções e acompanhou a rápida evolução da linguagem.

“Hoje já percebo uma diferença enorme entre uma produção e outra. As mudanças acontecem muito rápido.”

Para ela, a principal transformação está na própria técnica de interpretação.

“Você trabalha em um sistema de ação e reação. Não existe muito tempo para elaborar uma emoção. Ela precisa estar à flor da pele o tempo todo.”

Bárbara vai além e acredita que as novelas verticais estão construindo uma linguagem própria.

“Não é apenas uma adaptação. É uma nova forma de contar histórias.”

UMA NOVA ESCOLA BRASILEIRA?

Ao analisar o futuro do formato, Bárbara faz um paralelo histórico interessante. Ela lembra que, entre as décadas de 1960 e 1970, a televisão brasileira absorveu uma geração inteira de autores, diretores e atores, criando aquilo que se tornaria o reconhecido modelo brasileiro de telenovelas. Segundo ela, algo semelhante pode acontecer agora.

“Acredito que o mercado artístico brasileiro vai se voltar cada vez mais para as novelas verticais e acabará criando um jeito brasileiro de fazer esse tipo de produção. Quando isso acontecer, vamos exportar essa linguagem para o mundo.”

Eneas Pereira compartilha visão semelhante. Para ele, o crescimento sustentável do setor depende justamente do surgimento de novos profissionais.

“Torço para que esse mercado revele novos autores, atores e produtores. Isso é fundamental para garantir a continuidade e a sustentabilidade desse processo.”

QUEM ASSISTE NÃO QUER PARAR

Se existe uma prova do sucesso das novelas verticais, ela está no comportamento dos espectadores. A consumidora Annelise Gonzalis admite sem rodeios que se tornou fã do formato.

“O que me prende é o enredo. Normalmente é alguém injustiçado que dá a volta por cima e consegue se vingar.”

Ela afirma que as novelas verticais mudaram seus hábitos de consumo.

“Não existe horário fixo. Assisto nos momentos livres.”

Na comparação com séries e novelas tradicionais, ela aponta a principal vantagem.

“Elas têm mais agilidade e as histórias terminam naquela própria novela.”

E o efeito de maratona parece ser inevitável.

“Normalmente assisto a novela inteira. O tempo total acaba sendo parecido com dois episódios de uma série comum. É viciante acompanhar a volta por cima do protagonista.”

Quando questionada sobre o futuro do formato, ela não demonstra dúvidas.

“É o futuro. Os atores já são reconhecidos e até existem premiações voltadas para esse mercado.”

UMA REVOLUÇÃO SILENCIOSA

O ator Stephano Matolla, que já participou de cinco novelas verticais, incluindo uma produção que ultrapassou 249 milhões de visualizações, acredita que o crescimento do formato está diretamente ligado ao novo ritmo da sociedade.

“As coisas estão cada vez mais rápidas e esse formato conversa muito bem com isso.”

Ele conta que frequentemente observa pessoas assistindo às produções durante deslocamentos em transporte público.

“As pessoas assistem em qualquer lugar. É um conteúdo que acompanha a rotina.”

Matolla também destaca que o setor está em constante evolução e já reúne produções adaptadas de obras chinesas, conteúdos inspirados em dramas asiáticos e histórias totalmente brasileiras.

“O público deveria dar uma oportunidade para conhecer esse formato. Tem muita coisa boa sendo produzida.”

O FUTURO JÁ COMEÇOU

As novelas verticais ainda estão construindo sua identidade definitiva no Brasil, mas já demonstram força suficiente para movimentar produtoras, plataformas, artistas e milhões de espectadores. O que começou como uma experiência voltada ao celular transformou-se em um novo modelo de produção audiovisual.

Talvez o maior erro seja tentar comparar esse formato diretamente com as novelas tradicionais. Como observa Bárbara Bruno, cada época encontra a sua própria linguagem.

E se durante décadas o país ensinou o mundo a fazer telenovelas, talvez esteja começando agora a escrever o próximo capítulo dessa história, desta vez, em pé, na tela de um celular.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo