Negócios

NR-1 É O NOVO ESG?

A NR-1 corre o risco de virar mais uma vitrine corporativa?

Toda empresa dizia querer salvar o planeta. Toda empresa se dizia preocupada profundamente com as pessoas. Toda empresa dizia ter propósito. Toda empresa dizia colocar o colaborador no centro. E agora, aparentemente, toda empresa também está preocupadíssima com a saúde mental. Que coincidência.

Bastou a NR-1 ganhar destaque para surgir uma nova espécie no ambiente corporativo brasileiro: o Especialista em NR-1. Ele não existia há seis meses. Não existia há um ano. Mas agora está em toda parte. Faz palestras, ministra cursos, vende consultorias, produz e-books, grava vídeos e publica artigos explicando aquilo que, até ontem, parecia não despertar o menor interesse.

Se essa história parece familiar, é porque já vimos esse filme. Ele se chamava ESG.

O que é ESG?
ESG é a sigla para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança). O conceito reúne práticas que avaliam como uma empresa lida com questões ambientais, impacto social e transparência na gestão.

O que é a NR-1?
A NR-1 é a Norma Regulamentadora nº 1 do Ministério do Trabalho, que estabelece diretrizes gerais de segurança e saúde ocupacional. Sua atualização passou a exigir que as empresas também identifiquem e gerenciem riscos psicossociais, como assédio, excesso de pressão, sobrecarga e fatores que podem afetar a saúde mental dos trabalhadores.

Durante um tempo, ESG foi a grande palavra mágica do mercado. Bastava colocar três letras numa apresentação de PPT e a empresa imediatamente parecia mais moderna, mais consciente e mais preparada para o futuro. Surgiram especialistas, certificações, eventos, congressos, selos, premiações e consultorias para todos os gostos e bolsos.

A empresa continuava desperdiçando recursos, tratando mal funcionários e tomando decisões questionáveis? Não importa. Desde que tivesse um belo relatório colorido mostrando suas iniciativas ESG, estava tudo certo. Afinal, parecer sustentável muitas vezes era mais importante do que ser sustentável.

Agora o ESG parece ter perdido o brilho. Não desapareceu, mas deixou de ser o assunto obrigatório em toda reunião corporativa. E como o mercado odeia vácuos, surgiu um novo assunto. Bem-vinda, NR-1.

Não que a saúde mental seja um tema sem importância. Muito pelo contrário. O aumento dos casos de ansiedade, burnout e adoecimento psicológico é uma realidade séria. Mas existe uma diferença enorme entre cuidar da saúde mental e criar uma indústria em torno da saúde mental. Estamos transformando um problema humano em mais uma oportunidade comercial. E já podemos imaginar algumas cenas.

Empresas promovendo a Semana da Saúde Mental enquanto mantêm metas impossíveis. Palestras sobre equilíbrio emocional realizadas durante jornadas de trabalho que impedem qualquer equilíbrio. Campanhas internas incentivando o autocuidado em organizações que respondem mensagens à meia-noite. Pesquisas de clima aplicadas em ambientes onde ninguém se sente seguro para responder o que realmente pensa.

Tudo devidamente documentado. Tudo dentro da norma. Tudo excelente para a fotografia institucional.

O mercado corporativo brasileiro tem um talento extraordinário para transformar causas legítimas em departamentos, departamentos em processos e processos em apresentações de slides.

É possível que muitas empresas façam um trabalho sério com a NR-1? Claro que sim. Mas também é provável que muitas descubram que é mais fácil contratar uma consultoria do que mudar uma cultura. É mais fácil criar um comitê do que rever lideranças tóxicas. É mais fácil imprimir um certificado e colocar na parede do que enfrentar os problemas reais.

Talvez a pergunta não seja se a NR-1 é o novo ESG. Talvez a pergunta seja outra. Qual será a próxima sigla da moda?

Porque, se a história recente serve de referência, em alguns anos haverá um novo tema dominando eventos corporativos, lotando auditórios e produzindo uma nova geração de especialistas instantâneos.

E quando isso acontecer, muitos dos atuais defensores apaixonados da NR-1 estarão explicando por que a nova tendência é o verdadeiro futuro das empresas.

Enquanto isso, as placas continuarão bonitas. As apresentações continuarão impecáveis. E a realidade seguirá aguardando sua vez de participar da reunião.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo