A GENTE PRECISA PARAR DE AGRADECER PELO POLÍTICO TER FEITO O SEU TRABALHO
É muito comum eu andar por São Paulo e ver faixas de agradecimento para políticos X ou Y. Também é muito comum vermos “cerimônias de entrega”, nas quais um político vai “distribuir” determinado número de ambulâncias ou viaturas.
Essa é a confusão que o brasileiro faz entre “favor” e “obrigação pública”. A gente está agradecendo pelo político fazer o próprio trabalho? Seria a mesma coisa que bater palma dentro do banco para o gerente após ele resolver um problema interno.
Quando um político tapa um buraco, reforma uma praça, arruma um posto de saúde ou instala iluminação, muita gente reage como se tivesse recebido um presente pessoal. Mas aquilo foi pago pela população através de impostos. O político não está “tirando do bolso dele”. Não é um patrocínio pessoal. Ele está administrando recursos públicos para executar exatamente aquilo que foi eleito para fazer.
O problema é que, no Brasil, a régua ficou tão baixa que o básico virou motivo de comemoração. Enquanto o Estado falha constantemente, qualquer funcionamento mínimo parece extraordinário.
Muitas pessoas têm uma relação quase paternal com políticos, como se eles fossem “protetores”, e não funcionários públicos temporários. E, claro, os próprios políticos alimentam isso de propósito, personalizando obras públicas: “EU fiz”, “EU trouxe”, “EU dei”. Isso cria capital político emocional.
E tem outro ponto importante: há diferença entre reconhecer uma execução competente e idolatrar alguém como se aquilo fosse caridade. Seria até razoável reconhecer um gestor eficiente, transparente e que entrega além da média. Mas é, no mínimo, um absurdo agir como se cumprir o dever fosse um ato de bondade divina.
Vamos levar isso para outras profissões:
- Você não agradece emocionado ao piloto por pousar o avião sem cair.
- Você não faz carreata porque o encanador resolveu o vazamento que foi contratado para resolver.
- Você não chama o professor de herói apenas porque ele deu aula. (Embora, nos dias de hoje, até valha chamá-lo de herói.)
Mas, na política, isso acontece porque a população se acostumou com abandono, corrupção e ineficiência. Então, o pouco vira espetáculo. E o mais perigoso é que, quando o cidadão sente que recebeu um “favor”, ele perde a postura de cobrança. Quem recebe favor fica devendo gratidão. Quem paga imposto deveria exigir resultado.
A democracia funciona melhor quando a população entende que o dinheiro é público, o cargo é temporário e o político é servidor. Dono da cidade existe em outro regime político.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo









