Gastronomia

A comida do restaurante é realmente igual à foto?

Fotógrafo gastronômico revela os bastidores por trás das imagens perfeitas

Abrir um aplicativo de delivery e escolher um prato virou uma experiência visual. Hambúrgueres impecáveis, pizzas com queijo infinito e sobremesas cinematográficas disputam nossa atenção o tempo todo. Mas existe uma pergunta que acompanha praticamente todo consumidor moderno: a comida do restaurante realmente é igual à foto?

Para entender o que acontece por trás dessas imagens tão desejáveis, eu conversei com o fotógrafo gastronômico Eduardo Krajan, que revelou bastidores, limites éticos e os desafios de transformar comida em desejo visual.

Segundo Eduardo, tudo depende da honestidade do restaurante e da proposta do trabalho.

“Quando o trabalho é bem feito e honesto, a ideia da foto é representar o melhor momento daquele prato, mas sem fugir da realidade. O problema é quando a foto cria uma expectativa impossível de entregar no dia a dia da operação”, explica.

O delivery mudou tudo

Se antes a experiência de um restaurante envolvia ambiente, cheiro e atendimento, hoje boa parte da decisão acontece apenas pela tela do celular. E isso aumentou ainda mais o peso da fotografia gastronômica.

“No delivery, a foto vira praticamente a única promessa visual do prato. Então qualquer diferença parece maior”, comenta Eduardo.

Segundo ele, o consumidor atual também está muito mais atento e crítico. Redes sociais, avaliações online e comparações instantâneas fizeram as pessoas perceberem rapidamente quando existe uma distância grande entre a imagem e a realidade.

Técnica ou manipulação?

Ao contrário do que muita gente imagina, Eduardo afirma que a maior parte do trabalho está na técnica, e não na edição exagerada.

“A maior parte é luz, composição, styling e timing. Quando a comida é boa e bem apresentada, quase não precisa manipular.”

Mesmo assim, ele admite que existe exagero em algumas campanhas publicitárias, principalmente quando a preocupação passa a ser apenas impacto visual.

“A fotografia gastronômica sempre vai valorizar textura, cor e ângulo. O problema é quando o exagero faz o prato parecer outro produto.”

Para o fotógrafo, existe um limite claro entre valorização visual e propaganda enganosa.

“Pra mim, o limite é quando a foto mostra algo que o cliente não vai receber. Melhorar a apresentação faz parte do trabalho. Inventar tamanho, volume ou ingredientes que não existem já entra em outro território.”

Os alimentos que mais “enganam”

Entre os campeões de expectativa versus realidade, Eduardo cita hambúrgueres e pizzas.

“Na foto, tudo está montado milimetricamente. Já no delivery, o deslocamento muda bastante o visual.”

Por outro lado, ele lembra que alguns pratos vivem a situação oposta: são deliciosos, mas difíceis de fotografar.

“Ensopados, feijão e alguns pratos caseiros às vezes têm sabor incrível, mas não ajudam visualmente.”

Bastidores pouco glamourosos

Embora as fotos pareçam simples, uma única imagem pode levar mais de uma hora para ficar pronta.

“Muita gente acha que é rápido, mas existe montagem de cena, iluminação, testes e ajustes. O clique em si é a parte mais rápida.”

E nem sempre tudo sai como planejado. Eduardo relembra situações comuns nos bastidores:

“Já tive sorvete derretendo antes da foto, hambúrguer desmontando no meio do clique e fumaça que simplesmente não aparecia na câmera.”

O resultado disso? O fotógrafo quase sempre come a comida fria.

“Quem trabalha com gastronomia aprende rápido que a comida bonita nem sempre chega quente na hora de comer”, brinca.

A gente come primeiro com os olhos?

Para Eduardo, não existe dúvida.

“A imagem cria desejo antes mesmo do cheiro ou do sabor entrarem na experiência.”

Segundo ele, iluminação, composição e direção de arte conseguem até mudar a percepção de valor de um prato.

“Uma foto pode fazer uma comida parecer sofisticada ou simples. A percepção de valor vem muito da imagem.”

O desafio da autenticidade

Em um cenário onde restaurantes disputam atenção o tempo inteiro nas redes sociais, existe uma pressão crescente para deixar tudo visualmente perfeito.

“Hoje a concorrência visual é enorme”, afirma Eduardo.

Mesmo assim, ele acredita que a autenticidade se tornou um diferencial importante.

“O público valoriza cada vez mais aquilo que parece real.”

Essa visão, inclusive, já fez o fotógrafo recusar trabalhos.

“Já aconteceu de a expectativa ser criar algo impossível de reproduzir no serviço real. Prefiro trabalhos onde a fotografia valoriza o produto de verdade, porque isso gera confiança para o cliente e para o restaurante.”

No fim, talvez a resposta para a pergunta inicial seja simples: a fotografia gastronômica não precisa mostrar exatamente o prato do dia a dia em todos os detalhes, mas também não pode vender uma fantasia impossível. A diferença entre desejo e frustração cabe em uma única mordida (ou seria em uma única foto? Risos.).

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo