A gente sabe. Tinha muita, mas muita gente que pegava um livro na escola, da coleção Vagalume geralmente, e folheava de cabo a rabo. A ideia era ver se tinha muitas ilustrações. Porque assim dava uma aliviada na leitura do volume. Dava a ilusão que o livro acabava mais rápido. Antes que acabasse com o coitadinho do leitor. Aiiiiiiiin!
O fato chato, para muitos feito a gente, é que as facilidades de consumo escolar da coleção do inseto de traseiro fosforescente terminariam num piscar de olhos. Veio o ensino médio, a ameaça invisível de ter que escolher o que seríamos quando crescêssemos. Do dia para a noite. E o tornar-se adulto incluía ler clássicos indiscutíveis. Se fossem indicáveis para os futuros vestibulares, então… bye bye, Marcos Rey!
Pior que engolir os Machados e Alencares praticamente a seco, era tomar ares de grande pensador contemporâneo e fazer uma dissertação. Do nada, despejar numa folha de almaço reflexões sobre a atual conjuntura, os conflitos mundiais, a situação da população, a política da vez. Isso numa época sem computador, sem celular, sem chat GPT. E com obrigação de entregar tudo isso para posterior decapitação… digo, avaliação.
Mas o tempo passa, ainda bem. E como passa rápido. O vestibular passa, a faculdade idem. Os trabalhos e empregos vão chegando e indo embora. Décadas após os acontecimentos dos parágrafos anteriores, alguns de nós aprendemos a “escrever direitinho”. E a ironia é que ouvi isso de uma saudosa diretora de um moribundo jornal, pouco antes de receber o bilhete azul. Para ficar bem na fita, talvez tivesse sido melhor escrever uma carta de demissão. Daquelas de comover um Machado de Assis.
E o que o esteta do Cosme Velho diria dos estados de ânimo dos atuais escribas de redes sociais? A julgar pelas queixas, ditames, sentenças, pitacos e demais verborragias postadas a todo momento, a geração que fugia dos vagalumes e Gracilianos da vez mostra que, sim, tem voz. E também tem asco, repulsa, ojeriza aos chamados “textões”. Mas os textões dos outros, não os seus. A gente sabe!
Érico San Juan é ilustrador, designer gráfico e radialista locutor. Seus trabalhos integraram 32 livros e 80 exposições desde 1996. Em 2023, foi um dos chargistas convidados do programa Roda Viva, na TV Cultura (SP). Editor do jornal de humor impresso Capiau e host do podcast Curto! no YouTube. @ericosanjuan.









