O encerramento das atividades da Rádio Eldorado não representa apenas o fim de uma emissora tradicional do dial paulistano. Representa o desaparecimento de um símbolo cultural, de uma curadoria musical rara e de uma maneira muito particular de fazer rádio no Brasil.

Durante décadas, a Eldorado ocupou um espaço quase paradoxal no rádio brasileiro: conseguia ser sofisticada sem ser arrogante, clássica sem ser ultrapassada, moderna sem se render completamente às fórmulas fáceis do mercado.
A rádio “dos melhores ouvintes” construiu algo que hoje parece cada vez mais raro na comunicação: identidade.
E talvez seja justamente por isso que seu silêncio tenha provocado tanta reação emocional.
O documentário O Fim da Rádio Eldorado, produzido pelo jornalista Felipe Tellis e disponibilizado gratuitamente no YouTube, já ultrapassa milhares de visualizações e funciona quase como um registro histórico dos últimos dias da emissora. Entre corredores vazios, estúdios silenciosos e profissionais emocionalmente abalados, o filme mostra que a Eldorado nunca foi apenas uma rádio. Era um senso de pertencimento.
Nos comentários do documentário, um dos ouvintes resumiu o sentimento coletivo ao escrever:
“Algumas rádios apenas ocupam frequência. A Eldorado ocupava memória, emoção e identidade.”
A frase talvez explique melhor do que qualquer análise técnica por que o encerramento gerou tamanho impacto.
A Eldorado foi uma das poucas emissoras brasileiras capazes de transformar programação musical em linguagem cultural. Havia intenção nas escolhas. Havia contexto. Havia assinatura humana em tempos cada vez mais dominados por algoritmos, playlists automáticas e consumo acelerado.
Enquanto plataformas digitais oferecem quantidade infinita de músicas, a Eldorado oferecia algo mais difícil de replicar: sensibilidade. E isso criou uma relação afetiva rara entre rádio e audiência.
Nas redes sociais, jornalistas e profissionais da emissora compartilharam relatos emocionados nos últimos dias de transmissão. O jornalista Haisem Abaki, um dos nomes ligados à rádio, publicou:
“Nós ficamos juntos o tempo todo, até neste que foi o nosso ‘melhor pior dia’. Muito orgulho de ter feito parte desse time de gente boa que fez a alma da Eldorado.”
Em outra postagem, definiu a essência da emissora:
“A Eldorado sempre teve muito mais do que ouvintes. Não é só audiência, é identificação e pertencimento.”
Esse vínculo ficou evidente nos protestos organizados por ouvintes em São Paulo. O movimento #FicaEldorado reuniu centenas de pessoas na Avenida Paulista em defesa da permanência da rádio no ar. Artistas, ouvintes, jornalistas e profissionais da comunicação participaram dos encontros que misturavam manifestação cultural, nostalgia e resistência.
Mas, apesar da emoção legítima do público, existe também uma discussão inevitável: o rádio mudou. E mudou faz tempo.
O fechamento da Eldorado é triste, mas também expõe uma realidade que muitos veículos tradicionais ainda resistem em aceitar. O consumo de áudio passou por uma transformação profunda nos últimos anos. Streaming, redes sociais, YouTube, podcasts, conteúdo sob demanda e distribuição multiplataforma alteraram completamente a lógica da audiência.
No livro Manual do New Rádio, lançado em 2024, Heródoto Barbeiro, Nilo Frateschi e eu já discutíamos justamente essa transição. O rádio sempre teve como uma de suas maiores virtudes a capacidade de adaptação tecnológica. Sobreviveu à televisão, ao videocassete, à internet e às redes sociais porque soube incorporar mudanças.
Diferente da televisão, que muitas vezes resistiu às transformações, o rádio historicamente aprendeu a absorver novas linguagens. Por isso causa estranhamento ver parte do mercado ainda sendo pega de surpresa em 2026.
A própria Eldorado carregava uma marca forte o suficiente para ter ampliado sua presença digital de maneira mais agressiva e estratégica nos últimos anos. O ex-diretor João Lara Mesquita, responsável por uma das fases mais criativas da emissora, chegou a criticar publicamente o baixo investimento digital da marca e classificou como “mal elaborada” a justificativa de que o rádio estaria perdendo espaço apenas por causa das mudanças de hábito do público.
E talvez exista verdade nos dois lados.
Sim, o rádio continua forte. Sim, ainda existe público para curadoria humana, conteúdo de qualidade e programação inteligente. Mas também é verdade que o modelo de negócio mudou radicalmente — e ignorar isso cobra um preço alto.
Eu estive no prédio do Estadão em 2019, antes mesmo da pandemia. A sensação era estranha. Corredores vazios, ambientes escuros, silêncio, pouca circulação. Parecia cenário de um filme fantasma. Agora, em 2026, aquele espaço ficará ainda mais vazio sem a Eldorado.
Claro que o fechamento de uma rádio gera tristeza. Principalmente uma rádio que ajudou a formar repertório cultural de tanta gente. Mas também é preciso reconhecer que emissoras são empresas privadas. E empresas precisam encontrar sustentabilidade para continuar existindo.
O problema talvez não tenha sido apenas a mudança do mundo. Talvez tenha sido perder o timing da mudança.
A Eldorado deixa um legado enorme para a comunicação brasileira. Um legado de sofisticação, inovação, credibilidade e respeito ao ouvinte. Foi pioneira em inúmeras iniciativas, revelou profissionais, abriu espaço para música de qualidade e ajudou a provar que rádio também podia ser profundidade.
O silêncio que ficou após seus últimos segundos no ar talvez não seja apenas saudade.
Talvez seja também um alerta para toda a comunicação brasileira.










