Yehuda Hochmann: o homem por trás da história, da fé e de uma das imagens mais simbólicas de Israel.
No último dia 18 de maio de 2026, faleceu Yehuda Hochmann, israelense, guia, professor, fotógrafo, rabino messiânico e uma testemunha viva de alguns dos momentos mais marcantes da história contemporânea de Israel. Mais do que um especialista em história bíblica, Yehuda carregava em sua trajetória algo raro: ele não apenas estudou a história — ele participou dela.

Conheci Yehuda em Israel, durante uma viagem de gravações do comentário bíblico Rota 66 em Vídeo, projeto realizado pela Rádio Trans Mundial ao lado do teólogo e hebraísta Luiz Sayão. Enquanto percorríamos lugares históricos da Terra Santa, Yehuda fazia muito mais do que guiar turistas. Ele conectava paisagens, arqueologia, conflitos, fé e humanidade de uma forma que poucos conseguem.
Era impossível não perceber seu profundo conhecimento histórico. Mas o que impressionava ainda mais era a maneira tranquila e quase humilde com que falava sobre acontecimentos que marcaram o destino do Oriente Médio — inclusive aqueles dos quais ele próprio participou.
Yehuda integrou a equipe de paraquedistas israelenses durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Um conflito que mudaria para sempre a configuração geopolítica da região. A guerra colocou Israel contra Egito, Síria, Jordânia e Iraque, além do apoio de outros países árabes. O objetivo declarado de muitos desses governos era eliminar o Estado de Israel do mapa. Em apenas seis dias, Israel venceu o conflito e retomou Jerusalém Oriental, incluindo o Kotel — o Muro das Lamentações.
Foi justamente naquele cenário que nasceu uma das fotografias mais emblemáticas do século XX.
A famosa imagem do fotógrafo David Rubinger mostra três jovens paraquedistas israelenses olhando para o Monte do Templo poucos minutos após a retomada do Kotel. Os rostos misturam incredulidade, exaustão e emoção diante de um momento considerado histórico para o povo judeu após quase dois mil anos de separação de seu local mais sagrado.
Os três homens eternizados na imagem eram Dr. Yitzhak Yifat, Tzion Karasenti e Chaim Oshri.

O que pouca gente sabe é que existe uma segunda fotografia daquele mesmo momento. Nela, ao fundo, aparece Yehuda Hochmann — o quarto paraquedista.
Uma presença quase silenciosa em uma das imagens mais importantes da história moderna de Israel.
Anos depois, os próprios soldados lembrariam que a vitória não tinha clima de celebração. Em 2017, Yifat declarou a jornalistas israelenses:
“Libertar o Kotel foi algo incrível. Mas nunca comemoramos. Perdemos muitos de nossos amigos.”
Essa consciência histórica também acompanhava Yehuda em suas aulas, palestras e conversas informais.
Graduado em Jornalismo, licenciado em Turismo e PhD em Estudos Bíblicos, Yehuda construiu uma trajetória internacional como professor e líder religioso. Foi ordenado rabino messiânico pelo rabino Joseph Shulam, do Netivya Institute, em 2003, no Brasil. Lecionou em sinagogas, igrejas, seminários, yeshivot e universidades em diversos países da América Latina, Estados Unidos e Israel.
Também atuou no Instituto Moriá, afiliado à Universidade Hebraica de Jerusalém; no Centro Bíblico Neguebe, ligado à UNILIMI de Nova York; e na Universidade Popular de Beer-Sheba.
Além das aulas e viagens, Yehuda também era apaixonado por fotografia.
Talvez por isso tivéssemos tantas conversas sobre câmeras, enquadramentos e imagens. Eu quase sempre estava com uma câmera nas mãos, e ele adorava observar detalhes visuais que passavam despercebidos pela maioria das pessoas.
Uma de suas fotografias mais marcantes mostrava um submarino atravessando o mar ao fundo do aqueduto romano de Cesareia Marítima. A legenda criada por ele misturava humor, história e cinema:

“Red October passing through… under the Roman aqueduct, Caesarea, Israel…”
A imagem dizia muito sobre quem ele era: alguém capaz de unir passado e presente em um único olhar.
Yehuda também deixou sua contribuição registrada em livros, entre eles Israel Que Você Ainda Não Conhece, publicado pela Editora Inter-Kroker, obra que buscava apresentar um Israel além das manchetes e estereótipos.
Para quem esteve ao seu lado em viagens, aulas e conversas, Yehuda não era apenas um guia turístico ou um professor de história bíblica. Era alguém que carregava memória viva, experiência de guerra, profundidade espiritual e sensibilidade humana.
Daqueles encontros raros que transformam um lugar em algo muito maior do que um destino turístico.
Yehuda Hochmann ajudava pessoas a enxergarem Israel não apenas com os olhos — mas com contexto, emoção e significado.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo









