Inteligência Artificial

IA pode aumentar desigualdades

“IA pode aumentar desigualdades se não houver intenção humana”, alerta Laura Davis Mattar no CLT 4.0

Advogada especializada em direitos humanos, ESG, diversidade e inclusão, Laura Davis Mattar participou do podcast “CLT 4.0 com Sólon Cunha” para discutir os desafios da responsabilidade social corporativa, o papel das empresas na promoção da diversidade e os impactos da inteligência artificial nas relações de trabalho.

Durante a conversa, Laura — que atua como gerente de cidadania corporativa no escritório de advocacia Mattos Filho — destacou que responsabilidade social não deve ser encarada como exclusividade de grandes empresas, mas como um dever corporativo de qualquer organização.

“A responsabilidade é de todos. O que muda é o tamanho do impacto”, afirmou.

Segundo ela, o conceito de cidadania corporativa vai além de ações filantrópicas e envolve uma transformação cultural dentro das empresas, incluindo diversidade, inclusão, voluntariado, combate ao assédio e promoção dos direitos humanos.

Laura também relembrou o início da própria trajetória profissional, quando atuar com direitos humanos ainda era visto como algo distante do ambiente corporativo.

“Eu comecei minha carreira defendendo adolescentes infratores e trabalhando pelos direitos das mulheres. Nunca imaginei que estaria hoje dentro de um grande escritório estruturando responsabilidade social corporativa.”

Ao longo da entrevista, um dos principais temas abordados foi a desigualdade enfrentada pelas mulheres no mercado de trabalho. Para Laura, apesar dos avanços, a maternidade ainda é um dos maiores fatores de impacto na carreira feminina.

“A carreira da mulher não é linear. Ela é interrompida pelas gestações e pelas licenças.”

Ela defendeu medidas práticas para empresas que desejam promover ambientes mais equilibrados, como a ampliação da licença-maternidade para 180 dias e o fortalecimento da licença-paternidade.

O próprio escritório Mattos Filho, segundo Laura, oferece 60 dias de licença-paternidade aos colaboradores.

“A gente não ama porque o bebê nasceu. A gente ama porque cuida. Quando o pai participa desde o começo, ele cria vínculo.”

Outro ponto forte da conversa foi o debate sobre vieses inconscientes dentro das empresas. Laura explicou que muitas decisões corporativas ainda são tomadas com base em afinidades pessoais e padrões automáticos de comportamento.

“Quando você faz as coisas no automático, você reproduz muito do que você é.”

Ela citou situações comuns no ambiente corporativo, como avaliações profissionais em que homens são descritos como “líderes” e “competentes”, enquanto mulheres recebem elogios relacionados à simpatia e acolhimento.

A discussão avançou também para o impacto da inteligência artificial nos processos seletivos e nas políticas de diversidade.

Para Laura, embora a IA possa trazer agilidade, ela também pode reforçar desigualdades já existentes caso não haja supervisão humana.

“A IA dá uma padronizada. Quando você quer promover determinados grupos, eu não sei se ela dá conta.”

Ela relatou casos em que algoritmos passaram a invisibilizar determinados públicos por reproduzirem padrões automáticos de consumo e comportamento.

“Os algoritmos acabam reproduzindo privilégios já existentes.”

Ao longo do episódio, Solon Cunha conduziu um bloco de “letramento” sobre diversidade e inclusão, no qual Laura explicou conceitos como nome social, lugar de fala, racismo estrutural, vieses inconscientes e racismo recreativo.

Segundo ela, muitas expressões ainda utilizadas no cotidiano carregam preconceitos estruturais e precisam ser revistas.

“A piada só é boa quando todo mundo ri.”

Laura também falou sobre a importância de criar culturas organizacionais consistentes, e não apenas ações pontuais de compliance.

“Não adianta fazer treinamento uma vez e achar que resolveu. Cultura se constrói com repetição, exemplo e prática.”

Ao encerrar a entrevista, a especialista reforçou que empresas precisam enxergar diversidade e inclusão como temas estratégicos — não apenas sociais, mas também reputacionais.

“O dano reputacional de um escândalo é gigantesco.”

O episódio completo do podcast “CLT 4.0 com Solon Cunha” está disponível nas plataformas digitais do canal.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo