Entre flautas, mandalas e tatuagens feitas às escondidas, a história de Asghar Haghjuyan revela o outro lado de um país frequentemente reduzido a estereótipos nas manchetes internacionais.
Há pouco mais de um ano vivendo no Brasil, Asghar deixou o Irã em busca de algo que, segundo ele, parecia impossível em seu país: liberdade. Liberdade para trabalhar, para se expressar, para tocar música e até para tatuar.
“Eu sou tatuador. Fazer tatuagem no Irã é proibido. É crime”,
contou durante entrevista. Segundo ele, tatuadores iranianos precisam atuar de forma clandestina, sem estúdios visíveis ao público. “A gente faz tatuagens escondidos.”

Mas o artista iraniano faz questão de separar o povo iraniano da imagem construída internacionalmente sobre o país.
“Muita gente acha que o Irã fica na África ou chama iraniano de homem-bomba”, disse. “O povo do Irã gosta de paz”.
Asghar explica que o Irã possui uma cultura muito mais ligada às tradições persas do que ao imaginário que muitas pessoas no Ocidente têm sobre o Oriente Médio. Apesar da presença de palavras árabes no idioma persa, ele reforça que iranianos não são árabes e que a língua oficial do país é o persa.
O choque cultural ao chegar no Brasil
Acostumado a uma cultura mais rígida, Asghar se surpreendeu logo nos primeiros contatos com brasileiros.
“As pessoas aqui são muito calorosas”, contou, lembrando da primeira vez em que recebeu abraço e beijo no cumprimento. “Eu fiquei surpreso.”
Outro detalhe curioso foi perceber que os brasileiros costumam entrar em casa de sapato — algo incomum no Irã, principalmente pelo respeito aos tradicionais tapetes persas.
No país asiático, os tapetes carregam um forte valor cultural e artístico. Muitos são produzidos manualmente, processo que pode levar meses e causar ferimentos nas mãos dos artesãos.
“As pessoas que fazem tapete trabalham muito. Machuca os dedos”, explicou.
“As pessoas do Irã não têm liberdade”
Ao longo da conversa, Asghar também falou sobre o clima político vivido pelos iranianos. Vestindo uma camiseta com a frase “Free Iran”, ele afirmou que muitos cidadãos não concordam com as regras impostas pelo governo.
Segundo ele, críticas políticas podem resultar em prisão ou até morte.
“As pessoas do Irã não têm liberdade”, afirmou.
O iraniano relatou ainda dificuldades de acesso à internet no país e disse que parte da população depende de conexões controladas pelo governo. Para ele, o mundo muitas vezes conhece apenas a versão política do Irã — e não o cotidiano das pessoas comuns.
Música proibida e arte como resistência

Além de tatuador, Asghar também é músico e artista visual. Ele toca flauta, desenha mandalas e trabalha com caligrafia persa.
Uma das revelações que mais chamou atenção durante a entrevista foi sobre a música no Irã.
“Faz 47 anos que você não vê instrumento na televisão do Irã”, contou.
A paixão pela flauta começou de forma improvável: ao encontrar uma flauta verde em casa, que inicialmente pensou ser um brinquedo. Autodidata, aprendeu sozinho a tocar o instrumento e hoje carrega consigo a primeira flauta que comprou — trazida do Irã para o Brasil.
As mandalas, outro trabalho artístico desenvolvido por ele, também têm relação direta com a cultura iraniana.
“A nossa vida está misturada com mandala”, disse, citando a presença dos desenhos em mesquitas, tapetes e arquiteturas tradicionais do país.
Recomeço no Brasil

Para sobreviver no Irã, Asghar trabalhava em até três funções diferentes ao mesmo tempo: em uma usina, fazendo tatuagens e tocando música em eventos.
“Eu começava a trabalhar às 6 horas da manhã. Ficava 12 horas na usina. Depois tinha 15 minutos para tomar banho e começar as tatuagens.”
Hoje, vivendo no Brasil, ele trabalha no comércio durante a noite enquanto tenta reconstruir sua vida através da arte.
Ao final da entrevista, deixou uma mensagem simples sobre como gostaria que os brasileiros enxergassem os iranianos:
“Eu quero que os brasileiros conheçam a verdade sobre o povo do Irã.”
Você pode assistir a entrevista na íntegra:
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo









