Em entrevista a Heródoto Barbeiro, oftalmologista Marco Antonio Negreiros explica cirurgia realizada na Itália que aproveitou estruturas dos dois olhos da própria paciente
Uma cirurgia realizada na Itália conseguiu devolver parte da visão a uma mulher de 67 anos que estava completamente cega havia cinco anos. O procedimento chamou atenção por uma característica incomum: os médicos aproveitaram estruturas saudáveis dos dois olhos da própria paciente para reconstruir um deles.
Em entrevista ao jornalista Heródoto Barbeiro, no Jornal NovaBrasil, o oftalmologista Dr. Marco Antonio Negreiros explicou como foi possível realizar o procedimento e por que o caso representa um avanço importante da cirurgia oftalmológica.
A paciente, identificada na entrevista como Helena, havia sofrido danos nos dois olhos, mas de formas diferentes. Em um deles, o nervo óptico permanecia preservado. No outro, embora determinadas estruturas oculares ainda pudessem ser aproveitadas, a via responsável por levar a informação visual ao cérebro estava comprometida.
Essa diferença entre as lesões abriu uma possibilidade rara.
Para enxergar, a luz precisa atravessar estruturas como a córnea e a pupila até chegar à retina. Ali, o estímulo luminoso é convertido em impulso elétrico e enviado ao cérebro pelo nervo óptico. No caso da paciente, um dos olhos ainda mantinha essa ligação com o cérebro, mas apresentava danos nas estruturas que permitiriam a passagem adequada da luz.
Os médicos decidiram então aproveitar tecidos do outro olho.
Segundo Negreiros, o procedimento foi muito além de um transplante convencional de córnea. Foram transferidas a córnea, estruturas da região da esclera associadas a células-tronco e componentes da retina para o olho que ainda preservava o nervo óptico.
Na prática, como resumiu Heródoto durante a entrevista, “de dois olhos foi feito um”.
O procedimento é classificado como um autotransplante, já que os tecidos utilizados vieram da própria paciente. O olho cujo nervo óptico estava definitivamente comprometido forneceu estruturas ainda viáveis para o outro, que mantinha a comunicação com o cérebro.
A visão voltou, mas ainda com limitações
Negreiros chamou atenção para a necessidade de cautela ao avaliar o resultado.
Logo no primeiro dia após a cirurgia, a paciente já conseguiu perceber algumas imagens. A capacidade visual alcançada ainda é limitada, mas o ponto de partida era uma situação de cegueira completa.
“Ela não enxergava absolutamente nada, então foi um grande avanço”, afirmou o médico durante a entrevista. Para ele, o procedimento pode ser considerado um sucesso, embora seja importante compreender os limites atuais da recuperação visual.
Além da solução encontrada pelos médicos, o caso impressiona pela precisão necessária para uma cirurgia desse tipo.
Negreiros lembrou que boa parte do trabalho do oftalmologista ocorre em escala milimétrica e com auxílio de microscópio. Em um transplante de córnea, por exemplo, o fio utilizado nas suturas pode ser mais fino do que um fio de cabelo.
Uma cirurgia de seis horas
A complexidade do procedimento também exige anos de formação e treinamento dos profissionais envolvidos.
Segundo o oftalmologista, além dos seis anos da faculdade de Medicina, o especialista passa por residência médica e pode seguir por mais dois ou três anos de fellowship, além da experiência cirúrgica acumulada durante a carreira.
A cirurgia realizada na Itália durou cerca de seis horas.
“Não foi uma cirurgia trivial”, destacou Negreiros, ao elogiar a equipe responsável pelo procedimento.
Ao fim da entrevista, Heródoto Barbeiro resumiu o impacto do caso com uma pergunta que traduz a dimensão do feito: imaginar que estruturas de dois olhos pudessem ser combinadas para recuperar alguma capacidade visual parecia, até pouco tempo atrás, algo distante da prática médica.
O caso italiano mostra até onde a cirurgia oftalmológica já consegue chegar quando diferentes tecidos ainda preservados podem ser aproveitados. Para uma paciente que havia passado cinco anos sem enxergar absolutamente nada, conseguir voltar a perceber o mundo, ainda que parcialmente, já representa uma mudança concreta.










