Microfone Imaginário

São Paulo resumo do Brasil

Uma casinha de torrão e palha, quatorze passos de comprimento, doze de largura.

Eram essas as medidas da igreja original dos jesuítas da São Paulo de Piratininga, conforme Anchieta descreve em uma de suas cartas. 

Dorso de colina, imensidão de verde, água em quantidade a espreguiçar-se nas curvas do Tamanduateí.

Água a desperdiçar-se, tamanha sua quantidade nas cheias do Tietê e a espraiar-se no acalmar da correnteza.

O lugar onde nasceu o colégio e a futura metrópole não surgiu por acaso, foi tudo planejado e escolhido previamente.

Já se sabia da existência de riquezas e de uma tal Trilha do Peabiru a rasgar o continente de leste a oeste.

A Piratininga dos peixes e dos padres, virou ponto estratégico, arrimo de desbravadores em busca de riquezas.

Desde então, a começar pela generosidade de seus fundadores, São Paulo virou refeitório e escola para os índios.

São Paulo, desde então, dormitório para os pobres desvalidos da sorte e enfermaria para os doentes. 

A Pauliceia permanece assim, inspirada para servir, cuja servidão prossegue há quase 500 anos.

Gigantesca, a capital dos que buscam riquezas está repleta de pedintes, são os mesmos desalentados dos tempos de Anchieta.

Indígenas, negros, mulatos e mamelucos a dormir nas ruas, gente que não tem e nem sabe para onde ir.  

As águas antes límpidas se tornaram sujas pela podridão que segue por rios mortos, entremeados por parques terceirizados com flores de plástico.

Ainda assim, São Paulo segue sendo o destino das expectativas, da busca por dias melhores; até quando será assim? Já não se sabe.

Será São Paulo capaz de voltar aos seus primórdios?

Imaginemos o Anhangabaú a céu aberto beijar com suas águas o Tamanduateí e seguir livre para abraçar o irmão maior Tietê? Sonho difícil de alcançar.

Me deixem sonhar! O sonho faz parte do cotidiano daqueles que tem fé e até pelo nome São Paulo é a cidade de quem acredita. 

Geraldo Nunes é jornalista profissional, escritor e radialista premiado. Na saudosa Rádio Eldorado, além de repórter aéreo, apresentou o programa São Paulo de Todos os Tempos, onde se fez cronista da cidade, premiado pela APCA e com o Colar Guilherme de Almeida. Da Câmara Municipal recebeu a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo. Integra a Academia Paulista de História, Academia Cristã de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, é membro honorário da Força Aérea Brasileira – FAB.