Política

Quer entender a política? Vá à padaria

Todo dia de manhã eu vou à padaria tomar café. Todo dia mesmo. Eu já conheço todos os funcionários, eles me conhecem pelo nome e sabem o que eu como e o que eu tomo no café da manhã. Dependendo do horário, eu praticamente abro a padaria com eles. Chego cedo, encosto no balcão, peço meu café e, aos poucos, os outros vão aparecendo.

Tem o Paulo, o Seu Creito — e sim, é Creito mesmo —, o Cauê, o Edu e mais uma turma que foi se formando naturalmente. A gente começou se cumprimentando, depois veio uma conversa aqui, outra ali e hoje já falamos de tudo. Futebol, trabalho, família, dinheiro, trânsito, o preço das coisas, os problemas do bairro e, claro, política. Eu também converso muito com os funcionários da padaria e, depois dessa eleição, comecei a prestar mais atenção no jeito como eles falam sobre política.

É muito diferente da internet.

Quando você entra nas redes sociais, parece que o Brasil inteiro está dividido em dois exércitos. Um lado grita com o outro, todo mundo tem certeza de tudo e sempre aparece alguém dizendo que, se você não pensa exatamente como ele, você é burro, fascista, comunista, vendido, alienado ou qualquer outra coisa que esteja disponível no cardápio do dia.

Na padaria eu não vejo isso.

A Maria, que cuida da copa, não está interessada numa discussão interminável sobre direita e esquerda. A Josy, que fica no caixa, também não. Quando eu converso com eles sobre quem ganhou, quem perdeu ou sobre o que os novos políticos podem fazer, a resposta costuma ser bem mais simples: “Não vai mudar nada”.

E eles falam isso com uma naturalidade que chama atenção.

A grande questão para muita gente ali nem é saber se o candidato A é melhor do que o candidato B. A pergunta é se vale a pena, depois de uma semana inteira de trabalho e, em muitos casos, depois de trabalhar também no domingo, ainda parar tudo para ir votar.

A Maria me falou: “Eu nem deveria ter ido. Perdi o dia”.

A Josy me contou que não conseguiu ir. Caiu a maior chuva. Depois ela falou que talvez consiga votar no segundo turno, mas em seguida comentou que tinha até rasgado a cola que ganhou. “Ah, não vale a pena.”

Eu fiquei pensando nisso.

Enquanto a gente vê na internet pessoas discutindo política como se a sobrevivência da civilização dependesse do próximo post, tem uma quantidade enorme de brasileiros olhando para a eleição de outro jeito. A pessoa acorda cedo, trabalha muitas horas, pega ônibus, paga conta, vê o preço das coisas subindo e quer saber uma coisa muito simples: esse político vai melhorar alguma coisa na minha vida?

E eu acho que essa pergunta diz muito sobre o momento que a gente está vivendo.

Porque existe uma parte do eleitorado que não está apaixonada por político nenhum. Ela não está esperando um salvador da pátria e também não está com vontade de passar o domingo brigando por candidato. Ela quer saber se aquele sujeito que pediu o voto vai conseguir fazer alguma coisa concreta.

Quando a resposta que ela imagina é “não vai mudar nada”, começa a aparecer um problema enorme para a política. O eleitor não precisa necessariamente mudar de lado. Ele pode simplesmente perder o interesse.

E eu tenho a impressão de que isso aparece muito mais numa conversa de padaria do que numa discussão nas redes sociais. Por isso, se você quer saber como anda a política de verdade, eu recomendo uma experiência muito simples: saia um pouco da internet.

Vá tomar um café na padaria. Converse com a pessoa que está no caixa, com quem está servindo o balcão, com o dono do mercadinho, com o feirante, com o rapaz da oficina, com a mulher que trabalha no salão, com o pessoal da farmácia. Pergunte o que eles acham das eleições, dos candidatos, do governo, da oposição. E escute.

Mas escute mesmo.

Não vá para lá tentando explicar política para ninguém. Não tente corrigir a pessoa porque ela não conhece determinada proposta ou porque ela não acompanha aquele comentarista que você gosta. Você pode acabar descobrindo que ela está olhando para a política por um ângulo que você simplesmente não enxerga dentro da sua bolha.

A gente passa muito tempo vendo pesquisas eleitorais, gráficos, análises, cortes de vídeo e gente discutindo no X, no Instagram e nos grupos de WhatsApp. Aí você entra numa padaria de manhã e encontra uma mulher dizendo que perdeu o dia porque foi votar.

Isso também é política. Talvez seja até uma parte da política que os próprios políticos estejam ouvindo muito pouco.

Se eu fosse candidato, eu passaria menos tempo preocupado com o que estão falando de mim nas redes e reservaria algumas manhãs para entrar numa padaria, pedir um café e conversar com quem está atrás do balcão.

Sem câmera. Sem assessor. Sem fazer vídeo para postar depois. Só para ouvir.

Porque ali você pode descobrir uma coisa que nenhum relatório de engajamento vai mostrar: o eleitor pode até saber quem você é.

A questão é saber se ele ainda acredita que você vai fazer alguma diferença na vida dele.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo