Zuckerberg quer colocar inteligência artificial no nosso rosto. O brasileiro só gostaria de saber se não dava para fazer uma parceria com a Chilli Beans.
Eu entendo a proposta dos óculos inteligentes. Acho interessante conversar com uma inteligência artificial, registrar momentos e acessar recursos sem precisar tirar o celular do bolso. Minha dúvida é anterior à revolução tecnológica: precisava ser um Ray-Ban? Não dava para ligar para a Chilli Beans, marcar um café e perguntar quanto ficaria para colocar o futuro numa armação mais camarada?
Porque o brasileiro quer participar da transformação digital. Só precisa saber se parcela, se tem desconto no Pix e se o estojo está incluído. Enquanto o Vale do Silício discute como integrar a inteligência artificial à vida cotidiana, a gente está tentando integrar mais uma prestação ao orçamento.
A escolha, claro, tem uma explicação empresarial. A Meta mantém uma parceria com a EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban, que entra com experiência no setor óptico e uma ampla rede de distribuição. Não é simplesmente colar um logotipo na haste: há toda uma estrutura por trás do produto. Mas convenhamos que apresentar o futuro com uma marca desejada também ajuda. É mais fácil convencer alguém a colocar um computador no rosto quando ele combina com a roupa.
Óculos têm uma dificuldade que outros eletrônicos não enfrentam: precisam ficar bem na sua cara. Um notebook pode ser feio. Você fecha e guarda na mochila. Já os óculos acompanham seu nariz em reuniões, encontros e fotografias. Ninguém quer ouvir: “Nossa, que tecnologia impressionante. Pena que você ficou parecendo uma impressora”.
Ainda assim, faço aqui a defesa do hipotético Chilli Beans Meta. Não existe orçamento dessa parceria imaginária para garantir que sairia mais barato, mas tenho direito de sonhar. Uma edição brasileira poderia até vir com comandos adaptados às nossas necessidades: “Meta, compara esse preço”, “Meta, calcula o desconto” e “Meta, se eu comprar isso, ainda consigo pagar o condomínio?”.
A verdadeira inteligência artificial seria aquela que, diante da vitrine, dissesse: “Fernando, você já tem óculos. Vamos embora”.
Para ser justo com Zuckerberg, a família já cresceu: além dos Ray-Ban, há modelos Oakley Meta e uma linha chamada Meta Glasses, também desenvolvida com a EssilorLuxottica. Portanto, a resposta literal à pergunta do título é não: os óculos da Meta não precisam ser Ray-Ban. O que permanece é a torcida por uma versão que desperte menos negociação interna antes da compra.
Porque existe uma distância considerável entre achar uma tecnologia incrível e querer levar aquela tecnologia para a praia. Com meus óculos comuns, se vem uma onda, eu seguro a armação. Com um computador no rosto, provavelmente seguraria os óculos e deixaria a dignidade ser levada pelo mar.
No fundo, gostei da ideia. Só acho que o próximo grande salto da inteligência artificial poderia ser compreender o poder de compra de quem vai usá-la. Reconhecer objetos é impressionante. Reconhecer que o cliente está sem dinheiro seria revolucionário.
Zuckerberg, liga para a Chilli Beans. Se a conversa não render parceria, pelo menos pergunta se tem promoção.
Eu quero enxergar o futuro. Só não queria passar os próximos doze meses pagando por ele.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










