Alguns filmes decepcionaram os estúdios nos cinemas americanos, mas encontraram uma segunda chance nas locadoras, nos DVDs, na televisão e entre fãs brasileiros. A Sessão da Tarde ajudou a transformar vários deles em lembranças de gerações inteiras.
Existe uma diferença enorme entre fracassar nas bilheterias e fracassar na memória do público. Hollywood costuma medir o desempenho de um lançamento pelo dinheiro que entra nos primeiros fins de semana. O brasileiro, por outro lado, pode levar anos para descobrir que um filme que assistiu dez vezes na TV foi considerado um desastre comercial nos Estados Unidos.
É o caso de produções que frequentaram a Sessão da Tarde, fizeram sucesso nas locadoras ou conquistaram comunidades de fãs. Algumas chegaram a arrecadar menos do que custaram para produzir. Outras tiveram uma estreia decepcionante, mesmo sem ser possível calcular o prejuízo final apenas olhando a bilheteria.
Uma ressalva importante: esta é uma seleção editorial de dez filmes com desempenho comercial fraco na estreia, organizada pelo ano de lançamento, não um ranking matemático dos dez maiores prejuízos da história. E o sucesso no Brasil é aqui entendido como popularidade cultural posterior, não como liderança comprovada de bilheteria nas salas brasileiras.
Os orçamentos são estimativas públicas, e os valores de arrecadação podem variar conforme a inclusão de relançamentos e mercados internacionais. Bilheteria bruta também não equivale a lucro líquido: exibidores, distribuição, publicidade e receitas posteriores mudam a conta.
1. Blade Runner: O Caçador de Androides (1982)
Orçamento: US$ 28 milhões. Bilheteria: US$ 32,7 milhões nos EUA e Canadá, no acumulado de diferentes lançamentos.
Elenco principal: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young e Daryl Hannah.
Hoje é difícil imaginar o cinema de ficção científica sem as luzes de neon, a chuva interminável e os replicantes de Blade Runner. Em 1982, porém, a produção de Ridley Scott não entregou o fenômeno comercial que o estúdio esperava. Seu lançamento original foi decepcionante, mesmo com Harrison Ford no elenco. A bilheteria acumulada, ampliada por relançamentos, não conta sozinha a história daquele começo.
No Brasil, o filme sobreviveu muito além da primeira temporada nos cinemas. Circulou em locadoras, conquistou cinéfilos e voltou em sessões de TV e debates sobre ficção científica. A pergunta sobre o que torna alguém humano continua atraindo espectadores décadas depois. Hollywood esperava uma grande bilheteria. Ganhou um clássico cult.
Fontes: dados de bilheteria de Blade Runner e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
2. Labirinto: A Magia do Tempo (1986)
Orçamento: cerca de US$ 25 milhões. Bilheteria: US$ 12,7 milhões nos EUA e Canadá na estreia original.
Elenco principal: Jennifer Connelly e David Bowie.
Um rei dos duendes com o cabelo de David Bowie, criaturas criadas por Jim Henson e uma adolescente atravessando um labirinto para salvar o irmão. A receita parecia perfeita para o cinema de fantasia. Nas bilheterias norte-americanas de 1986, não foi bem assim.
O que não funcionou na estreia acabou ganhando uma vida muito mais longa no vídeo doméstico e entre admiradores do gênero. Também no Brasil, Labirinto tornou-se referência nostálgica para quem cresceu com fantasia, bonecos e cenários feitos à mão. O labirinto era difícil de atravessar; a barreira do tempo, o filme venceu.
Fontes: dados de bilheteria de Labyrinth e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
3. Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986)
Orçamento: US$ 25 milhões. Bilheteria: US$ 11,1 milhões nos EUA e Canadá.
Elenco principal: Kurt Russell, Kim Cattrall, Dennis Dun e James Hong.
Um caminhoneiro americano entra em uma confusão sobrenatural em Chinatown e encontra feiticeiros, artes marciais e monstros. John Carpenter misturou tudo isso sem pedir licença à lógica. O público norte-americano, aparentemente, não estava preparado: a produção ficou muito abaixo do orçamento nas bilheterias locais.
Por aqui, o destino foi outro. A aventura passou pela televisão e pelo mercado de vídeo, ganhou fãs e ficou associada à memória da Sessão da Tarde. É daqueles filmes que alguém começa a rever para matar a saudade e, quando percebe, está torcendo novamente por Jack Burton.
Fontes: dados de bilheteria de Big Trouble in Little China e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
4. De Volta à Lagoa Azul (1991)
Orçamento: US$ 11 milhões. Bilheteria: US$ 2,8 milhões nos EUA e Canadá.
Elenco principal: Milla Jovovich, Brian Krause e Lisa Pelikan.
Talvez seja o exemplo mais brasileiro desta lista. A continuação do famoso romance tropical foi um desastre comercial nos Estados Unidos. O filme de 1991, estrelado por Milla Jovovich e Brian Krause, faturou nos cinemas norte-americanos pouco mais de um quarto de seu custo de produção.
Mas o Brasil desenvolveu uma curiosa relação com as duas Lagoas Azuis. A Globo reprisou o original e a continuação tantas vezes que os filmes viraram uma piada afetiva sobre a programação da tarde. Aqui está a diferença: o primeiro longa, de 1980, foi um sucesso comercial; o fracasso da nossa lista é a sequência de 1991. Quem confundiu os dois provavelmente também já assistiu a ambos mais de uma vez.
Fontes: dados de bilheteria de Return to the Blue Lagoon e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
5. Matilda (1996)
Orçamento: US$ 36 milhões. Bilheteria: cerca de US$ 33,5 milhões nos EUA e Canadá.
Elenco principal: Mara Wilson, Danny DeVito, Rhea Perlman, Embeth Davidtz e Pam Ferris.
Uma menina inteligente, apaixonada por livros e capaz de mover objetos com a mente enfrenta pais irresponsáveis e uma diretora aterrorizante. Dirigido por Danny DeVito, Matilda conquistou boas avaliações, mas a arrecadação doméstica ficou abaixo do próprio orçamento de produção.
No Brasil, a história encontrou seu lugar diante da TV. A Globo exibiu o longa repetidas vezes na Sessão da Tarde, e a personagem de Mara Wilson se tornou uma lembrança carinhosa para diferentes gerações. Talvez a verdadeira telecinese de Matilda tenha sido fazer tanta gente interromper o dever de casa para assistir à reprise.
Fontes: dados de bilheteria de Matilda e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
6. O Gigante de Ferro (1999)
Orçamento: US$ 50 milhões. Bilheteria: US$ 23,5 milhões nos EUA e Canadá; cerca de US$ 31,7 milhões no mundo.
Elenco principal: Vozes originais de Eli Marienthal, Vin Diesel, Jennifer Aniston e Harry Connick Jr..
A amizade entre um menino e um robô gigante rendeu uma das animações mais emocionantes dos anos 1990. Também rendeu uma grande decepção nas bilheterias para a Warner. A produção de Brad Bird não recuperou seu custo de produção apenas com a arrecadação mundial registrada nos cinemas.
Anos depois, O Gigante de Ferro ganhou a reputação de clássico injustiçado. No Brasil, foi exibido inclusive na Sessão da Tarde, como mostram registros da própria Globo. A história ganhou tempo para encontrar seu público e provar que nem todo robô precisa destruir uma cidade para ser inesquecível.
Fontes: dados de bilheteria de The Iron Giant e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
7. O Caminho para El Dorado (2000)
Orçamento: US$ 95 milhões. Bilheteria: US$ 50,8 milhões nos EUA e Canadá; cerca de US$ 65,7 milhões no mundo.
Elenco principal: Vozes originais de Kevin Kline, Kenneth Branagh, Rosie Perez e Armand Assante.
Dois vigaristas encontram um mapa para a lendária cidade de ouro e acabam tratados como deuses. A DreamWorks investiu alto na animação, mas a viagem de Túlio e Miguel não rendeu ouro nas bilheterias. Nem no mercado americano, nem no total mundial rastreado, a receita chegou perto do orçamento.
Para os brasileiros que acompanhavam a programação da Globo, a dupla ganhou outras oportunidades: O Caminho para El Dorado passou na Sessão da Tarde em diferentes ocasiões. É a demonstração de que existe vida depois da bilheteria. Às vezes, ela começa quando alguém liga a televisão depois do almoço.
Fontes: dados de bilheteria de The Road to El Dorado e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
8. Planeta do Tesouro (2002)
Orçamento: US$ 100 milhões, segundo o The Numbers. Bilheteria: US$ 38,1 milhões nos EUA e Canadá; cerca de US$ 91,8 milhões no mundo.
Elenco principal: Vozes originais de Joseph Gordon-Levitt, Brian Murray e Emma Thompson.
A Disney resolveu levar a literatura de piratas para o espaço. A mistura de veleiros, naves e mapas holográficos produziu imagens memoráveis, mas não o retorno esperado para um longa tão caro. As estimativas de orçamento variam conforme a fonte; mesmo usando a cifra de US$ 100 milhões do The Numbers, a arrecadação mundial registrada fica abaixo do investimento.
No Brasil, a animação foi redescoberta por fãs e sessões especiais. Em 2026, uma mostra do Cinema da USP incluiu Planeta do Tesouro em sua programação de aventuras e relembrou seu fracasso comercial. O filme encontrou uma segunda rota, agora sem depender de liderar a bilheteria de estreia.
Fontes: dados de bilheteria de Treasure Planet e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
9. Eurotrip: Passaporte para a Confusão (2004)
Orçamento: US$ 25 milhões. Bilheteria: US$ 17,7 milhões nos EUA e Canadá; cerca de US$ 20,7 milhões no mundo.
Elenco principal: Scott Mechlowicz, Jacob Pitts, Michelle Trachtenberg, Travis Wester e participação de Matt Damon.
Quatro jovens americanos viajam pela Europa e colecionam confusões de gosto duvidoso. O filme não precisava de uma grande ambição artística: queria fazer rir, exagerar nas situações e deixar uma música inconveniente presa na cabeça do espectador.
Nas salas de cinema, a comédia ficou abaixo do custo de produção. No Brasil, circulou por DVDs, televisão e conversas nostálgicas sobre as comédias dos anos 2000. O portal brasileiro CinePOP o inclui entre os títulos cult daquele período. E há quem ainda lembre de Scotty Doesn’t Know antes mesmo de lembrar o nome do protagonista.
Fontes: dados de bilheteria de EuroTrip e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
10. Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010)
Orçamento: US$ 85 milhões, segundo o The Numbers. Bilheteria: US$ 33,7 milhões nos EUA e Canadá; cerca de US$ 50 milhões no mundo, com relançamentos.
Elenco principal: Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Kieran Culkin, Chris Evans e Brie Larson.
Scott Pilgrim toca baixo, apaixona-se por Ramona Flowers e precisa enfrentar os ex-namorados dela como se estivesse dentro de um videogame. O diretor Edgar Wright apostou em quadrinhos, efeitos visuais, música e um ritmo difícil de encontrar em outras comédias românticas.
A estreia foi um tropeço comercial: a bilheteria mundial ficou distante do orçamento. O filme, porém, ganhou força com o tempo, inclusive entre fãs brasileiros de games, música e cultura pop. O que começou como um resultado decepcionante nas salas de cinema virou referência de estilo para um público que não estava interessado em seguir a opinião do caixa.
Fontes: dados de bilheteria de Scott Pilgrim vs. the World e registro brasileiro de exibição, recepção ou redescoberta.
Como o Brasil transformou fracassos de cinema em clássicos
Antes de os serviços de streaming permitirem escolher praticamente qualquer título, a televisão aberta ajudava a decidir o que uma geração assistiria. Um filme podia desaparecer rapidamente das salas de cinema americanas e, anos depois, encontrar milhões de oportunidades de ser visto durante a tarde na casa dos brasileiros.
Não era preciso comprar ingresso para a estreia. Bastava chegar da escola, ligar a TV e encontrar uma aventura que voltaria à programação no ano seguinte. O videocassete e, depois, o DVD também ajudaram filmes de ação, fantasia e comédia a conquistar públicos que não tinham comparecido às sessões originais.
É importante não confundir fenômenos. As Branquelas, De Repente 30 e O Máskara, por exemplo, são bastante lembrados no Brasil, mas tiveram bons resultados comerciais no cinema. Ser querido na Sessão da Tarde não significa necessariamente ter fracassado em Hollywood.
Da mesma forma, sucesso posterior entre fãs brasileiros não demonstra que o filme tenha arrecadado mais dinheiro no Brasil do que nos Estados Unidos. Os dados de audiência histórica e de receitas domésticas nem sempre estão disponíveis para uma comparação assim.
No fim, existe algo que nem o orçamento de um estúdio consegue comprar de imediato: uma história que fica na cabeça das pessoas. Alguns desses filmes precisaram esperar muitos anos para descobrir isso.
Hollywood contou os ingressos da estreia. O Brasil, em muitos desses casos, continuou apertando o play.










