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“Olhe bem para a câmera!”: cantora PCD transforma biometria facial em música e dá uma aula de acessibilidade

Com muito bom humor, Mayara Rios usa uma composição animada para expor as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência visual diante de uma tecnologia que parece não enxergar todo mundo.

A tecnologia evoluiu tanto que hoje reconhece rostos, identifica movimentos, protege contas bancárias e promete facilitar nossa vida. Só falta um pequeno detalhe: avisar aos desenvolvedores que existem pessoas que não enxergam. A cantora, pianista e compositora Mayara Rios resolveu abordar essa questão da melhor maneira que conhece. Fez uma música. E daquelas que grudam na cabeça, fazem rir e, quando a gente percebe, já deram um belo puxão de orelha em quem precisava ouvir.

Com um refrão animadíssimo, Mayara canta: “Ai que legal, biometria facial!”. A ironia fica completa no verso seguinte, quando ela deixa claro o tamanho da encrenca para uma pessoa com deficiência visual. O resultado é uma espécie de protesto musical que poderia perfeitamente embalar uma campanha publicitária de inclusão. De preferência, uma campanha que os próprios desenvolvedores de aplicativos fossem obrigados a assistir.

A história começa com uma situação absolutamente corriqueira. Mayara troca de celular e resolve acessar sua conta bancária. Até aí, tudo certo. O aplicativo, preocupado com a segurança da cliente, anuncia que será necessário realizar a biometria facial. E começa a sessão de ginástica: posicione o rosto no círculo, vire para a direita, vire para a esquerda, levante a cabeça, abaixe a cabeça, abra bem os olhos e, finalmente, olhe diretamente para a câmera.

Para quem enxerga, a operação pode ser resolvida em segundos. Para quem não enxerga, começa uma modalidade esportiva que ainda não entrou para o programa paralímpico: adivinhar onde está o círculo enquanto recebe ordens de um celular.

E, quando parece que o problema ficou restrito ao banco, a cantora apresenta uma segunda aventura. Chegou a época das eleições e ela resolveu instalar o e-Título para facilitar a vida. Adivinhem quem apareceu novamente? A biometria facial, com seu repertório de comandos e a insistência em exigir que a usuária olhe para a câmera.

Mayara conta que a última orientação recebida de um aplicativo foi justamente essa. Na publicação em que apresenta a composição, ela deixa claro que compreende a importância dos mecanismos de segurança, mas questiona a ausência de alternativas acessíveis. Afinal, se a tecnologia consegue reconhecer um rosto, seria tão complicado reconhecer que nem todo mundo consegue seguir as mesmas instruções?

O humor da cantora torna a crítica ainda mais interessante porque coloca o problema no cotidiano. A biometria facial virou uma ferramenta presente em serviços essenciais, mas determinadas etapas de reconhecimento ainda podem representar obstáculos para pessoas com deficiência visual. E ninguém deveria precisar de ajuda de terceiros para realizar uma operação bancária ou acessar um serviço público simplesmente porque o aplicativo não oferece um caminho adequado.

Mayara tem uma trajetória que vai muito além dessa composição. Formada pelo Conservatório de Tatuí, é cantora, pianista e compositora, além de desenvolver trabalhos dedicados à música popular brasileira. Deficiente visual desde os oito anos de idade, construiu uma carreira que reúne interpretação, pesquisa musical e composições autorais. Sua produção mostra que ela também sabe usar a música para provocar reflexões sobre questões que fazem parte da própria experiência.

E há algo especialmente interessante na maneira como escolheu abordar a biometria facial. Em vez de apresentar uma longa reclamação, Mayara transformou a experiência em uma canção divertida, com situações reconhecíveis e um refrão que faz o ouvinte rir justamente daquilo que deveria causar constrangimento aos responsáveis pelo desenvolvimento dessas ferramentas.

Vale lembrar que o próprio Tribunal Superior Eleitoral informa que o e-Título possui recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual. O aplicativo, entretanto, também utiliza procedimentos de validação facial para determinadas funcionalidades. A experiência relatada por Mayara chama a atenção para uma distinção importante: oferecer recursos acessíveis em algumas partes de um sistema não significa necessariamente eliminar todas as barreiras que seus usuários podem encontrar.

Enquanto empresas e instituições aperfeiçoam seus sistemas de segurança, a cantora segue fazendo o que sabe: música. E, pelo visto, encontrou uma maneira bastante eficiente de conseguir que a discussão sobre acessibilidade chegue a mais pessoas.

Agora, resta saber se os responsáveis pelos aplicativos vão ouvir o recado. Porque pedir para Mayara olhar diretamente para a câmera já não deu muito certo. Quem sabe ouvindo a música eles finalmente percebam o problema.

CONFIRA A MÚSICA:

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo