Em entrevista ao Conexão Protagonistas, executiva fala sobre dinheiro, crescimento profissional, maternidade e por que as mulheres ainda enfrentam resistência quando demonstram vontade de ganhar mais
Renata Herani nunca teve muita dificuldade para admitir que queria mais. Mais dinheiro, mais responsabilidades, mais espaço nas decisões. Antes de assumir a presidência da Tecnobank, costumava pesquisar salários, consultar profissionais de recursos humanos e comparar sua remuneração com a de executivos em posições semelhantes. Quando considerava que merecia ganhar mais, procurava a chefia.
“Nunca tive vergonha de pedir aumento”, afirmou durante sua participação no podcast Conexão Protagonistas, apresentado por Christiane Pelajo, Carolina Dostal e Maíra Donnici.
A declaração abriu espaço para uma conversa sobre um assunto que ainda provoca desconforto nas relações profissionais: por que falar abertamente sobre dinheiro e ambição continua sendo tão difícil, especialmente para as mulheres?
Cientista política, com experiência nos setores público e privado, Renata contou que estava na Tecnobank havia 12 anos e tinha assumido o cargo de CEO cerca de um ano antes da entrevista. Sua ascensão, segundo ela, aconteceu de maneira natural, acompanhando o crescimento de uma empresa que ajudou a construir.
A disposição para conquistar o que deseja, porém, começou bem antes da carreira executiva.
De vendedora de árvores de Natal a CEO
Quando tinha aproximadamente 15 anos e morava em Brasília, Renata queria comprar uma bolsa Victor Hugo. Para conseguir o dinheiro, fazia pequenas árvores de Natal com balas, que pretendia vender nos semáforos da região onde vivia. Conseguiu comprar a bolsa. Mais tarde, ao entrar na faculdade, começou a trabalhar como operadora de telemarketing.
A história foi lembrada durante a entrevista como um exemplo de sua relação com a ambição. Para Renata, desejar alguma coisa nunca foi motivo de constrangimento.
“Eu sempre fui atrás daquilo que eu desejava”, contou.
Essa disposição também orientou suas escolhas profissionais. Desde cedo, ela queria participar de espaços onde pudesse influenciar decisões. Reconhece, entretanto, que nem todas as mulheres cresceram com a mesma liberdade para expressar seus objetivos.
Renata atribui parte de sua segurança à educação que recebeu. Segundo a executiva, a família sempre a incentivou a buscar seus interesses e lhe proporcionou estabilidade emocional para fazer escolhas.
Mesmo assim, acredita que a ambição feminina continua sendo mal recebida em determinados ambientes.
“Eu acho que ainda existem muitos espaços em que isso é tratado de uma maneira mais como um tabu”, afirmou, referindo-se à resistência enfrentada por mulheres que desejam ocupar posições de maior responsabilidade.
Por que pedir aumento ainda causa tanto constrangimento?
Christiane Pelajo levou a discussão para a questão da educação financeira. A jornalista contou que cresceu em uma família ligada ao mercado financeiro e aprendeu desde criança a administrar o próprio dinheiro. Seu pai estabelecia um valor fixo de mesada e não costumava abrir exceções quando o dinheiro acabava.
Apesar dessa formação, Christiane reconheceu que pedir aumento salarial sempre foi uma situação desconfortável.
Carolina Dostal levantou outro aspecto. Na sua avaliação, existe uma resistência cultural no Brasil a falar sobre remuneração, lucros e patrimônio, o que dificulta até mesmo a comparação de salários entre profissionais.
O problema é que, sem referências, muitos trabalhadores não sabem se estão sendo remunerados de maneira compatível com suas responsabilidades.
Renata explicou que sempre procurou informações antes de negociar. Pesquisava levantamentos salariais, conversava com especialistas e avaliava o porte das empresas utilizadas na comparação. Agora, como CEO, continua adotando esse cuidado na definição das faixas de remuneração da Tecnobank.
A executiva também comentou como reage quando um funcionário pede aumento. Segundo ela, a solicitação não representa um problema, desde que exista uma avaliação coerente da experiência, das responsabilidades e dos resultados apresentados.
Às vezes, a resposta é positiva. Em outras situações, o profissional precisa amadurecer ou demonstrar melhor sua capacidade antes de receber uma promoção.
O importante, segundo Renata, é que uma negativa tenha justificativa. Por isso, ela defende critérios claros de avaliação, pesquisas salariais e conversas periódicas entre gestores e funcionários.
“Não vamos ser hipócrita. O propósito é importante, mas o dinheiro tem que andar de mãos dadas”, declarou.
Para a CEO, satisfação profissional e remuneração precisam manter uma relação equilibrada. A Tecnobank, segundo ela, realiza avaliações periódicas e trabalha com referências de prazo para promoções de cargo e reajustes por mérito, embora esses movimentos dependam do desempenho de cada profissional.
Após a maternidade, Renata pediu mais trabalho
Um dos momentos mais pessoais da entrevista surgiu quando as apresentadoras perguntaram sobre a relação entre maternidade e ambição profissional.
Renata contou que, durante a pandemia, quando ainda ocupava a diretoria de Relações Institucionais, passou por um período de menor atividade. Boa parte de seu trabalho dependia de reuniões presenciais, viagens e articulações que ficaram limitadas pelas restrições sanitárias.
Ela já se sentia inquieta antes de engravidar. Depois do nascimento da primeira filha, percebeu que não desejava se dedicar exclusivamente à maternidade.
Ao retornar da licença, em vez de pedir uma redução nas responsabilidades, fez o contrário. Procurou a empresa, colocou-se à disposição e manifestou interesse em assumir novas tarefas.
“Eu cheguei chegando, me apresentei e me coloquei à disposição e as coisas foram acontecendo”, contou.
Com a retomada das atividades presenciais, voltou a viajar pelo país e participou das articulações relacionadas ao marco legal das garantias. Posteriormente, assumiu também a diretoria de Comunicação e Marketing, acumulando a nova responsabilidade com a área de Relações Institucionais.
O nascimento da filha mudou, inclusive, sua maneira de avaliar o valor do próprio trabalho.
Renata explicou que passou a considerar com mais atenção o tempo que dedicava à empresa e o período em que ficava longe da família. Queria continuar crescendo profissionalmente, preservar o padrão de vida que havia conquistado e oferecer boas oportunidades à filha.
A discussão provocou uma reflexão entre as apresentadoras sobre a cobrança enfrentada pelas mulheres após a maternidade. Existe uma expectativa de que se tornem menos disponíveis para o trabalho ou reduzam suas ambições, mesmo quando desejam continuar avançando na carreira.
Renata rejeitou essa ideia em sua própria experiência.
“Me sinto muito mais confortável no papel de executiva do que de mãe”
Grávida do segundo filho durante a gravação do episódio, Renata reconheceu que a maternidade continua sendo um aprendizado, mesmo depois de anos de experiência em cargos de direção.
“Eu já era uma executiva, 20 anos. Eu sou mãe agora, cinco anos. Então eu me sinto muito mais confortável no papel de executiva do que de mãe. É mais fácil.”
A declaração chamou a atenção pela franqueza. Renata explicou que conhece melhor as exigências profissionais, pois trabalha há duas décadas nessa área. Já a maternidade apresenta situações novas a cada fase do desenvolvimento dos filhos.
Ela também fez questão de reconhecer as condições que permitem conciliar as duas responsabilidades. Conta com o apoio dos pais e de uma profissional contratada para ajudar nos cuidados com a filha.
Sem essa estrutura, afirmou, seria muito mais difícil manter o ritmo de trabalho.
A CEO disse que nunca considerou abandonar a carreira para se dedicar integralmente à maternidade. Isso não significa que consiga separar completamente as duas funções. Pelo contrário. Na sua avaliação, a vida pessoal e a profissional acabam se misturando, e ela aprendeu a conviver com essa realidade sem carregar tanta culpa.
Existe um limite para a ambição?
A conversa também abordou o outro lado da vontade de crescer. Carolina Dostal questionou se a busca permanente por dinheiro e sucesso pode fazer com que profissionais deixem de perceber outras prioridades da vida.
Para ilustrar o problema, contou a história de uma amiga que construiu uma carreira bem remunerada, acumulou patrimônio e, quando decidiu ter filhos, enfrentou dificuldades para engravidar. A experiência mostrou que nem todos os planos pessoais podem ser administrados com a mesma previsibilidade de uma carreira.
Christiane Pelajo trouxe uma perspectiva diferente. Ao recordar seus 26 anos na TV Globo, contou que sempre quis crescer profissionalmente, mas não tinha necessariamente uma bancada ou um cargo específico como objetivo.
A oportunidade de apresentar o Jornal da Globo, por exemplo, surgiu antes do que imaginava.
A jornalista se preparava para novas responsabilidades, mas não estabelecia previamente cada posição que desejava ocupar.
Renata reconheceu que o crescimento profissional pode ocorrer de maneiras diferentes. Para ela, um sinal de que chegou a hora de procurar um novo desafio aparece quando a pessoa já domina suas responsabilidades e percebe que pode assumir outras.
Isso não significa aceitar qualquer oportunidade sem avaliar as consequências. A executiva defendeu que profissionais, principalmente os mais jovens, considerem sua experiência, seu conhecimento técnico, a rede de contatos e as entregas realizadas antes de exigir promoções ou remunerações mais altas.
As apresentadoras também discutiram como abordar uma negociação salarial. Na avaliação do grupo, preparar argumentos, conversar com profissionais mais experientes e comunicar diretamente o que se deseja costuma funcionar melhor do que recorrer a indiretas ou esperar que a chefia perceba sozinha a insatisfação.
Renata terminou a conversa com um conselho sobre oportunidades profissionais. Ao observar que alguns jovens hesitam diante de novas responsabilidades porque ainda não têm certeza sobre o que desejam fazer, sugeriu mais disposição para experimentar.
“O cavalo tá passando selado, monta aí”, afirmou, arrancando risadas das apresentadoras.
A frase sintetizou uma das ideias mais recorrentes da entrevista: crescer profissionalmente exige preparo, mas também depende da disposição para assumir responsabilidades que nem sempre estavam nos planos.
Ao longo do episódio, as quatro participantes reconheceram que tiveram experiências distintas com dinheiro, ambição e carreira. O ponto em comum foi a percepção de que as mulheres precisam encontrar mais liberdade para discutir salários, manifestar interesses e negociar suas condições de trabalho sem que essa atitude seja interpretada como falta de gratidão.










