“Democracia é ter que aguentar quem te dá vontade de enfiar a cabeça numa air fryer.” — Diguinho Coruja
Entre a patrulha ideológica, os fiscais da democracia e a dificuldade de discutir propostas, decidi finalmente revelar de que lado estou.
Muita gente começou a me cobrar um posicionamento político nas redes sociais por causa das eleições.
Mentira. Foi uma pessoa só. Mas meu ego gostou tanto da importância que me deram que eu achei melhor tratar o assunto como se houvesse uma multidão de fãs enlouquecidos exigindo uma coletiva de imprensa.
A cobrança veio acompanhada de uma informação aparentemente gravíssima: eu tenho 33 mil seguidores no Instagram. Não sei exatamente a partir de quantos seguidores alguém perde o direito de ficar quieto, mas, pelo visto, já passei desse número.
Eu fiquei preocupado. Será que eu ainda posso escolher sobre o que eu quero falar? Existe alguma cláusula escondida nos termos de uso do Instagram estabelecendo que, ao atingir determinado número de seguidores, eu sou automaticamente convocado a participar do debate eleitoral?
Pensei no meu amigo Heródoto Barbeiro, jornalista, com seus 42 mil seguidores. Ele também não declarou apoio a nenhum candidato. Será que ele já foi intimado? Será que existe uma multa? Precisamos contratar advogado? Se for pro STF a conta vai ficar cara.
O curioso é que vivemos uma época em que muita gente cobra isenção dos jornalistas, imparcialidade dos veículos de comunicação e neutralidade de quem informa. Mas, se a pessoa não declara preferência política, também está errada.
Se fala, é tendenciosa. Se não fala, é omissa. Se concorda, é consciente. Se discorda, é fascista.
Aliás, a palavra fascista virou uma das mais utilizadas e menos estudadas do vocabulário político. O humorista Diguinho Coruja brinca justamente com essa facilidade de distribuir rótulos. E a provocação merece atenção.
Fascismo tem significado histórico e político. É coisa séria. Só que, nas discussões de internet, o termo muitas vezes virou um jeito preguiçoso de encerrar uma conversa. Em vez de explicar por que o outro está errado, basta classificá-lo.
O sujeito discorda de você? Fascista.
Discorda de quem você gosta? Fascista.
Não declara voto? Suspeito de fascismo.
Daqui a pouco, pedir ketchup na pizza vai exigir esclarecimentos sobre suas tendências autoritárias. Embora seja um pouco estranho essa prática de ketchup na pizza, em algumas só assim pra descer. Será que meu número de seguidores permite por ketchup na pizza?
A ironia é que, nessa brincadeira de classificar todo mundo, você provavelmente também é fascista para alguém. Basta encontrar uma pessoa suficientemente convencida de que a única maneira democrática de pensar é pensar exatamente como ela.
E é aí que a coisa começa a ficar engraçada. Ou preocupante. Ou as duas coisas. Depende do seu grau de paciência de continuar a ler o que eu estou escrevendo.
Tenho insistido numa ideia que, ingenuamente, achei que seria bem recebida: que tal discutirmos propostas e planos de governo em vez de passar o dia brigando por narrativas? Parecia uma sugestão razoável. Descobri que estava propondo algo muito mais complicado do que imaginava.
Discutir plano de governo dá um trabalho danado. Primeiro, é preciso encontrar o documento. Depois, ler. E que giram em torno de 60 a 80 páginas. Se pelo menos tivesse em formato de gibi.
Aí temos que entender o que o candidato está prometendo, quanto custa, de onde virá o dinheiro, quem vai executar, em quanto tempo e se aquilo depende do Executivo, do Legislativo ou de uma intervenção divina. E o mais importante, questionar o candidato.
Confesso. É cansativo. Que ideia estúpida a minha. Eu sou é muito burro.
Narrativa é muito mais prática. Você escolhe um mocinho, um vilão, recebe meia dúzia de frases prontas e já pode começar a discutir com desconhecidos antes mesmo do café da manhã.
Narrativa desperta sentimento. E sobre sentimento todo mundo tem alguma coisa a dizer.
Talvez seja por isso que seja tão difícil encontrar alguém discutindo seriamente como resolver os problemas do país. É muito mais divertido descobrir qual candidato falou uma bobagem, quem foi humilhado numa entrevista ou qual celebridade declarou apoio ao lado errado.
E quando alguém pergunta quanto vai custar determinada promessa, de onde sairá o dinheiro ou qual é o plano para colocá-la em prática, a conversa perde o entusiasmo. Aí pra encerrar você chama o outro de fascista, comunista ou qualquer outro “ista”.
Eu tenho a impressão de que estamos mais interessados em ganhar a discussão do que em entender o problema.
Outro fenômeno curioso é a quantidade de pessoas que defendem apaixonadamente a democracia, desde que ninguém abuse dessa liberdade para discordar delas.
Democracia virou uma palavra linda para estampar camiseta, colocar na bio do Instagram e usar em discursos. O problema é que ela vem acompanhada de um inconveniente: pessoas que pensam diferente também podem participar.
E irrita bastante gente.
Vivemos falando sobre diversidade, inclusão, respeito às diferenças, liberdade de ser quem se é. Eu acho ótimo. E é lindo ver isso. Só que, para alguns assuntos, como política, algumas pessoas parecem acrescentar uma observação em letras miúdas: você pode ser diferente, desde que pense igual a mim.
Pode ter a religião que quiser, os gostos que quiser, a roupa que quiser, a identidade que quiser. Mas experimente discordar da opinião de alguém para descobrir como essa tolerância pode ter uma validade bastante curta.
E eu não estou dizendo que todas as opiniões sejam igualmente boas, corretas ou aceitáveis. As ideias podem e devem ser questionadas (e faz parte da liberdade ainda, né?). O que me parece estranho é essa necessidade de transformar toda discordância em defeito moral e todo silêncio em confissão de culpa.
Uma pessoa pode não querer declarar seu voto por diversos motivos. Pode estar indecisa, pode não gostar das opções disponíveis ou pode preferir discutir propostas e planos de governo. Ou simplesmente não quer apoiar candidato nenhum para depois não precisar ficar com cara de cu defendendo o indefensável.
Isso também é uma escolha.
E antes que alguém interprete meu silêncio como falta de consciência política, talvez seja bom esclarecer que não declarar apoio a um candidato não significa abrir mão do direito de criticá-lo. Aliás, pretendo continuar criticando propostas ruins, promessas impossíveis e discursos que não sobrevivem a uma calculadora. Venham de onde vierem (leia-se: de qualquer lado).
No vídeo que circula nas redes, Jansen Serra resolveu tratar a cobrança por posicionamento com o nível de solenidade que o assunto merece: declarou seu apoio ao McDonald’s.
Achei sensato.
Pelo menos é uma escolha que permite discutir propostas concretas. Você sabe quanto custa, conhece o cardápio e, se a promessa não corresponde à fotografia, pode reclamar.
Inspirado por tamanha coragem cívica, decidi que chegou o momento de assumir publicamente meu posicionamento.
Sou Nescau.
Pronto. Falei.
Eu sei que vou decepcionar muita gente, principalmente os defensores do Toddy. Mas não posso mais esconder minhas convicções para agradar a todos.
Isso não significa, evidentemente, que eu não reconheça os méritos do Toddy. Já tive boas experiências com ele e admito que, dependendo das circunstâncias, pode ser uma alternativa perfeitamente aceitável.
Também não descarto uma terceira via com o chocolate do padre ou Ovomaltine.
Só espero que ninguém me cobre um plano de governo para o achocolatado.
Aí já é pedir demais.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










