Próximo presidente poderá ter a oportunidade de indicar até quatro nomes para o Supremo, mas eles não entram todos em 2027. Cada nomeação depende da abertura de uma vaga — e o STF continua tendo 11 ministros.
A possibilidade de o próximo presidente da República fazer várias indicações ao Supremo Tribunal Federal tem ganhado espaço no debate eleitoral. E, junto com ela, surgiu uma confusão bastante compreensível: se o STF tem 11 ministros e Flávio Bolsonaro, caso eleito, puder indicar três ou quatro nomes, o tribunal passaria a ter 14 ou 15 ministros?
Não.
O ponto fundamental é que o presidente da República não recebe uma espécie de “cota” de ministros do STF ao assumir o cargo. Ele somente pode indicar um novo ministro quando existe uma vaga no tribunal.
A Constituição é explícita: o Supremo Tribunal Federal é composto por 11 ministros. Além disso, cabe ao presidente da República indicar o nome para uma vaga, mas a nomeação depende previamente da aprovação da maioria absoluta do Senado Federal — atualmente, pelo menos 41 dos 81 senadores.
Então de onde vêm as três ou quatro indicações?
A explicação está na idade dos atuais integrantes do Supremo e em uma vaga que já existe. Pelas regras atuais, magistrados se aposentam compulsoriamente aos 75 anos. Três ministros atingirão essa idade durante o próximo mandato presidencial.
Luiz Fux nasceu em 26 de abril de 1953 e completa 75 anos em abril de 2028. Cármen Lúcia nasceu em 19 de abril de 1954 e completa 75 anos em abril de 2029. Gilmar Mendes nasceu em 30 de dezembro de 1955 e completa 75 anos em dezembro de 2030.
Portanto, mantidas as regras atuais e caso permaneçam no tribunal até a aposentadoria compulsória, três vagas serão abertas durante o mandato presidencial iniciado em 2027. Mas isso não significa que o novo presidente poderá indicar três ministros assim que tomar posse. É justamente o contrário.
Primeiro o ministro sai. Depois surge a indicação
Imagine que o STF esteja completo, com seus 11 integrantes. Em abril de 2028, Fux completa 75 anos e deixa o tribunal. O STF passa momentaneamente de 11 para 10 ministros. Surge então a vaga. O presidente indica um nome, o Senado analisa essa indicação e, se houver aprovação, o novo ministro toma posse. O STF volta a ter 11.
Em 2029, acontece a mesma coisa com a vaga de Cármen Lúcia. 11 → aposentadoria → 10 → indicação e aprovação → 11. E novamente em dezembro de 2030, quando Gilmar Mendes atingir a idade da aposentadoria compulsória.
Portanto, não existe o movimento:
11 + três indicados = 14 ministros.
O que existe é:
11 → sai um → entra outro → continuam 11.
E por que se fala então em quatro indicações?
Porque existe atualmente uma quarta cadeira envolvida nessa discussão. Luís Roberto Barroso anunciou sua aposentadoria antecipada do STF em outubro de 2025.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias, para ocupar essa cadeira, mas o Senado rejeitou a indicação em 29 de abril de 2026, por 42 votos contrários e 34 favoráveis. Como eram necessários pelo menos 41 votos favoráveis, a vaga permaneceu aberta.
É essa cadeira que pode transformar a conta de três em quatro. Mas há uma diferença importante: essa vaga já existe agora. Ela não pertence automaticamente ao próximo presidente.
Após a rejeição de Messias, Lula manteve a prerrogativa constitucional de enviar ao Senado uma nova indicação. Não existe prazo legal para que o presidente apresente outro nome. Isso significa que, enquanto Lula permanecer presidente, ele pode fazer uma nova indicação para a cadeira deixada por Barroso.
E aqui aparece uma informação particularmente importante neste ano eleitoral. A partir da eleição de 2026, a posse presidencial passa a acontecer em 5 de janeiro, e não mais em 1º de janeiro. Portanto, o atual mandato presidencial vai até a posse do sucessor, em 5 de janeiro de 2027.
E se Flávio Bolsonaro ganhar?
Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição e a vaga deixada por Barroso continuar aberta quando ele assumir a Presidência, poderá indicar um nome para ocupá-la. Depois, durante seu mandato, surgiriam, pelas regras atuais, as vagas decorrentes das aposentadorias compulsórias de:
2028 — Luiz Fux
2029 — Cármen Lúcia
2030 — Gilmar Mendes
Nesse cenário específico, Flávio poderia ter a oportunidade de fazer quatro indicações ao STF durante o mandato. Mas não faria quatro nomeações ao tomar posse. Uma poderia decorrer da vaga já existente e as outras três apareceriam gradualmente, conforme os atuais ministros atingissem os 75 anos.
E se Lula ganhar?
Se Lula for reeleito, a lógica é exatamente a mesma. As vagas de Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes ocorreriam durante seu novo mandato e, portanto, caberia ao presidente da República indicar os nomes para ocupá-las.
Isso significa que Lula poderia ter a oportunidade de fazer três novas indicações decorrentes dessas aposentadorias entre 2028 e 2030. Além disso, existe a atual cadeira de Barroso. Se essa cadeira continuar vaga até o próximo mandato, ela também poderá ser preenchida pelo presidente reeleito.
Mas há uma diferença importante: Lula não precisa ser reeleito para fazer uma nova indicação para a vaga de Barroso, porque ela já está aberta durante seu atual mandato. Depois da rejeição de Jorge Messias pelo Senado, permanece com o atual presidente a prerrogativa de apresentar outro nome.
O presidente indica, mas não decide sozinho
Outra confusão frequente é tratar a indicação presidencial como se significasse automaticamente a entrada do escolhido no Supremo. Não é assim.
O artigo 101 da Constituição estabelece que os ministros do STF são nomeados pelo presidente da República depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal.
O candidato passa por análise da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, incluindo sabatina, e depois precisa receber pelo menos 41 votos favoráveis no plenário.
O caso Jorge Messias demonstrou, inclusive, que a rejeição é uma possibilidade concreta: sua indicação foi recusada pelo Senado em abril de 2026.
Portanto, dizer que determinado presidente “terá quatro ministros no STF” simplifica excessivamente o processo. Mais preciso seria dizer:
o próximo presidente poderá ter a oportunidade de indicar até quatro nomes para vagas no STF ao longo do mandato, dependendo da situação da cadeira hoje aberta e das vagas que efetivamente surgirem.
O STF não passaria a ter 14 ou 15 ministros
Essa talvez seja a principal conclusão. Pelas regras constitucionais atuais, o Supremo continua tendo 11 cadeiras. Um presidente não chega ao Palácio do Planalto e acrescenta ministros ao tribunal simplesmente porque terá direito a fazer indicações durante seu mandato.
As vagas aparecem quando algum integrante deixa o STF — por aposentadoria, renúncia, morte ou outra hipótese de vacância. Somente então surge a oportunidade de indicação de um substituto.
Assim, quando se diz que o próximo presidente poderá indicar três ou quatro ministros ao Supremo, não significa:
“ele assume e coloca três ou quatro pessoas no STF”.
Significa:
“ao longo de quatro anos, três ministros atingirão a aposentadoria compulsória e poderão ser substituídos pelo presidente que estiver no cargo; além disso, existe atualmente uma quarta cadeira vaga.”
É uma diferença pequena na frase, mas enorme na compreensão de como funciona o Supremo Tribunal Federal.










