Em meio a uma crise, a primeira coisa que se perde é a verdade.
Diário de Bordo 10 – outubro 2026
Querido Diário!
Resolvi filosofar um pouco …
academicamente…
Estamos em 1946. Há 80 anos atras! Um Frances resolve escrever uma tese.. O nome dele é Jean-Paul Sartre, e é bem provável, se não foi meu aluno, que você nunca tenha lido uma linha sequer dele. Tudo bem!
Bem: Mas a causa que você defende, hoje em dia, foi desenhada na cabeça dele há 80 anos atrás!
Explico: Em 1943 ele escreveu que a existência vem antes da essência.
Ok, Traduzindo: não existe natureza humana, não existe destino, não existe papel que venha pronto; tudo é construção. Lembrei da musica do Chico Buarque. Parece bonito, né? Foi esse o encanto. Mas essa frase abriu todas as portas, escancarou. Se não existe essência, não existe essência de gênero, não existe essência de sexualidade. Tudo vira construção social. E se tudo é construção, tudo pode ser desmontado. Aí Sartre foi além: casou essa ideia com o materialismo histórico de Karl Marx. A sociedade é um produto da ação humana, então pode ser reconstruída.
Dai Ele montou a caixa de ferramentas: o grupo oprimido, a vanguarda, a conscientização, a libertação. Assim quando a revolução de classe não veio ao nosso oriente, o esquema foi transferido. O proletariado virou o grupo identitário. E cada grupo herdou a mesma lógica: narrativa de opressão, vanguarda intelectual, inimigo a combater. Já ouviu algo assim?
A frase mais famosa do feminismo nasceu dessa fábrica: “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Escrita pela companheira de Sartre, Simone de Beauvoir. É existencialismo puro aplicado ao corpo. Em 1946, Sartre já tinha escrito que o judeu é fabricado pelo olhar do antissemita. O opressor define quem você é, e a luta passa a ser por quem controla essa definição. Essa é a lógica de todo movimento identitário até hoje. Não mudou em 80 anos!
Em 1960, fundiu tudo na crítica da razão dialética. E em 1961 abençoou a violência revolucionária no prefácio de um livro sobre descolonização.
Albert Camus rompeu com Sartre em 1952, depois de escrever que a liberdade absoluta vira tirania. Raymond Dyren chamou o marxismo de “ópio dos intelectuais”, a religião secular que anestesia o pensamento. E aqui está a Verdade, sempre a verdade, que você não quer ouvir: você não está libertando ninguém. Você está herdando um projeto desenhado em Paris, há 80 anos atrás, por um homem que você nunca leu. Olha o resultado dessa filosofia no mundo real. Em 1972, quase metade do mundo confiava no próximo. Hoje, só um terço. A confiança nas instituições está no menor nível já medido. A solidão virou epidemia oficial. Uma sociedade que não confia em ninguém. Dividida em blocos, cada um trancado na própria narrativa, cada um vendo o outro como inimigo. Isso não é libertação; isso é desintegração. O filósofo Roger Scruton chamou isso de cultura da repudiação.
Enfim, meu diario: O sujeito que recusa todos os vínculos—pai, vizinho, cidadão, irmão—acaba sem casa. E um povo sem casa não constrói nada, só destrói. Então me responde uma coisa: você luta por uma causa desenhada em Paris há 80 anos por um homem que você nunca leu?
E se esse homem estivesse errado?
O que sobra da sua luta?
Roberto Coelho é historiador e comunicólogo.
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