Música

Entender com a nuca: a proposta artística de T. Greguol em “E SÓ”

“Entender com a nuca”: o artista T. Greguol transforma música, encarte e percepção em experiência artística no álbum “E SÓ”

Em um tempo em que álbuns são consumidos em playlists apressadas, capas viraram miniaturas de celular e o streaming transformou a música em fluxo contínuo, o artista paulistano T. Greguol segue na direção oposta: desacelera, materializa e transforma o disco em experiência.

Seu novo trabalho, “E SÓ”, é o décimo primeiro álbum da carreira e talvez um dos mais conceituais. Não apenas pelas oito composições inéditas, mas pela forma como a obra foi construída: a partir de uma ideia sintetizada no título, expandida visualmente na capa e aprofundada em um encarte físico enviado a amigos — mesmo que a música exista apenas no ambiente digital.

“‘E só’ não significa ‘pouco’. Significa ‘é isso e nada mais’. A expressão delimita a natureza de algo, não o seu valor ou sua importância”, explica Greguol. “Eu gosto de síntese.”

Diferente do processo tradicional de composição, desta vez o artista começou pelo conceito. O título veio antes das músicas.

“Decidi que esse seria o tema do disco e, a partir dele, escolhi e escrevi canções que dialogassem com essa ideia. Nesse caso, o título não nasceu das músicas; as músicas nasceram do título.”

A capa do álbum — uma Terra isolada ao lado da Lua em um fundo escuro — resume bem essa proposta. Para Greguol, ela funciona quase como um lembrete existencial.

“Temos uma tendência a complicar tudo. Ideias, divisões e ambições que muitas vezes nos afastam do que é essencial. A Terra e a Lua isoladas representam isso: tudo o que somos e temos está aqui. Nosso alcance real é esse.”

Segundo ele, a imagem também carrega uma crítica sutil às grandiosidades contemporâneas.

“Essa lembrança nos convida a abandonar egoísmos e excessos para prestar atenção ao que está ao nosso alcance e à responsabilidade que temos com este lugar e com todos os seus habitantes.”

A arte como charada

Artista visual, escritor e músico, T. Greguol construiu ao longo de mais de duas décadas uma produção artística que mistura música, literatura, artes visuais e performance. Em sua biografia, define sua própria obra como algo “acessível como uma charada: para entender com a nuca, não com a testa”.

A frase parece estranha à primeira vista, mas faz sentido quando ele explica.

“A arte funciona como uma charada. Temos esse superpoder de perceber sentidos que vão além do que está explícito”, diz. “Entender com a testa é o lugar dos pensamentos precipitados, óbvios, literais e mecânicos.”

Por isso, Greguol não se incomoda quando o público encontra interpretações diferentes das suas intenções originais.

“Uma obra sempre ganha novos sentidos quando encontra outras pessoas”, afirma. “Não me interessa controlar a leitura de ninguém.”

Ao mesmo tempo, ele procura deixar pistas suficientes para que a obra não se torne vazia ou arbitrária.

“Tento evitar que o que faço seja interpretado de maneira completamente estapafúrdia ou nociva.”

O retorno do encarte físico

Talvez um dos aspectos mais curiosos de “E SÓ” seja justamente algo que quase desapareceu na era digital: o encarte.

Mesmo sem lançar CDs, Greguol produz versões físicas do projeto com textos, conceitos, créditos e materiais gráficos que envia para pessoas próximas.

A prática surgiu como resposta a uma ausência sentida após seu retorno à música.

“Durante minha formação, discos e CDs vinham com encarte. Era assim que a gente conhecia melhor a obra, os músicos, as ideias e o contexto de cada trabalho”, relembra. “Quando voltei, senti falta disso.”

Mais do que nostalgia, o encarte virou extensão artística.

“É uma forma de materializar a obra e reunir elementos que ajudam a aprofundar a relação com o disco.”

Como artista visual, ele enxerga o material quase como documentação poética.

“O encarte revela o aprofundamento por trás da criação e registra pensamentos, conceitos e a época em que o trabalho foi realizado. Com o tempo, torna-se tão revelador quanto a própria música.”

Ao falar sobre formatos físicos, Greguol mistura humor e sinceridade.

“O vinil chiava, mas tinha capas grandes e encartes bonitos. O CD soava muito bem, mas os encartes eram pequenos. Fitas soavam mal e tinham encartes mequetrefes”, brinca. “Hoje existe o streaming. Eu faço o que posso com o que existe.”

Um álbum coletivo com 43 participantes

“E SÓ” também chama atenção pela estrutura coletiva. Cada faixa conta com músicos diferentes, sem repetição de participantes. Ao todo, 43 pessoas colaboraram no projeto.

“Agora, vinte e quatro anos depois, posso fazer o que quiser, com quem quiser, como quiser”, afirma.

A escolha não foi apenas estética, mas também afetiva.

“A variedade leva minha arte para lugares onde eu não conseguiria chegar sozinho.”

E completa com uma honestidade curiosa:

“Meu cérebro entende muito melhor arte e ciência do que qualquer outra coisa. Todo o resto me parece bastante desinteressante, inclusive muitas interações sociais. Então essa também é uma forma que encontrei de interagir com humanos de quem eu gosto.”

Mesmo trabalhando com múltiplos músicos e interpretações, Greguol afirma gostar do acaso controlado.

“Eu disponibilizo os materiais, crio alguns limites e interajo com os que considero os melhores. Só resultados bons podem sair disso.”

Entre as faixas, uma delas quase se perdeu no caminho.

“Por questões técnico-práticas, por um momento achei que ‘Pessoas’ ia ficar abaixo do que ela merecia. Mas adoro desafios artísticos, e ela acabou virando uma das minhas favoritas.”

“Ser artista não é uma opção”

Ao longo da conversa, fica claro que Greguol enxerga a arte menos como profissão e mais como condição existencial.

“Não acho que ser artista seja uma opção. É uma condição, no meu caso.”

Quando perguntado se cria para comunicar ou provocar percepção, ele amplia ainda mais a resposta.

“Os dois. Mas também crio porque é a única coisa de que eu realmente gosto.”

E emenda uma frase forte:

“Se eu não pudesse fazer arte, certamente já teria ido embora.”

Sua relação com a arte também passa pela ideia de investigação contínua.

“Não dá para dedicar a vida a alguma coisa que não seja uma forma de investigação. A arte é um jeito de observar, testar, perceber e compreender o mundo, os outros e a si mesmo.”

Talvez por isso ele valorize tanto as obras que permanecem abertas, incompletas ou difíceis de decifrar.

“Quanto menos entendo, mais tempo essa arte ficará comigo.”

Entre o algoritmo e a necessidade de criar

T. Greguol começou a lançar música em uma época em que artistas ainda sonhavam com contratos de gravadora. Hoje, vê um cenário completamente diferente.

“Antes existia a expectativa de conseguir um contrato, que era como arranjar um emprego. Hoje não tem mais como arranjar esse emprego.”

Ainda assim, ele não fala com amargura.

“Quem faz música, faz porque não pode evitar. É péssimo e ótimo ao mesmo tempo. Mas, antes de tudo, é o que é.”

No fim, “E SÓ” parece funcionar exatamente assim: uma obra que rejeita excessos, simplifica sem empobrecer e tenta devolver algum espaço para contemplação em meio ao ruído constante do mundo digital.

Ou, como diria o próprio Greguol, uma tentativa de fazer as pessoas entenderem menos com a testa — e um pouco mais com a nuca.

Você pode escutar e ter mais informações sobre o álbum aqui ó!

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo